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“Estamos derrotados neste sertão”: José Américo Camelo de Souza Velho diante de Canudos

 

Oficiais do 28º Batalhão de Infantaria, em 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República


José Américo Camelo de Souza Velho (1839-1902) foi um importante proprietário rural e chefe local do sertão baiano na segunda metade do século XIX. Coronel da Guarda Nacional, nasceu na Fazenda Ilha, em território atualmente pertencente ao município de Euclides da Cunha, e construiu seu patrimônio a partir da posse de diversas propriedades rurais, entre elas Ilha, Caimbé, Olhos d’Água, Mosteiro de São José, Tanque Novo, Baixas e Jueté. Era casado com Maria Rosa do Sacramento e mantinha estreitas relações familiares, políticas e de amizade com Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, a quem tratava em suas correspondências como “primo, compadre e amigo”. Conservador e opositor declarado de Antônio Conselheiro, José Américo acompanhou de perto o crescimento de Canudos e, posteriormente, os acontecimentos da guerra, experiência que deixou registrada nas cartas enviadas ao Barão entre 1894 e 1897. Faleceu em 18 de abril de 1902, no Massacará, onde foi sepultado.

É através deste personagem que analisaremos como a elite econômica rural do sertão enxergava Canudos e o conflito que se abateu sobre o arraial em 1897. Embora fosse um típico representante da elite local, com patente da Guarda Nacional, vasto patrimônio fundiário e fortes conexões de poder, José Américo manteve-se enquanto pôde em suas terras — propriedades bastante próximas ao emergente arraial de Canudos, localizadas nas imediações do Massacará e em áreas que hoje integram os municípios de Euclides da Cunha, Monte Santo e Cícero Dantas.

As suas cartas ao Barão, quatro no total, serão tomadas neste trabalho como fonte principal. Elas compõem o acervo salvaguardado pela Fundação Clemente Mariani / Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), disponibilizadas no repositório digital Corpus Eletrônico de Documentos Históricos do Sertão (CE-DOHS), constituindo preciosos manuscritos para o estudo historiográfico e linguístico do período.

A primeira carta data de 28 de fevereiro de 1894. Nela, revela-se como o fazendeiro temia o crescimento de Belo Monte, encarando-o como fortalecimento de Conselheiro e, sobretudo, como evidência da incapacidade do Estado republicano de manter a ordem no sertão por meio de suas forças coercitivas. Esse desespero traduz-se em expressões contundentes e superlativas, como ao colocar Conselheiro em plano de autoridade implacável e, de forma sarcástica e revoltada, declarar: “Eu não sou Brasileiro: e considero [...] a maior ofença que um homem me pode faser é chamar-me Brasileiro sou hoje considerado e pretendo naturalisar-me como Africano”.

O tom inflamado de José Américo traduz a apreensão concreta que sua classe social experimentava com o afluxo crescente de sertanejos a Canudos. Para um proprietário vizinho ao arraial, imerso em boatos e na constante perda de controle sobre a mão de obra e a segurança regional, o projeto conselheirista figurava como ameaça disruptiva e inaceitável.

Ao desabafar com a frase “Estamos derrotados neste sertão”, José Américo antecipa simbolicamente o desfecho muito antes do desenlace bélico formal: A mera consolidação daquela comunidade autônoma já significava a derrocada da autoridade senhorial tradicional que ele e seus pares encarnavam. Em outro momento, ao considerar que ele e o Barão estavam entre os nomes mais visados pelos conselheiristas, projeta o conflito sob uma ótica dicotômica e polarizada, pondo em choque a civilização/ordem vigente contra a sublevação de Belo Monte.

Em 1897, o temor acumulado finalmente se materializou. A retumbante aniquilação da expedição comandada pelo Coronel Moreira César espalhou pânico incontornável por todo o sertão. Ao escrever ao Barão em 4 de abril de 1897, José Américo já se encontrava em retirada forçada com sua família, tendo abandonado suas propriedades dias antes e buscando refúgio em outras localidades enquanto se dirigia à Serrinha. A guerra alcançava em cheio sua rotina e a estabilidade de seus negócios: nas missivas subsequentes, sucedem-se queixas sobre o gado desassistido, devastações e animais sacrificados.

Para o coronel sertanejo, a contenda deixava o plano retórico para converter-se em prejuízo patrimonial direto: “É impossível em curto pedaço de papel narrar tudo aquilo o que tenho sofrido”. Contudo, sua condição social e política permitia-lhe acionar canais vedados ao sertanejo comum. Inserido no círculo de confiança do Barão de Jeremoabo e respeitado pelas patentes do Exército, o general Arthur Oscar logo reconheceu sua estatura regional e abriu espaço para interlocuções diretas. Essa articulação demonstra a plasticidade com que os coronéis sertanejos mobilizavam prestígio e alianças estratégicas perante o poder militar central.

Essa proximidade levou José Américo a atuar decisivamente no apoio logístico às forças regulares da República: abriu suas propriedades como pontos de estacionamento e acampamento de tropas (notadamente a Fazenda Jueté) e operou no abastecimento de gêneros e rebanhos. Tal engajamento, todavia, cobrou um preço financeiro amargo, dadas as requisições militares desordenadas e os saques decorrentes das escaramuças rurais.

Após a queda definitiva de Canudos, consumada em 5 de outubro de 1897, José Américo redige sua última carta conhecida em 15 de outubro de 1897. O texto traz um misto de alívio, triunfo e vingança incontida. Ao celebrar o fim do líder messiânico, relata com frieza a violência terminal imposta aos rendidos nos estertores da campanha: “Houve para mais de duzentos degolados”. Com isso, encerra-se o testemunho de um agente histórico que viveu a conflagração não como mero espectador, mas como articulador, vítima de perdas materiais e porta-voz da mentalidade da classe dominante sertaneja daquele período.

 Moisés Reis é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES, com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua História, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no Sertão Baiano e Últimos Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o documentário Identidade Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano, com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de poder e nas memórias coletivas da região.

 

Contato: 75 999742891

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