Jeremoabo diante da ameaça do cólera-morbo em 1863

 


No dia 9 de abril de 1863, o governo da Província da Bahia enviou uma circular ao Coronel João Dantas dos Reis, importante proprietário e figura política de Jeremoabo, determinando a formação de uma comissão para preparar a freguesia para uma possível epidemia de cólera-morbo.

A preocupação não era infundada. Naquele momento, a doença avançava por áreas relativamente próximas de Jeremoabo e provocava mortes na vizinha Província de Sergipe.

O cólera-morbo era uma doença infecciosa que provocava fortes diarreias, vômitos e rápida desidratação, podendo levar à morte em poucas horas. Transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, a doença provocou grandes epidemias durante o século XIX.

Naquele período, contudo, as formas de transmissão ainda não eram plenamente compreendidas. Médicos e autoridades recorriam a diferentes explicações e tratamentos, enquanto medidas de higiene, isolamento, assistência aos enfermos e alterações nas práticas de sepultamento faziam parte das tentativas de conter as epidemias.

O Brasil já havia enfrentado uma grande epidemia de cólera a partir de 1855, que atingiu também Bahia e Sergipe. Alguns anos depois, a doença voltou a preocupar as autoridades do Nordeste.

 

A epidemia se aproxima da região

 

A nova epidemia atingiu Sergipe a partir de 1862. Em agosto daquele ano, o cólera apareceu em Propriá, importante cidade às margens do rio São Francisco, e posteriormente alcançou outras localidades. A documentação preservada pelo Arquivo Público de Sergipe registra providências contra a doença entre 1862 e 1863 em comarcas como Propriá, Laranjeiras, Aracaju, Capela, Maruim, Lagarto e Itabaiana.

A situação continuava grave nos primeiros meses de 1863. Em abril, notícias publicadas na imprensa relatavam que famílias abandonavam suas casas em algumas localidades sergipanas. Em Maruim, entre 8 e 19 de março, foram registradas 170 vítimas, enquanto a doença também avançava em Laranjeiras e Rosário. A própria Bahia enviava socorros para Sergipe, incluindo médicos, medicamentos e outros recursos.

Era justamente nesse contexto que o governo baiano se preocupava com suas freguesias próximas às áreas atingidas. Jeremoabo mantinha relações e caminhos de comunicação com diferentes pontos do sertão e com a vizinha Sergipe. Assim, o deslocamento de pessoas entre essas localidades tornava a ameaça ainda mais preocupante.

Foi diante desse cenário que, em 9 de abril de 1863, a Presidência da Província da Bahia determinou a criação de uma comissão em Jeremoabo. A circular dizia que deveriam ser adotadas as medidas necessárias para impedir que a epidemia do cholera-morbus invadisse a província e, caso os esforços de prevenção fracassassem, que fossem tomadas providências para atenuar seus estragos.

Entre os responsáveis pela missão estava o Coronel João Dantas dos Reis, pai de Cícero Dantas Martins, futuro Barão de Jeremoabo. A circular é diretamente endereçada a ele.

A comissão reunia ainda outras figuras de destaque da freguesia, incluindo militares, religiosos e cidadãos locais. A composição demonstra como, diante de uma emergência, o governo provincial recorria às pessoas que exerciam influência e autoridade nas comunidades sertanejas.

A comissão deveria colocar em prática as medidas preventivas então recomendadas pela ciência e organizar o socorro aos enfermos caso a doença chegasse a Jeremoabo.

Uma preocupação especial era com a população pobre. O governo reconhecia que muitos não possuíam recursos para conseguir aquilo que seria necessário para enfrentar a epidemia. Reconhecia também que a chamada “caridade official” não teria condições de atender sozinha todas as localidades da extensa província caso a doença se espalhasse.

Por isso, João Dantas e os demais membros da comissão deveriam mobilizar também a “caridade particular”, buscando contribuições e recursos para socorrer os necessitados.

O documento revela, portanto, mais do que uma preocupação sanitária. Mostra também como funcionava a administração no sertão oitocentista: diante de uma crise, o governo provincial dependia da atuação das autoridades, religiosos e homens influentes das próprias localidades para executar suas determinações.

O documento de 9 de abril de 1863 não comprova que o cólera tenha atingido Jeremoabo. Na verdade, sua linguagem indica que naquele momento a freguesia estava sendo preparada preventivamente para uma possível chegada da doença.

Entretanto, sabemos que naquele mesmo período a epidemia estava ativa em Sergipe e suficientemente grave para mobilizar inclusive recursos do governo baiano. A criação da comissão de Jeremoabo deve ser compreendida dentro desse cenário regional de temor e avanço da doença.

Descobrir se o cólera finalmente atravessou esses caminhos e fez vítimas em Jeremoabo exige novas fontes. Os registros paroquiais de óbitos de 1863, os jornais e as correspondências posteriores do governo provincial podem fornecer essa resposta.

Uma pista que pode contribuir para essa investigação sobrevive na memória oral dos moradores da região e tem como cenário o povoado Ilha de São Pedro, atualmente pertencente ao município de Cícero Dantas. Conta-se que, em período ainda não identificado, uma terrível doença teria assolado o lugar, provocando grande número de mortes. A calamidade teria sido tamanha que algumas vítimas teriam sido sepultadas em valas comuns, supostamente localizadas às margens da atual BA-220, estrada que liga Fátima a Cícero Dantas. Não é possível, por enquanto, afirmar quando esse episódio ocorreu ou qual doença teria provocado as mortes, mas a permanência dessa narrativa na memória local constitui uma pista que merece ser confrontada com a documentação histórica.

Mesmo assim, a circular preserva um episódio pouco conhecido da história sertaneja: em abril de 1863, enquanto o cólera fazia vítimas na região, Jeremoabo se preparava para a possível chegada de uma das doenças mais temidas do século XIX.


Link para o documento original: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://museubaraodejeremoabo.com.br/acervo/01/Nomea%C3%A7%C3%A3o%20de%20Jo%C3%A3o%20Dantas%20dos%20Reis%20para%20comiss%C3%A3o%20para%20enfrentamento%20do%20C%C3%B3lera%20Morbus_09.04.1863.pdf


Moisés Reis é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES, com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua História, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no Sertão Baiano e Últimos Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o documentário Identidade Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano, com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de poder e nas memórias coletivas da região.

 

Contato: 75 999742891

 

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