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Como o conhecimento indígena garantiu a sobrevivência dos nossos ancestrais no sertão.

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  É consenso entre historiadores e demais estudiosos da temática do sertão que praticamente toda essa área era ocupada por povos indígenas antes e durante boa parte do período colonial, sendo essa presença drasticamente reduzida após a intervenção de brancos e mestiços que aqui chegaram de forma mais incisiva a partir do século XVIII. A decadência demográfica desses povos, entretanto, não anulou as contribuições que os indígenas deixaram para a população sertaneja que se formou a partir de então. Nesse sentido, os conhecimentos milenares de povos como os Kiriris da Mirandela e os Mongurus de Jeremoabo, aliados à vasta experiência na convivência com os elementos naturais, sustentaram a ascensão de toda uma civilização em formação. A seca é uma realidade sertaneja desde tempos imemoriais. As terras da região passam, geralmente, por um período chuvoso e, logo em seguida, mergulham em um período seco. Esse ciclo anual, por vezes, é interrompido por secas prolongadas, que se configuram ...

A trágica morte de Edson e o antigo costume da Lanterna dos Afogados

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  Durante as buscas pelo corpo, ainda no sábado pela manhã, estive no açude de Adustina por um curto espaço de tempo — tempo suficiente para presenciar o reavivamento de um antigo costume. A cena simbólica que muito me marcou foi a da madrinha de Edson colocando uma vela acesa dentro de uma cabaça nas águas do açude que sepultava, momentaneamente, o jovem cantor fatimense. Em nossa região, esse costume remonta a tempos imemoriais: uma espécie de simpatia que utiliza a fé para aplacar a angústia de uma família que sofre sem um corpo para sepultar. “Simpatia da vela” ou “Lanterna dos Afogados” são os nomes dados a essa ação tradicional. Esse costume não é originário do sertão. É mais provável que tenha surgido no Norte do país, entre povos ribeirinhos, e que, por razões difíceis de precisar, tenha chegado até nossos ancestrais. A crença é a de que a vela acesa siga até o local onde o corpo está sob as águas e indique às equipes de resgate o ponto onde mergulhar para encontrar a pesso...

BR-110: ASPECTOS HISTÓRICOS DO TRECHO CIPÓ/PAULO AFONSO.

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  A partir do século XVIII, com o início da ocupação do sertão, estradas rudimentares foram surgindo ao passo lento do gado. Eram os “caminhos do boi”, vias de ligação interna do sertão que, eventualmente, também conectavam a região aos mercados consumidores de carne bovina no litoral. Como observa Cascudo (2004, p. 215), "O gado, que foi o grande desbravador do sertão, abriu os primeiros caminhos, as 'linhas de vida' que ligavam as curradas ao rio São Francisco e deste ao litoral". O rio São Francisco, que outrora fora chamado de “Rio dos Currais”, era a principal fonte de água potável do sertão. Essas estradas, portanto, cruzavam a zona sertaneja, criando uma teia arterial que singrava a terra seca, ligando o grande rio ao litoral. Anderson (1979, p. 87) corrobora essa visão ao afirmar que "O São Francisco, desde os primórdios da colonização, foi o 'Rio dos Currais', a grande artéria de penetração e fixação do homem no sertão". A vila de Bom Consel...

Ângelo Roque em Salvador: imprensa, cangaço e estereótipos do sertão

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  Imagem de A Tarde, descoberta por Antônio Carregosa. Após a morte de Lampião em 1938, o cangaço tornou-se inviável. As autoridades buscavam a finalização do movimento, e a rede de coiteiros que sempre o sustentou se desfazia rapidamente. Nesse contexto, muitos cangaceiros se renderam ainda naquele ano, restando poucos bandoleiros nas caatingas do Nordeste. O grupo de Ângelo Roque, assim como o de Corisco, ainda levaria cerca de dois anos para encerrar as atividades. Corisco morreria pela ação da volante de Zé Rufino em 25 de maio de 1940, já fora de combate e sem a famosa indumentária de cangaceiro. Antes disso, em abril de 1940, o bando de Ângelo Roque se renderia no sertão e seria conduzido à capital. Na edição de 2 de abril de 1940, o jornal A Tarde noticiava com entusiasmo a apresentação do que seria o último bando de cangaceiros ativo a se render: o grupo do pernambucano Ângelo Roque da Costa, o Labareda. Já no início da matéria, o repórter direciona o olhar do leitor pa...

Vaca Brava, Fátima, Bahia

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  A comunidade de Vaca Brava é uma antiga povoação situada nos limites do município de Fátima, na região de tríplice fronteira com Heliópolis e Poço Verde . Sua ocupação remonta ao avanço da pecuária pelo sertão baiano, tendo essa origem nitidamente refletida no próprio nome da localidade. Os registros históricos sobre a região são escassos, porém não inexistentes. Nos Registros Eclesiásticos de Terras de 1856 , há uma declaração de posse referente à Fazenda Tamburi , que menciona como áreas limítrofes as fazendas Tabua , Poço Verde e Vaca Brava . Tal referência indica que o topônimo Vaca Brava já era utilizado pelo menos desde 23 de junho de 1859 . Um documento posterior oferece novas luzes sobre a história local: trata-se do inventário de 1948 de Januário Rodrigues dos Reis , falecido em 18 de janeiro daquele ano, na própria localidade de Vaca Brava. A viúva, Josefa Maria de Jesus , deu entrada no processo de inventário, que tramitou parcialmente nas cidades de Cícero D...

Sertão vem de “Desertão”

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  Imagem disponível em: https://www.facebook.com/sertaonordestinobrasil/       A palavra sertão tem origem no português arcaico e, nos primórdios da colonização, era originalmente grafada como desertão . Em textos portugueses antigos, datados dos séculos XV e XVI, são encontrados trechos que se referem às regiões do interior, distantes do litoral, como desertão . Essa designação não se referia apenas às áreas secas, castigadas pela estiagem ( deserto + desertão ), mas também a regiões afastadas da zona litorânea, caracterizadas pela distância, pela dificuldade de acesso, pela cultura do gado e por outros elementos que, posteriormente, seriam associados ao que hoje conhecemos como sertão . Com o passar do tempo, nota-se uma simplificação fonética muito comum na língua portuguesa. Assim, o que era designado como desertão foi reduzido para simplesmente sertão . Contudo, durante o período colonial, o termo ainda destoava bastante do sentido atual. Regiõe...

José de Magalhães e Souza

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  Nasceu no município Celorico de Basto, uma pitoresca cidade portuguesa situada no distrito de Braga, na região do Norte, marcada por uma paisagem deslumbrante onde o verde dos vales e montes domina o horizonte. Conhecida pela sua rica tradição vinícola, aliada a um passado histórico evidente nas suas igrejas, solares e um ambiente rural acolhedor e tranquilo. Veio ao mundo às duas da madrugada do dia 19 de outubro de 1885. Filho dos lavradores Manoel de Magalhães e Souza e Angélica Mendes da Costa, foi batizado a 22 de outubro do mesmo ano, na paróquia de São Clemente, na mesma cidade. Estudou no seminário de Braga e foi ordenado padre em 1908, quando assumiu a Capela de Nossa Senhora Aparecida, no município de Lousada, ainda em Portugal. No Brasil, antes de chegar em Jeremoabo passou por Morro do Chapéu, sendo nomeado vigário da Matriz de São João Batista de Jeremoabo em 18 de março de 1928. Faleceu aos 95 anos, 21 anos após retornar à terra natal, no dia 13 de maio de 1980. ...