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Quando o Distintivo não vinha do Concurso: A Era dos Delegados "Calça Curta" em Fátima!

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  Você sabia que, antes de Fátima conquistar sua emancipação e se separar administrativamente de Cícero Dantas em 1986, a segurança pública por aqui tinha uma dinâmica bem diferente? Naquela época, a figura central era o Delegado Auxiliar ou Comissionado. No interior, eles ficaram conhecidos popularmente como os Delegados "Calça Curta". O apelido, embora folclórico, referia-se ao fato de serem homens da própria comunidade, indicados pelo poder local para manter a ordem, muitas vezes sem formação jurídica ou grandes recursos. Essa tradição de colocar o sertanejo na linha de frente vem de longe. Na época das volantes, eram os nativos — que conheciam cada palmo de chão e cada esconderijo da caatinga — os grandes aliados na luta contra o cangaço. Sem eles, as emboscadas e táticas de defesa seriam impossíveis. Essa mesma lógica de usar a coragem e o conhecimento local como distintivo parece ter perdurado em nossa região até os anos 90, encontrando nos delegados calça curta seus úl...

A Abolição da Escravidão e seus Reflexos em Fátima e Região

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  Imagem ilustrativa.  Em 13 de maio de 1888, o Brasil encerrava um dos capítulos mais tenebrosos de sua trajetória histórica. Com a sanção da Lei Áurea, a escravidão foi oficialmente extinta, tornando o país a última nação das Américas a abolir esse regime compulsório. O fim do sistema escravocrata não foi um ato isolado de benevolência, mas o ápice de um prolongado processo de resistência que mobilizou diversos setores da sociedade contra elites agrárias que persistiam em sustentar a exploração humana. A consolidação da liberdade gerou impactos profundos e imediatos. Nos interiores do país, a transição para o trabalho livre revelou o despreparo de uma elite que baseava sua existência na dominação absoluta. Na literatura, José Lins do Rego imortalizou essa transição na figura do Coronel Lula de Holanda, em Fogo Morto. O personagem personifica a "morte" dos engenhos: um senhor que, consumido pelo ódio e pelo orgulho, assiste à debandada de seu plantel logo após a notícia ...

Itinerário da Estrada Real das boiadas.

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  Com base na análise de registros históricos, como antigos documentos de cobrança de foro, é possível reconstruir o itinerário da Estrada Real das Boiadas (ou Estrada Real dos Bois). A partir do século XVIII, a Província da Bahia consolidou uma complexa rede viária destinada ao trânsito de comitivas que integravam a economia pecuária do sertão aos centros urbanos. O fluxo logístico consistia na condução de gado bovino, previamente engordado às margens do Rio São Francisco — historicamente denominado "Rio dos Currais" —, em direção à capital, Salvador. No trajeto inverso, as expedições retornavam ao interior transportando manufaturas e bens de subsistência inexistentes na região semiárida. O complexo viário originava-se nas latifúndios pastoris localizados ao longo do Rio São Francisco, especificamente nas adjacências de Paulo Afonso e da antiga Vila de Curral dos Bois (atual município de Glória, BA). A partir deste ponto, as boiadas avançavam pelo bioma da caatinga, transita...

Qual a ligação entre a família Correia de Fátima e o Barão de Jeremoabo?

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  Cícero Dantas Martins - Barão de Jeremoabo. Essa história remonta ao século XIX, quando Mariana Francisca da Silveira Dantas, mãe do Barão de Jeremoabo, faleceu precocemente em Itapicuru, aos 49 anos de idade. A perda da esposa levou o coronel João Dantas, pai do futuro Barão, a contrair um segundo matrimônio com Anna Francisca Loubarinho (1825–1885). Anna Francisca Loubarinho. Dessa união nasceram cinco filhas, todas meio-irmãs do Barão. Entre elas destacava-se Líbia Dantas dos Reis (1849–?), que viveu boa parte da vida na área onde hoje se localiza a sede do município de Fátima - área que compunha a fazenda Maria Preta - em razão do seu casamento com Severo Correia de Souza. Outra irmã, Levina Francisca de Souza Dantas (1863–1914), casou-se com Pedro Correia de Souza (1843–?), irmão de Severo, estabelecendo-se posteriormente em Cícero Dantas. O casal teve ao menos quatro filhos, entre eles outro Pedro Correia de Souza (1895–1976), esse último, o pai do conhecido “Correinha da...

Linhagem de Joaquim Borges

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Joaquim Borges de Santana (1896-1960)             Para produzir esse texto, precisei cruzar fontes diferentes, inicie pelo inventário que recolhi no arquivo público conforme veremos abaixo, consultei um dos seus netos Cidney de Badé e os sempre parceiros desse blog, o ex-prefeito Eduardo Pires e às excelentes postagens da página Fátima de outrora, tocada pelo pesquisador Juan Kléber que me passou valiosas informações e algumas fotos que foram postadas junto com o texto. Outra fonte importantíssima foi o site familysearch, plataforma genealógica muito importante para quem pesquisa.   De posse dessas informações, conseguimos montar o histórico desse importante personagem. Joaquim Borges de Santana nasceu em Cícero Dantas no dia 15 de maio de 1896 e veio a falecer em Salvador enquanto realizava tratamento de saúde no dia 9 de fevereiro de 1960. Essas informações constam no seu inventário, documento de 16 páginas com o código 09/4043/20, de posse do Arqu...

Zé Rufino e Felipe Castro: Estratégias diferentes no combate ao cangaço.

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  “Aí vem José Rufino, perseguindo o cangaceiro; Que é um homem destemido no nordeste brasileiro; Sujeito das pernas mole, mas tem o dedo ligeiro.” Versos de um repente em homenagem a Zé Rufino.   Desde que iniciei o Blog História de Fátima e passei a levantar a trajetória do cangaço em nossa região, a figura de Zé Rufino tornou-se recorrente. Não poderia ser diferente. Trata-se de um dos nomes mais emblemáticos da repressão ao fenômeno, comandante de uma das volantes mais temidas do sertão, da qual fez parte o fatimense Liberino Vicente. José Osório de Farias, nascido em 20 de fevereiro de 1906, em Pernambuco, ganhou o apelido que o consagraria por ser filho de Maria Rufina — daí o “Zé de Rufina”, posteriormente simplificado para Zé Rufino. Antes de enveredar pela carreira policial, foi sanfoneiro conhecido e chegou a cruzar caminhos com Lampião, ainda em terras pernambucanas. Convidado mais de uma vez a integrar o bando, recusou. Alegava não ter vocação para a vida armada ...

Carta de Zé Rufino a João Bezerra

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  Imagem cedia por Robério Santos. A carta que ora apresento ao leitor constitui um registro histórico de grande relevância, tanto pelos personagens que a protagonizam quanto pelo conteúdo que encerra. Trata-se de uma correspondência entre dois velhos conhecidos, que, mesmo redigida em 1964 — mais de duas décadas após o ocaso do cangaço —, ainda nos permite acessar dimensões significativas desse fenômeno. No documento, José Osório de Farias, o célebre Zé Rufino, dirige-se de forma cordial a João Bezerra da Silva. O primeiro mantém vínculos diretos com a história de Fátima, tendo sido comandante de uma das volantes mais atuantes no combate ao cangaço, da qual fez parte o fatimense Liberino Vicente. Essa força policial destacou-se pela intensidade de suas ações, estando associada à morte de figuras expressivas do cangaço, como Mariano e Corisco. Outro ponto de interseção entre a trajetória de Zé Rufino e a história local remonta a 4 de outubro de 1954. Na ocasião, o padre Renato ...