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Bom Conselho ou Cícero Dantas? Para minha avó, essa discussão já estava encerrada!

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                                No dia 30 de maio de 1905, a antiga vila de Bom Conselho, emancipada de Jeremoabo em 1875, mudou oficialmente de nome. A alteração foi uma homenagem a Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, falecido naquela localidade cerca de dois anos antes. A partir de então, Bom Conselho passava a se chamar Cícero Dantas. Pelo menos no papel, porque convencer a população de que a cidade havia mudado de nome era outra história! Minha avó, Maria Souza Reis, nasceu em 30 de janeiro de 1918, quase 13 anos depois da mudança. Portanto, quando veio ao mundo, a cidade já se chamava oficialmente Cícero Dantas. Mas isso nunca pareceu ter a menor importância para ela. Durante toda a vida, minha avó continuou chamando a cidade de Bom Conselho, como se a mudança de 1905 não passasse de um boato que ainda precisava ser confirmado. Lembro-me de que, quando criança, frequentemente...

“Estamos derrotados neste sertão”: José Américo Camelo de Souza Velho diante de Canudos

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  Oficiais do 28º Batalhão de Infantaria, em 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República José Américo Camelo de Souza Velho (1839-1902) foi um importante proprietário rural e chefe local do sertão baiano na segunda metade do século XIX. Coronel da Guarda Nacional, nasceu na Fazenda Ilha, em território atualmente pertencente ao município de Euclides da Cunha, e construiu seu patrimônio a partir da posse de diversas propriedades rurais, entre elas Ilha, Caimbé, Olhos d’Água, Mosteiro de São José, Tanque Novo, Baixas e Jueté. Era casado com Maria Rosa do Sacramento e mantinha estreitas relações familiares, políticas e de amizade com Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, a quem tratava em suas correspondências como “primo, compadre e amigo”. Conservador e opositor declarado de Antônio Conselheiro, José Américo acompanhou de perto o crescimento de Canudos e, posteriormente, os acontecimentos da guerra, experiência que deixou registrada nas cartas enviadas ao Barão...

Um pombalense na Revolução Federalista de 1893.

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  Tropas acampadas. Com a Proclamação da República em 1889, evento que foi, essencialmente, resultado de um golpe militar que derrubou a monarquia, um período de grande instabilidade política se abateu sobre o país. Movimentos que contestavam a nova ordem política ou disputavam os rumos da recém-criada República eclodiram em diversas regiões. Entre os mais conhecidos estão a Revolução Federalista, no Sul do Brasil, e, alguns anos depois, a Guerra de Canudos, na Bahia. Quem é leitor do Blog História do Sertão sabe que a Guerra de Canudos teve impacto direto na vida de praticamente todas as pessoas que habitavam os sertões da Bahia no final do século XIX. Tropas atravessaram a região, famílias foram atingidas, propriedades foram requisitadas e integrantes das elites políticas locais participaram, de diferentes maneiras, daquele conflito. Mas um episódio que caiu no esquecimento da nossa história liga um habitante dessa mesma região sertaneja a outro conflito ocorrido a milhares de qu...

Anna Gonçalves: rastros de uma ancestral no Portugal do século XVII

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  Pesquisar história é se deparar com personagens que há muito se foram, alguns tão distantes no tempo histórico e no espaço geográfico que aparentemente nada têm em comum com o eu do presente. Entre os muitos nomes que surgem em uma árvore genealógica, alguns não passam de nomes e datas; outros, em decorrência de uma ou outra fonte preservada, tomam contornos de pessoas reais. Esse é justamente o caso de Anna Gonçalves, minha ancestral de 11ª geração, uma mulher que viveu em Portugal há cerca de quatro séculos. As informações que possibilitam contar parte dessa história foram extraídas de um processo de habilitação sacerdotal, conhecido como de genere et moribus . Esse tipo de instrumento eclesiástico servia para investigar a origem familiar e a conduta daqueles que pretendiam ingressar no sacerdócio. É por meio dessa fonte que conseguimos encontrar Anna Gonçalves e conhecer não apenas suas relações familiares, mas também alguns aspectos do meio social no qual estava inserida. O ...

Fátima: Do Sertão do Tiuiu ao Registro Paroquial de Terras

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  Entre os séculos XVII e XVIII, a região que hoje compreende o município de Fátima estava inserida no que os documentos coloniais denominavam genericamente de Sertão do Tiuiu. Esse sertão correspondia a uma vasta extensão territorial ao norte do Rio Itapicuru, estendendo-se em direção às bacias dos rios Real e Vaza-Barris. Essa demarcação espacial abrangia parcelas do que hoje são os municípios de Fátima, Cícero Dantas, Heliópolis, Antas, Novo Triunfo, Jeremoabo, Pedro Alexandre, Coronel João Sá, Santa Brígida, Adustina, Paripiranga e Poço Verde (este já em Sergipe). A formação desse domínio esteve ligada à expansão da Casa da Torre, iniciada por Garcia d’Ávila ainda no século XVI e consolidada por seus sucessores com a instituição do Morgado da Casa da Torre em 1624. Pelo regime do morgadio, a Coroa Portuguesa — incapaz de colonizar, policiar e explorar diretamente o interior — concedia grandes concessões de sesmarias vinculadas a uma linhagem nobre. Essas terras tornavam-se indi...

Manoel Lins Barreto: um vaqueiro entre documentos e fronteiras

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  Fazenda Caritá, Jeremoabo, 10 de agosto de 1840. João Dantas dos Reis, pai do futuro Barão de Jeremoabo, sela um negócio com bastante naturalidade: a compra de um escravizado de seu irmão, Pedro Dantas dos Reis. O texto, escrito pelo próprio vendedor, descreve as circunstâncias da negociação:   “Vendo a meu mano, o Sr. Cel. João Dantas dos Reis, o meu mulatinho Amâncio, filho da minha escrava Pulcheria, pelo preço e quantia de duzentos e cinquenta mil réis, que recebi ao passar deste.”   O documento é uma espécie de recibo de compra e venda e informa que a escritura não havia sido realizada em razão da impossibilidade de o vendedor se dirigir até a sede do município de Jeremoabo para formalizar o negócio. Não sabemos, contudo, o motivo dessa impossibilidade. A negociação ocorreu na Fazenda Caritá, propriedade da família Dantas onde, apenas dois anos antes, em 1838, havia nascido Cícero Dantas Martins, o futuro Barão de Jeremoabo. Para além das questões que envolvem a es...

Jeremoabo diante da ameaça do cólera-morbo em 1863

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  No dia 9 de abril de 1863, o governo da Província da Bahia enviou uma circular ao Coronel João Dantas dos Reis, importante proprietário e figura política de Jeremoabo, determinando a formação de uma comissão para preparar a freguesia para uma possível epidemia de cólera-morbo. A preocupação não era infundada. Naquele momento, a doença avançava por áreas relativamente próximas de Jeremoabo e provocava mortes na vizinha Província de Sergipe. O cólera-morbo era uma doença infecciosa que provocava fortes diarreias, vômitos e rápida desidratação, podendo levar à morte em poucas horas. Transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, a doença provocou grandes epidemias durante o século XIX. Naquele período, contudo, as formas de transmissão ainda não eram plenamente compreendidas. Médicos e autoridades recorriam a diferentes explicações e tratamentos, enquanto medidas de higiene, isolamento, assistência aos enfermos e alterações nas práticas de sepultamento f...