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Anna Gonçalves: rastros de uma ancestral no Portugal do século XVII

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  Pesquisar história é se deparar com personagens que há muito se foram, alguns tão distantes no tempo histórico e no espaço geográfico que aparentemente nada têm em comum com o eu do presente. Entre os muitos nomes que surgem em uma árvore genealógica, alguns não passam de nomes e datas; outros, em decorrência de uma ou outra fonte preservada, tomam contornos de pessoas reais. Esse é justamente o caso de Anna Gonçalves, minha ancestral de 11ª geração, uma mulher que viveu em Portugal há cerca de quatro séculos. As informações que possibilitam contar parte dessa história foram extraídas de um processo de habilitação sacerdotal, conhecido como de genere et moribus . Esse tipo de instrumento eclesiástico servia para investigar a origem familiar e a conduta daqueles que pretendiam ingressar no sacerdócio. É por meio dessa fonte que conseguimos encontrar Anna Gonçalves e conhecer não apenas suas relações familiares, mas também alguns aspectos do meio social no qual estava inserida. O ...

Fátima: Do Sertão do Tiuiu ao Registro Paroquial de Terras

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  Entre os séculos XVII e XVIII, a região que hoje compreende o município de Fátima estava inserida no que os documentos coloniais denominavam genericamente de Sertão do Tiuiu. Esse sertão correspondia a uma vasta extensão territorial ao norte do Rio Itapicuru, estendendo-se em direção às bacias dos rios Real e Vaza-Barris. Essa demarcação espacial abrangia parcelas do que hoje são os municípios de Fátima, Cícero Dantas, Heliópolis, Antas, Novo Triunfo, Jeremoabo, Pedro Alexandre, Coronel João Sá, Santa Brígida, Adustina, Paripiranga e Poço Verde (este já em Sergipe). A formação desse domínio esteve ligada à expansão da Casa da Torre, iniciada por Garcia d’Ávila ainda no século XVI e consolidada por seus sucessores com a instituição do Morgado da Casa da Torre em 1624. Pelo regime do morgadio, a Coroa Portuguesa — incapaz de colonizar, policiar e explorar diretamente o interior — concedia grandes concessões de sesmarias vinculadas a uma linhagem nobre. Essas terras tornavam-se indi...

Manoel Lins Barreto: um vaqueiro entre documentos e fronteiras

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  Fazenda Caritá, Jeremoabo, 10 de agosto de 1840. João Dantas dos Reis, pai do futuro Barão de Jeremoabo, sela um negócio com bastante naturalidade: a compra de um escravizado de seu irmão, Pedro Dantas dos Reis. O texto, escrito pelo próprio vendedor, descreve as circunstâncias da negociação:   “Vendo a meu mano, o Sr. Cel. João Dantas dos Reis, o meu mulatinho Amâncio, filho da minha escrava Pulcheria, pelo preço e quantia de duzentos e cinquenta mil réis, que recebi ao passar deste.”   O documento é uma espécie de recibo de compra e venda e informa que a escritura não havia sido realizada em razão da impossibilidade de o vendedor se dirigir até a sede do município de Jeremoabo para formalizar o negócio. Não sabemos, contudo, o motivo dessa impossibilidade. A negociação ocorreu na Fazenda Caritá, propriedade da família Dantas onde, apenas dois anos antes, em 1838, havia nascido Cícero Dantas Martins, o futuro Barão de Jeremoabo. Para além das questões que envolvem a es...

Jeremoabo diante da ameaça do cólera-morbo em 1863

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  No dia 9 de abril de 1863, o governo da Província da Bahia enviou uma circular ao Coronel João Dantas dos Reis, importante proprietário e figura política de Jeremoabo, determinando a formação de uma comissão para preparar a freguesia para uma possível epidemia de cólera-morbo. A preocupação não era infundada. Naquele momento, a doença avançava por áreas relativamente próximas de Jeremoabo e provocava mortes na vizinha Província de Sergipe. O cólera-morbo era uma doença infecciosa que provocava fortes diarreias, vômitos e rápida desidratação, podendo levar à morte em poucas horas. Transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, a doença provocou grandes epidemias durante o século XIX. Naquele período, contudo, as formas de transmissão ainda não eram plenamente compreendidas. Médicos e autoridades recorriam a diferentes explicações e tratamentos, enquanto medidas de higiene, isolamento, assistência aos enfermos e alterações nas práticas de sepultamento f...

Joaquim Borges e família

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  Foto enviada por André Dantas. Antes de prosseguir com este texto, é preciso que se diga que este Joaquim Borges não é o que viveu em Fátima e tem vários descendentes na cidade e região. O indivíduo da foto é tio do Joaquim Borges fatimense. A fotografia foi-me enviada por André Dantas, descendente do Barão de Jeremoabo e um entusiasta da história do sertão. Na imagem vemos Joaquim Borges já em idade avançada, estimo que a imagem tenha sido feita por volta de 1910, mas quem é Joaquim Borges e qual a sua relação com Fátima? Como dito, ele é tio de Joaquim Borges de Santana, tio de Augusto Borges (primeiro vice-prefeito de Fátima) e ancestral de várias outras pessoas da cidade, mas a descendência do senhor de barbas brancas que aparece na fotografia é mais próxima da família Correia. Joaquim Borges casou-se com Francisca Dantas dos Reis, nascida em 14 de janeiro de 1857. Conhecida como “Maninha”, Francisca era irmã do Barão, filha de um relacionamento do seu pai, João Dantas, com A...

Câmara de Jeremoabo celebra o casamento de Pedro II e Teresa Cristina

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  No dia 30 de maio de 1843, na cidade italiana de Nápoles, às margens do Mar Mediterrâneo, a futura imperatriz do Brasil, Teresa Cristina, sobe ao altar. O noivo, contudo, encontrava-se a um oceano de distância. O casamento ocorreu por procuração, e um irmão de Teresa Cristina representou seu noivo, D. Pedro II, imperador do Brasil, na cerimônia. O matrimônio ocorreu sem que os noivos sequer se conhecessem pessoalmente. A agora imperatriz chegaria ao Brasil a bordo da Fragata Constituição. A comitiva foi festejada com salvas de canhão na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Pedro II, na época com apenas 17 anos, quebra o protocolo e vai a bordo do navio conhecer a esposa. Conta-se que ele teria ficado decepcionado por Teresa Cristina não se parecer com os retratos que conhecia da imperatriz. O desembarque oficial ocorreu no dia 4 de setembro, quando a corte do Rio de Janeiro conheceu sua imperatriz. No sertão, contudo, a notícia chegou pouco mais de duas semanas depois daquele mo...

Sebastião da Fonseca Andrade: linhagem, patrimônio e poder no sertão oitocentista

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  Sebastião da Fonseca Andrade nasceu em 5 de abril de 1857, numa região que atualmente compreende o município de Fátima, em área de localização ainda incerta entre os povoados de Serra Velha, Tábua e Bomfim. Seu avô, Sebastião da Fonseca Dórea, é considerado o fundador de Poço Verde, onde adquiriu terras da família Ávila em 1839. A propriedade, denominada Fazenda Rio Real por estar situada às margens do rio de mesmo nome, localizava-se do lado baiano da divisa, em área que hoje corresponde a parte da zona urbana de Poço Verde. O próprio nome da cidade é atribuído a um poço natural que supostamente existia na propriedade e que conservava a vegetação verde em seu entorno mesmo durante os períodos de estiagem. Consta que Sebastião Dórea teria tentado obter junto à Diocese de Jeremoabo autorização para construir uma capela em sua propriedade, mas não obteve êxito. Posteriormente, conseguiu autorização para a ereção do templo do lado sergipano. A capela foi construída e, com o ...