Como o conhecimento indígena garantiu a sobrevivência dos nossos ancestrais no sertão.
É
consenso entre historiadores e demais estudiosos da temática do sertão que
praticamente toda essa área era ocupada por povos indígenas antes e durante boa
parte do período colonial, sendo essa presença drasticamente reduzida após a
intervenção de brancos e mestiços que aqui chegaram de forma mais incisiva a
partir do século XVIII.
A decadência demográfica desses povos,
entretanto, não anulou as contribuições que os indígenas deixaram para a
população sertaneja que se formou a partir de então. Nesse sentido, os
conhecimentos milenares de povos como os Kiriris da Mirandela e os Mongurus de
Jeremoabo, aliados à vasta experiência na convivência com os elementos
naturais, sustentaram a ascensão de toda uma civilização em formação.
A seca é uma realidade sertaneja desde
tempos imemoriais. As terras da região passam, geralmente, por um período
chuvoso e, logo em seguida, mergulham em um período seco. Esse ciclo anual, por
vezes, é interrompido por secas prolongadas, que se configuram quando a época
do ano que deveria vir acompanhada das chuvas se mostra árida.
E foi justamente nesses períodos de
maior aperto que o sertanejo recorreu aos conhecimentos indígenas. A
manipulação de plantas nativas e a transformação de espécies específicas da
flora local em alimento foram fundamentais para a sustentação dos pequenos
núcleos de povoamento que se formaram ao longo dos caminhos do boi.
Em uma descrição de 1888, o militar
Durval Vieira de Aguiar faz um relato bastante contundente, posteriormente
transcrito na obra Jeremoabo, cidade-mãe, de autoria de Pedro
Pereira da Silva Filho (Pedro Son):
A falta de forragem põe o gado tão magro
que não se pode comer [...] em falta de farinha, que então sobe a um preço
exorbitante, come a população pobre um tal bró, que não é mais do que um amargo
pó de serra extraído, a pancadas de machado, do tronco do nicuri; depois
levam-no e torram.
O uso desse conhecimento ancestral para
aplacar a fome em tempos de seca também foi registrado em outro momento da
história regional. Em carta de 7 de setembro de 1955, o padre Renato Galvão
escreve ao deputado João da Costa Pinto Dantas, implorando ajuda para Monte
Alverne (atual Fátima), relatando que o povo da localidade já não dispunha de
água e se alimentava do bró do nicuri — uma variação do nome da planta
comumente conhecida como licuri ou ouricuri.
Na sequência do relato de 1888, o autor
descreve os efeitos do uso reincidente dessa alimentação precária:
O uso frequente dessa substância
ocasiona inflamações de toda a espécie e até suspende a regra às mulheres, que
ficam anêmicas e inchadas.
Outra planta mencionada no mesmo relato,
cujo conhecimento de manipulação também tem origem na cultura indígena
ancestral, é o umbuzeiro. Dele se retiravam as raízes — conhecidas em nossa
região como bufu
— para a confecção de uma espécie de bolacha que igualmente servia para mitigar
a fome do sertanejo pobre.
Dessa forma, torna-se evidente que a
sobrevivência dos sertanejos ao longo dos séculos esteve profundamente ancorada
em saberes herdados dos povos indígenas que primeiro habitaram a região. Em
contextos de extrema adversidade, como as secas recorrentes, não foram as
frágeis estruturas coloniais ou as políticas públicas incipientes que
garantiram a manutenção da vida, mas sim um conhecimento empírico, acumulado ao
longo de gerações, sobre a flora, os ciclos naturais e as possibilidades de
adaptação a um meio hostil. O uso do licuri, do umbuzeiro e de outras plantas
nativas revela não apenas estratégias de resistência à fome, mas também a
permanência silenciosa da cultura indígena na formação do sertão e de sua
gente. Reconhecer esse legado é compreender que a história sertaneja não se
explica apenas pela expansão do gado ou pela ocupação colonial, mas também pela
apropriação — muitas vezes invisibilizada — de saberes originários que
sustentaram, material e simbolicamente, a construção dessa sociedade.
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