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Carta de Zé Rufino a João Bezerra

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  Imagem cedia por Robério Santos. A carta que ora apresento ao leitor constitui um registro histórico de grande relevância, tanto pelos personagens que a protagonizam quanto pelo conteúdo que encerra. Trata-se de uma correspondência entre dois velhos conhecidos, que, mesmo redigida em 1964 — mais de duas décadas após o ocaso do cangaço —, ainda nos permite acessar dimensões significativas desse fenômeno. No documento, José Osório de Farias, o célebre Zé Rufino, dirige-se de forma cordial a João Bezerra da Silva. O primeiro mantém vínculos diretos com a história de Fátima, tendo sido comandante de uma das volantes mais atuantes no combate ao cangaço, da qual fez parte o fatimense Liberino Vicente. Essa força policial destacou-se pela intensidade de suas ações, estando associada à morte de figuras expressivas do cangaço, como Mariano e Corisco. Outro ponto de interseção entre a trajetória de Zé Rufino e a história local remonta a 4 de outubro de 1954. Na ocasião, o padre Renato ...
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  Recebemos hoje, no grupo da ABLAC, um impressionante registro: trata-se de uma fotografia cujo original integra o acervo pessoal de Lamartine Lima, integrante da equipe do Instituto Nina Rodrigues, atualmente aposentado e residente no município pernambucano de Gravatá. De acordo com o próprio Lamartine, a imagem foi capturada em seu consultório, em Salvador, quando ele, na condição de médico, tinha como paciente Ângelo Roque da Costa — o antigo chefe de subgrupo do cangaço, outrora conhecido como Labareda. Na fotografia, vê-se Ângelo Roque já envelhecido e adoentado, ao lado do então jovem Lamartine Lima que, na qualidade de orientando do célebre Estácio de Lima , acompanhou diversos ex-cangaceiros e se dedicou ao estudo da cabeça do próprio Virgulino Ferreira da Silva . Moisés Reis é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES, com especialização em História e Cultura...
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  BASES HISTÓRICAS DO CANGAÇO   A análise de documentação referente à vila de Bom Conselho, atual cidade de Cícero Dantas, ao longo do século XIX, nos permite identificar padrões de violência antigos, que parecem estar na base da formação da sociedade sertaneja. Padrões recorrentes de uso da violência como ferramenta de resolução de conflitos são encontrados em processos-crime, relatórios de presidentes de província e na imprensa da época, revelando formas vistas como arcaicas e pouco civilizadas de lidar com questões do cotidiano. Em 19 de abril de 1874, na fazenda Cajazeiras, o jovem conhecido como Censão assassina cruelmente a jovem Ana, reportada no processo-crime apenas como Ana de Tal. Motivado pela recusa da jovem, de apenas 12 anos, a uma proposta de relacionamento afetivo, o agressor fez tocaia e a trucidou a pauladas. O fato gerou tamanha comoção que, mais de 150 anos após o ocorrido, a memória coletiva ainda rememora o caso. Anos mais tarde, no limiar da e...

Como o conhecimento indígena garantiu a sobrevivência dos nossos ancestrais no sertão.

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  É consenso entre historiadores e demais estudiosos da temática do sertão que praticamente toda essa área era ocupada por povos indígenas antes e durante boa parte do período colonial, sendo essa presença drasticamente reduzida após a intervenção de brancos e mestiços que aqui chegaram de forma mais incisiva a partir do século XVIII. A decadência demográfica desses povos, entretanto, não anulou as contribuições que os indígenas deixaram para a população sertaneja que se formou a partir de então. Nesse sentido, os conhecimentos milenares de povos como os Kiriris da Mirandela e os Mongurus de Jeremoabo, aliados à vasta experiência na convivência com os elementos naturais, sustentaram a ascensão de toda uma civilização em formação. A seca é uma realidade sertaneja desde tempos imemoriais. As terras da região passam, geralmente, por um período chuvoso e, logo em seguida, mergulham em um período seco. Esse ciclo anual, por vezes, é interrompido por secas prolongadas, que se configuram ...

A trágica morte de Edson e o antigo costume da Lanterna dos Afogados

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  Durante as buscas pelo corpo, ainda no sábado pela manhã, estive no açude de Adustina por um curto espaço de tempo — tempo suficiente para presenciar o reavivamento de um antigo costume. A cena simbólica que muito me marcou foi a da madrinha de Edson colocando uma vela acesa dentro de uma cabaça nas águas do açude que sepultava, momentaneamente, o jovem cantor fatimense. Em nossa região, esse costume remonta a tempos imemoriais: uma espécie de simpatia que utiliza a fé para aplacar a angústia de uma família que sofre sem um corpo para sepultar. “Simpatia da vela” ou “Lanterna dos Afogados” são os nomes dados a essa ação tradicional. Esse costume não é originário do sertão. É mais provável que tenha surgido no Norte do país, entre povos ribeirinhos, e que, por razões difíceis de precisar, tenha chegado até nossos ancestrais. A crença é a de que a vela acesa siga até o local onde o corpo está sob as águas e indique às equipes de resgate o ponto onde mergulhar para encontrar a pesso...