Zé Rufino e Felipe Castro: Estratégias diferentes no combate ao cangaço.

 

“Aí vem José Rufino, perseguindo o cangaceiro;
Que é um homem destemido no nordeste brasileiro;
Sujeito das pernas mole, mas tem o dedo ligeiro.”

Versos de um repente em homenagem a Zé Rufino.

 

Desde que iniciei o Blog História de Fátima e passei a levantar a trajetória do cangaço em nossa região, a figura de Zé Rufino tornou-se recorrente. Não poderia ser diferente. Trata-se de um dos nomes mais emblemáticos da repressão ao fenômeno, comandante de uma das volantes mais temidas do sertão, da qual fez parte o fatimense Liberino Vicente.

José Osório de Farias, nascido em 20 de fevereiro de 1906, em Pernambuco, ganhou o apelido que o consagraria por ser filho de Maria Rufina — daí o “Zé de Rufina”, posteriormente simplificado para Zé Rufino. Antes de enveredar pela carreira policial, foi sanfoneiro conhecido e chegou a cruzar caminhos com Lampião, ainda em terras pernambucanas. Convidado mais de uma vez a integrar o bando, recusou. Alegava não ter vocação para a vida armada — recusa que, ironicamente, o colocaria, pouco tempo depois, no lado oposto do conflito.

Já na Bahia, ingressa na polícia e rapidamente se destaca. Após o combate com Mariano, em Porto da Folha (SE), em 1936, é promovido a tenente, patente que manteria até o ocaso do cangaço. Sua atuação se consolidou no enfrentamento direto, marcado por ações rápidas e letais. Questionado, anos depois, sobre quantos cangaceiros teria abatido, preferiu esquivar-se, afirmando ter assistido à morte de muitos — e não poucos: nomes como Mariano, Azulão, Canjica, Zabelê e Pavão figuram entre aqueles que tombaram diante de sua volante.

Sua fama correu o sertão. Há, inclusive, versões que associam seu nome à reunião de Angico, em 1938, quando Lampião e parte de seu bando foram surpreendidos e mortos. Segundo essa interpretação, a concentração de cangaceiros teria como pano de fundo a necessidade de enfrentar a crescente ameaça representada por Zé Rufino. Verdade ou não, o episódio reforça a dimensão que seu nome alcançou no imaginário da época.

Após Angico, o tenente continuou em atividade, perseguindo os últimos bandos em operação, notadamente o de Labareda e o de Corisco. Em 1942, sua volante alcança Corisco e Dadá em Barra do Mendes (BA). O desfecho desse confronto — que resultou na morte do chamado “Diabo Loiro” — é frequentemente apontado como o marco final do cangaço.

Encerrada a campanha, Zé Rufino seguiu na vida pública, atuando como delegado em Jeremoabo e, mais tarde, alcançando a patente de coronel. Fixou-se na cidade, onde construiu reputação de homem respeitado. Em um episódio emblemático já nos anos finais de sua vida, recebeu em sua casa a ex-cangaceira Dadá, sobrevivente do confronto que lhe custara uma perna. Segundo relatos, o velho coronel teria pedido perdão, gesto que foi recebido com respeito por aquela que outrora fora sua inimiga — um momento que revela as complexas camadas humanas por trás da violência do período.

Zé Rufino faleceu em 1969, no dia em que completava 63 anos, sendo sepultado em Jeremoabo. Curiosamente — e de forma quase simbólica —, o local exato de sua sepultura perdeu-se com o tempo, como se a memória de um dos mais temidos combatentes do cangaço tivesse, também ela, se diluído nas areias da história.

Se, de um lado, Zé Rufino representa a face mais dura e direta do combate ao cangaço — aquela que se fez pela força das armas e pela imposição da ordem —, de outro, o Capitão Felipe Borges de Castro encarna uma tentativa distinta, ainda que minoritária, de enfrentamento do mesmo problema. Enquanto Rufino atuava no campo da repressão imediata, Felipe buscava compreender as raízes sociais do fenômeno, propondo caminhos que passavam pela educação, assistência e reintegração.

Ambos, portanto, inserem-se na mesma história, mas por vias distintas: um, moldado pela lógica do confronto; o outro, pela esperança de transformação. No entrechoque dessas duas perspectivas, revela-se não apenas o drama do cangaço, mas também as diferentes formas pelas quais o Estado e seus agentes procuraram lidar com ele.




 Moisés Reis é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES, com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua História, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no Sertão Baiano e Últimos Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o documentário Identidade Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano, com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de poder e nas memórias coletivas da região.

 

Contato: 75 999742891

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