Carta de Zé Rufino a João Bezerra

 

Imagem cedia por Robério Santos.

A carta que ora apresento ao leitor constitui um registro histórico de grande relevância, tanto pelos personagens que a protagonizam quanto pelo conteúdo que encerra. Trata-se de uma correspondência entre dois velhos conhecidos, que, mesmo redigida em 1964 — mais de duas décadas após o ocaso do cangaço —, ainda nos permite acessar dimensões significativas desse fenômeno.

No documento, José Osório de Farias, o célebre Zé Rufino, dirige-se de forma cordial a João Bezerra da Silva. O primeiro mantém vínculos diretos com a história de Fátima, tendo sido comandante de uma das volantes mais atuantes no combate ao cangaço, da qual fez parte o fatimense Liberino Vicente. Essa força policial destacou-se pela intensidade de suas ações, estando associada à morte de figuras expressivas do cangaço, como Mariano e Corisco.

Outro ponto de interseção entre a trajetória de Zé Rufino e a história local remonta a 4 de outubro de 1954. Na ocasião, o padre Renato Galvão recorreu ao então coronel para intervir na fiscalização da urna eleitoral instalada em Fátima — à época ainda denominada Monte Alverne — diante de tensões políticas envolvendo o soldado João Maria de Oliveira. O episódio, contudo, não evoluiu para maiores conflitos, uma vez que Zé Rufino, já residente em Jeremoabo, não atendeu ao chamado.

Retomando a correspondência, observa-se que Zé Rufino se dirige a João Bezerra, personagem que a memória histórica consagrou como o responsável pela morte de Lampião. Ambos pernambucanos de origem, tiveram destinos distintos após o fim do cangaço: Zé Rufino fixou-se em Jeremoabo, enquanto Bezerra estabeleceu-se em Garanhuns.

A carta pode ser acompanhada na íntegra, merecendo especial atenção o seu trecho final, no qual Zé Rufino confessa ainda ser assombrado, em sonhos, pelos combates travados nos tempos do cangaço, mesmo passados mais de vinte anos. Trata-se de um testemunho que revela não apenas a persistência da memória, mas também os efeitos duradouros de uma experiência marcada pela violência.

Zé Rufino faleceu em 1969, em Jeremoabo, no dia em que completava 60 anos. João Bezerra, por sua vez, viria a falecer no ano seguinte, em 1970, aos 72 anos, na cidade de Garanhuns.


PS: O material para a produção desse texto foi-me gentilmente cedido por Robério Santos, deixo aqui a minha gratidão pela contribuição.


Moisés Santos Reis Amaral é historiador, professor e gestor escolar no sertão baiano. Licenciado em História, especialista em História e Cultura Afro-brasileira e mestrando em Ensino de História (UFS/ProfHistória), atua há mais de 25 anos na educação básica e dirige a Escola Municipal Professora Idivania de Oliveira Menezes, em Fátima-BA. Desenvolve pesquisas sobre o cangaço, a formação histórica do sertão e as disputas de memória no Nordeste, com ênfase em fontes documentais. É autor de obras como O Embaixador da Paz, Últimos Cangaceiros e Maria Preta, além de membro da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço (ABlAC).


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