Itinerário da Estrada Real das boiadas.

 

Com base na análise de registros históricos, como antigos documentos de cobrança de foro, é possível reconstruir o itinerário da Estrada Real das Boiadas (ou Estrada Real dos Bois). A partir do século XVIII, a Província da Bahia consolidou uma complexa rede viária destinada ao trânsito de comitivas que integravam a economia pecuária do sertão aos centros urbanos.

O fluxo logístico consistia na condução de gado bovino, previamente engordado às margens do Rio São Francisco — historicamente denominado "Rio dos Currais" —, em direção à capital, Salvador. No trajeto inverso, as expedições retornavam ao interior transportando manufaturas e bens de subsistência inexistentes na região semiárida.

O complexo viário originava-se nas latifúndios pastoris localizados ao longo do Rio São Francisco, especificamente nas adjacências de Paulo Afonso e da antiga Vila de Curral dos Bois (atual município de Glória, BA). A partir deste ponto, as boiadas avançavam pelo bioma da caatinga, transitando por localidades estratégicas como Jeremoabo, Bom Conselho (Cícero Dantas), Nova Olinda (Olindina), Inhambupe e Alagoinhas.

Em Alagoinhas, o sistema apresentava uma importante bifurcação:

  • O Eixo Oeste/Norte: Seguia em direção a Serrinha, Itiúba e Santa Luz, estabelecendo conexão com Juazeiro e, consequentemente, com os mercados de gado do Piauí e Maranhão.
  • O Eixo São Francisco (Caminho de Cícero Dantas): Este traçado passava por Bom Conselho (Cícero Dantas), onde ocorria uma nova ramificação em direção à Província de Sergipe, cruzando o território atual de Fátima com destino a Simão Dias e Lagarto.

Independentemente da ramificação, os caminhos voltados ao litoral baiano convergiam na antiga Feira Velha de Capoame (atual Dias d’Ávila), ponto de entreposto obrigatório antes do destino final em Salvador. Cabe ressaltar que a atual denominação do município de Dias d’Ávila é uma referência direta à linhagem da Casa da Torre, família Garcia d’Ávila, que exerceu domínio senhorial sobre vastas extensões de terra que hoje compreendem o sertão da Bahia, de Sergipe e de estados adjacentes.

 

Moisés Reis é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES, com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua História, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no Sertão Baiano e Últimos Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o documentário Identidade Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano, com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de poder e nas memórias coletivas da região.

 

Contato: 75 999742891

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