BASES HISTÓRICAS DO CANGAÇO
A análise de documentação
referente à vila de Bom Conselho, atual cidade de Cícero Dantas, ao longo do
século XIX, nos permite identificar padrões de violência antigos, que parecem
estar na base da formação da sociedade sertaneja.
Padrões
recorrentes de uso da violência como ferramenta de resolução de conflitos são
encontrados em processos-crime, relatórios de presidentes de província e na
imprensa da época, revelando formas vistas como arcaicas e pouco civilizadas de
lidar com questões do cotidiano.
Em
19 de abril de 1874, na fazenda Cajazeiras, o jovem conhecido como Censão
assassina cruelmente a jovem Ana, reportada no processo-crime apenas como Ana
de Tal. Motivado pela recusa da jovem, de apenas 12 anos, a uma proposta de
relacionamento afetivo, o agressor fez tocaia e a trucidou a pauladas. O fato
gerou tamanha comoção que, mais de 150 anos após o ocorrido, a memória coletiva
ainda rememora o caso.
Anos
mais tarde, no limiar da escravidão brasileira, um escravizado de nome Martinho
assassina brutalmente um desafeto a golpes de machado. O também escravizado
Sérgio dormia em sua casa coberta de palha quando foi golpeado. O motivo da
ação teria sido, de acordo com depoimentos constantes no processo de 1888, uma
briga ocorrida dias antes na fazenda Olaria, nas imediações da atual zona
urbana de Cícero Dantas.
No
dia 18 de dezembro de 1912, nas proximidades da antiga localidade do Mocó, hoje
município de Fátima, um grupo de homens assassinou brutalmente João Lucindo de
Souza, que teria agredido um familiar daqueles homens, que, de tocaia e movidos
pela vingança, executaram o crime.
Em
alguns casos documentados, percebe-se que a centralidade da “honra masculina”
frequentemente aparece como justificativa para atos extremos como homicídios. O
código de honra sertanejo é notadamente divergente daquele observado no
litoral: a distância dos grandes centros e a ausência efetiva do Estado abriram
espaço para homens que, com frequência, sentiam-se responsáveis pela própria
segurança e pela guarda de sua reputação. A fragilidade dos meios de coerção
estatal contribuiu, com efeito, para a perpetuação dessas práticas.
Um
caso que ilustra bem essa discrepância reside na tradição oral dos antigos
moradores de Cícero Dantas. Conta-se que um proprietário de terras e
escravizados local, em viagem a Salvador, teria sido desrespeitado por um
cidadão em um bar ao ser chamado de “Pai de Chiqueiro do Sertão”. O ofendido
teria retornado para casa, elaborado um plano de vingança e voltado à capital
dias depois apenas para assassinar o ofensor.
A
despeito de tal fato ter ocorrido ou não, ele representa um bom exemplo da
forma como o sertanejo costumava resolver seus conflitos e de como uma ofensa
pessoal poderia ganhar proporções muito amplas. Muitas vezes, o ofendido sequer
cogitava a possibilidade de recorrer às autoridades para uma solução
institucional, tendo na vingança sua primeira — e, por vezes, única — opção.
Todos
esses fatos revelam o uso da violência como mecanismo de resolução de
conflitos, uma espécie de “código de Hamurabi” não dito, não escrito, mas com
profundas raízes históricas.
Outro
ponto em comum nos exemplos citados é que todos ocorrem bem antes do chamado
cangaço da era lampiônica, que só ganharia maior projeção nessa região a partir
de 1928, quando Virgulino Ferreira da Silva e um pequeno grupo de homens
atravessam o rio São Francisco e se estabelecem na Bahia.
Antes
disso, grandes proprietários de terras tinham na força de homens armados a sua
principal forma de persuasão e imposição de poder. Os chamados jagunços podem ser
reconhecidos como antecessores imediatos dos cangaceiros. Nesse sentido,
violência e poder local se articulavam como instrumentos de legitimação de
autoridade.
O
cangaço foi, com efeito, a reconfiguração de práticas muito antigas, nas quais
a violência exercia o papel de organizador social. Os cangaceiros assumiram, em
muitos contextos, o papel de uma lei paralela, criando aquilo que Frederico
Pernambucano de Melo chamou de “Cangaço S.A.” — uma analogia ao fato de Lampião
ter transformado o cangaceirismo em uma espécie de empresa, da qual era a
autoridade máxima.
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