Manoel Lins Barreto: um vaqueiro entre documentos e fronteiras

 


Fazenda Caritá, Jeremoabo, 10 de agosto de 1840. João Dantas dos Reis, pai do futuro Barão de Jeremoabo, sela um negócio com bastante naturalidade: a compra de um escravizado de seu irmão, Pedro Dantas dos Reis.

O texto, escrito pelo próprio vendedor, descreve as circunstâncias da negociação:

 

“Vendo a meu mano, o Sr. Cel. João Dantas dos Reis, o meu mulatinho Amâncio, filho da minha escrava Pulcheria, pelo preço e quantia de duzentos e cinquenta mil réis, que recebi ao passar deste.”

 

O documento é uma espécie de recibo de compra e venda e informa que a escritura não havia sido realizada em razão da impossibilidade de o vendedor se dirigir até a sede do município de Jeremoabo para formalizar o negócio. Não sabemos, contudo, o motivo dessa impossibilidade. A negociação ocorreu na Fazenda Caritá, propriedade da família Dantas onde, apenas dois anos antes, em 1838, havia nascido Cícero Dantas Martins, o futuro Barão de Jeremoabo.

Para além das questões que envolvem a escravidão e a naturalidade com que seres humanos eram negociados naquele contexto, outro detalhe do documento chamou minha atenção: a assinatura de uma das testemunhas, Manoel Lins Barreto.

A primeira vez que tive contato com esse nome foi alguns anos atrás, enquanto pesquisava documentos relacionados ao antigo litígio entre Bahia e Sergipe pela posse das terras dessa região de fronteira.

Naquela documentação, Manoel Lins Barreto aparece como uma das testemunhas ouvidas sobre a ocupação e os limites territoriais da região. Em seu depoimento, defendeu que aquelas terras pertenciam ao município de Bom Conselho e, portanto, integravam o território baiano.

Manoel Lins Barreto não era um grande proprietário ou chefe político. Era vaqueiro de João Dantas dos Reis. Nascido em 20 de setembro de 1800, na Fazenda São Domingos, em território que atualmente pertence ao município de Fátima, sua trajetória esteve ligada à família Dantas. É provável que tenha trabalhado durante boa parte de sua vida em suas propriedades. Faleceu em 11 de fevereiro de 1884, aos 83 anos.

Sua assinatura no documento de 1840 permite encontrá-lo décadas antes do depoimento sobre a disputa territorial. Naquele momento, Manoel tinha 39 anos e estava inserido no cotidiano da Fazenda Caritá e nas relações mantidas pela família Dantas. Não sabemos exatamente em que circunstâncias presenciou a negociação, mas sua presença como testemunha demonstra que já integrava aquele universo de relações pessoais e de trabalho.

É justamente o cruzamento entre documentos aparentemente distintos que torna sua trajetória interessante. De um simples recibo de compra e venda de 1840 a um processo envolvendo os limites entre Bahia e Sergipe, Manoel Lins Barreto reaparece nas fontes e deixa de ser apenas um nome perdido entre assinaturas. Sua história oferece um pequeno vislumbre da vida daqueles homens que, embora distantes dos principais cargos políticos e econômicos, conheciam profundamente o território e participavam do cotidiano das grandes propriedades sertanejas.

No caso de Manoel, esse conhecimento adquirido ao longo de décadas como vaqueiro talvez ajude a compreender por que sua palavra seria posteriormente considerada relevante numa disputa sobre a quem pertenciam aquelas terras. Assim, uma assinatura aparentemente secundária acaba conectando histórias de escravidão, trabalho, poder familiar e formação das fronteiras no sertão baiano do século XIX.

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