Um pombalense na Revolução Federalista de 1893.
| Tropas acampadas. |
Com a Proclamação da República em 1889,
evento que foi, essencialmente, resultado de um golpe militar que derrubou a
monarquia, um período de grande instabilidade política se abateu sobre o país.
Movimentos que contestavam a nova ordem política ou disputavam os rumos da
recém-criada República eclodiram em diversas regiões. Entre os mais conhecidos
estão a Revolução Federalista, no Sul do Brasil, e, alguns anos depois, a
Guerra de Canudos, na Bahia.
Quem é leitor do Blog História do Sertão
sabe que a Guerra de Canudos teve impacto direto na vida de praticamente todas
as pessoas que habitavam os sertões da Bahia no final do século XIX. Tropas
atravessaram a região, famílias foram atingidas, propriedades foram
requisitadas e integrantes das elites políticas locais participaram, de
diferentes maneiras, daquele conflito.
Mas um episódio que caiu no esquecimento
da nossa história liga um habitante dessa mesma região sertaneja a outro
conflito ocorrido a milhares de quilômetros de distância: a Revolução
Federalista de 1893.
Naquele período de efervescência
política, os ânimos andavam exaltados. No Rio Grande do Sul, grupos
federalistas, conhecidos como maragatos e liderados por figuras como Gaspar
Silveira Martins e Gumercindo Saraiva, entraram em confronto com os republicanos
que controlavam o governo estadual, os chamados pica-paus, liderados por Júlio
de Castilhos e apoiados pelo governo do presidente Floriano Peixoto. Iniciado
em 1893, o conflito ultrapassou as fronteiras gaúchas, alcançando Santa
Catarina e Paraná, e transformou-se em uma das mais violentas guerras civis dos
primeiros anos da República.
Para combater os revoltosos, o governo
federal mobilizou forças de diferentes partes do país. Contingentes militares
seguiram para o Sul, inclusive homens provenientes do Nordeste, colocando
soldados de regiões muito distantes no centro de uma disputa originalmente
desencadeada no Rio Grande do Sul. Entre os militares que participaram das
operações estava Antônio Moreira César, figura que se tornaria nacionalmente
conhecida poucos anos depois por sua atuação na Guerra de Canudos.
Foi nesse conflito que um pombalense
resolveu se voluntariar para combater a milhares de quilômetros de sua terra.
Não sabemos exatamente o que o levou a tomar essa decisão. É possível que
estivesse movido pela defesa da República, pela preservação da unidade nacional
ou mesmo pelas oportunidades oferecidas pelo serviço militar. O que sabemos é
que esse homem deixou o sertão baiano para integrar as forças enviadas ao Sul
em defesa do governo republicano.
Curiosamente, ainda não sabemos ao certo
o nome desse voluntário, embora saibamos a família à qual pertencia: era um dos
filhos do coronel Antônio Ferreira de Brito (1842–1904), grande proprietário
rural e figura de destaque na política de Ribeira do Pombal. Essa aparente
contradição existe porque tudo o que sabemos sobre sua participação no conflito
foi extraído de uma carta escrita pelo próprio Antônio Brito ao Barão de
Jeremoabo.
Na correspondência, datada de 23 de
março de 1893, Antônio Ferreira de Brito informa que viajaria a Salvador na
tentativa de encontrar o filho antes de sua partida para o Rio Grande do Sul,
onde seguiria alistado como voluntário. A carta, entretanto, não informa o nome
desse filho. Assim, por enquanto, sua identidade permanece desconhecida.
Sabemos quem era seu pai, conhecemos o destino para o qual seguia e até
encontramos referências ao oficial relacionado à sua partida, mas não sabemos o
nome do próprio voluntário.
Na mesma missiva, o coronel cita o
capitão Salvador Pires, aparentemente ligado à organização ou ao comando dos
homens que seguiriam para o conflito. Salvador Pires era militar baiano e
também teria sua trajetória ligada aos grandes confrontos que marcaram os
primeiros anos da República. Depois de participar das operações no Sul, seu
nome voltaria a aparecer alguns anos mais tarde em Canudos, novamente entre as
forças mobilizadas pelo governo republicano.
Essa ligação não se restringe a Salvador
Pires. Antônio Moreira César também esteve nos conflitos do Sul e, poucos anos
depois, seria enviado à Bahia para comandar a terceira expedição militar contra
Canudos. Em 1897, chegou ao sertão cercado pela fama adquirida durante os
primeiros anos da República e à frente de uma força que deveria pôr fim ao
arraial de Antônio Conselheiro. A expedição, contudo, terminou em desastre, com
a morte de Moreira César e a retirada das tropas republicanas.
Há, portanto, uma curiosa inversão de
caminhos entre os dois conflitos. Durante a Revolução Federalista, contingentes
provenientes de diferentes regiões do país, inclusive do Nordeste, percorreram
milhares de quilômetros em direção ao Sul para defender o governo republicano.
Poucos anos depois, o fluxo se inverteria: tropas de várias partes do Brasil
seriam enviadas ao sertão da Bahia para combater Canudos.
Nesse movimento, alguns personagens
acabaram ligados aos dois conflitos. Moreira César é certamente o exemplo mais
conhecido, mas a trajetória de Salvador Pires também evidencia essas conexões.
Já o filho não identificado de Antônio Ferreira de Brito representa outro
aspecto dessa história: os homens comuns que integraram essas mobilizações
militares e que, muitas vezes, deixaram apenas pequenos rastros na
documentação.
O episódio chama atenção justamente pela
distância entre Ribeira do Pombal e os campos de batalha do Rio Grande do Sul.
Em uma época em que uma viagem entre o sertão baiano e o Sul do país
representava uma longa jornada, um jovem pombalense deixou sua família para
participar de uma guerra cujas causas estavam diretamente relacionadas às
disputas políticas surgidas após a queda da monarquia.
A carta de 23 de março de 1893 também
revela como acontecimentos normalmente apresentados pela historiografia como
episódios nacionais chegavam aos lugares mais distantes do país. A Revolução
Federalista não estava restrita ao Rio Grande do Sul quando um pai sertanejo
precisou viajar até Salvador para tentar encontrar o filho que partia para a
guerra.
Poucos anos depois, seriam soldados
vindos do Sul e de outras partes do Brasil que atravessariam o sertão baiano em
direção a Canudos. Os caminhos percorridos por Moreira César e Salvador Pires
ajudam a aproximar esses dois acontecimentos: primeiro, a República enviou
homens de diferentes regiões para combater seus adversários no Sul; depois,
mobilizou novamente o Exército nacional para enfrentar aqueles que considerava
uma ameaça à ordem republicana no sertão baiano.
O nome desse voluntário pombalense ainda
precisa ser recuperado. Por enquanto, ele permanece escondido nas linhas de uma
carta escrita há mais de 130 anos. Sabemos que era filho de Antônio Ferreira de
Brito, que se alistou como voluntário e que se preparava para deixar a Bahia em
direção ao Rio Grande do Sul. Seu pequeno rastro documental, entretanto, é
suficiente para mostrar que a história do sertão nunca esteve isolada dos
grandes acontecimentos nacionais.
Ao lado das trajetórias mais conhecidas
de homens como Moreira César e Salvador Pires, a história desse sertanejo
anônimo aproxima dois conflitos separados por milhares de quilômetros, mas
ligados pelas turbulências da consolidação da República brasileira. Primeiro,
homens do Nordeste seguiram para o Sul em defesa do novo regime; poucos anos
depois, militares de diferentes partes do país fariam o caminho em direção ao
sertão baiano. Entre esses dois extremos do território nacional, circularam
soldados, oficiais e projetos políticos de uma República que, em seus primeiros
anos, recorreu repetidamente às armas para afirmar sua autoridade.
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