Fátima: Do Sertão do Tiuiu ao Registro Paroquial de Terras
Entre os séculos XVII e XVIII, a região
que hoje compreende o município de Fátima estava inserida no que os documentos
coloniais denominavam genericamente de Sertão do Tiuiu. Esse sertão
correspondia a uma vasta extensão territorial ao norte do Rio Itapicuru,
estendendo-se em direção às bacias dos rios Real e Vaza-Barris. Essa demarcação
espacial abrangia parcelas do que hoje são os municípios de Fátima, Cícero
Dantas, Heliópolis, Antas, Novo Triunfo, Jeremoabo, Pedro Alexandre, Coronel
João Sá, Santa Brígida, Adustina, Paripiranga e Poço Verde (este já em
Sergipe).
A formação desse domínio esteve ligada à
expansão da Casa da Torre, iniciada por Garcia d’Ávila ainda no século XVI e
consolidada por seus sucessores com a instituição do Morgado da Casa da Torre
em 1624. Pelo regime do morgadio, a Coroa Portuguesa — incapaz de colonizar,
policiar e explorar diretamente o interior — concedia grandes concessões de
sesmarias vinculadas a uma linhagem nobre. Essas terras tornavam-se
indivisíveis e inalienáveis, transmitidas integralmente de geração em geração
ao filho primogênito varão.
Como era inviável administrar
diretamente um latifúndio com centenas de léguas de extensão, a Casa da Torre
atuava como uma espécie de "segundo Estado" no sertão. Ela subdividia
seus domínios através de contratos de aforamento (enfiteuse), concedendo sítios
de currais a vaqueiros, criadores e agregados. Em troca do direito perpétuo de
morar e criar gado naquelas glebas, esses colonos (chamados foreiros) pagavam
foros anuais e dízimos aos procuradores dos d'Ávila.
O século XIX trouxe profundas
transformações jurídicas para a posse da terra no Brasil: Em1822 (Resolução nº
76): Pouco antes da Independência, o Império extinguiu o antigo sistema
colonial de concessão de sesmarias. Abriu-se, então, o chamado "regime de
posses extralegais": durante quase três décadas, quem ocupasse terras
virgens com benfeitorias, lavouras e currais, buscava legitimar seu domínio de
fato. É possível que tenha sido nessa brecha concedida pelo Estado que os
primeiros colonos tenham chegada a essa região para ocupar essas terras.
Em 1835 a Regência extinguiu formalmente
os vínculos de morgadio no Brasil. Desprovida da blindagem da herança
indivisível e endividada, a família Garcia d’Ávila viu suas antigas possessões
serem penhoradas, loteadas e vendidas.
Esse colapso abriu caminho para a
consolidação de uma nova dinastia regional. Em 1832, o patriarca João Dantas
dos Imperiais Itapicuru (avô do futuro Barão de Jeremoabo) adquiriu da Casa da
Torre um vasto bloco de antigas sesmarias e direitos enfitêuticos no Boqueirão
(atual Cícero Dantas) e arredores, iniciando o predomínio político e fundiário
da família Dantas sobre o território.
Em 1850, o governo imperial instituiu o
marco definitivo da propriedade rural. A lei estabeleceu que a terra pública
(devoluta) só poderia ser adquirida a partir de então por meio de compra em
leilão público. Para evitar que os ocupantes perdessem suas propriedades para o
Estado, o regulamento (Decreto Imperial nº 1.318 de 1854) determinou a
realização do Registro Paroquial de Terras.
Como o Império não possuía corpo
burocrático e cartorário estruturado no sertão e a Igreja Católica foi
encarregada da tarefa. Cabia ao vigário da paróquia transcrever nos livros de
terras as declarações apresentadas pelos fazendeiros e lavradores. Foi assim
que, entre 1856 e 1857, os pioneiros que ocupavam as glebas onde hoje se ergue
Fátima compareceram perante o Vigário Caetano Dias da Silva, pároco de Nossa
Senhora do Bom Conselho dos Montes do Boqueirão, para registrar propriedades
históricas como Mundo Novo, Paus Pretos, Laje da Boa Vista, Monte Negro e
tantas outras.
Do ponto de vista estritamente legal, o
registro do vigário não equivalia a uma escritura pública de propriedade
definitiva. A lei imperial o definia apenas como um documento declaratório e
fiscal: o pároco cobrava os emolumentos legais (geralmente em torno de mil a
dois mil réis), mas não realizava medições de engenharia e agrimensura, nem
expedia título definitivo de domínio.
Contudo, na realidade sertaneja, essa
declaração teve peso absoluto. Ao registrar as confrontações de suas fazendas
nos livros paroquiais, o posseiro blindava sua terra, impedindo que o Estado a
tomasse como terra devoluta para vender em hasta pública. Esse documento
garantia o reconhecimento formal da posse entre a vizinhança e permitia que a
propriedade fosse transmitida legitimamente por herança em inventários, vendida
por escrituras particulares ou oferecida em garantias. Social e economicamente,
o registro do vigário transformou os antigos foreiros e posseiros em
"senhores e possuidores de fato" do solo onde trabalhavam.
A história da terra em Fátima reflete a
própria evolução agrária do semiárido nordestino: o município nasceu da
desagregação de um dos maiores latifúndios coloniais do continente americano,
atravessou a era dos foros e sesmarias do Morgado da Casa da Torre e,
finalmente, assentou suas bases territoriais nas declarações paroquiais de
meados do século XIX. As fazendas e sítios declarados aos padres entre 1856 e
1857 desenharam a malha territorial e os topônimos que persistem vivos no mapa,
nos povoados e na memória da população fatimense até os dias de hoje.
Moisés Reis
é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia
Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES,
com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre
em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e
Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do
Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História,
O Nazista, Fátima: Traços da sua História,
O Embaixador da Paz,
Maria Preta: Escravismo no
Sertão Baiano e Últimos
Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o
documentário Identidade
Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano,
com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de
poder e nas memórias coletivas da região.
Contato:
75 999742891
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