Diga a quem me ama que estou indo embora
Em 2 de maio de 1945, Antônio Cruz de
Oliveira Félix, um dos patriarcas da família Félix em Fátima, escreveu de São
Paulo uma pequena carta aos pais. Poucas linhas foram suficientes para mandar
notícias, falar da saudade e anunciar uma decisão:
“Diga
a quem me ama que São Paulo não vale nada, tô indo embora, tudo porque não
nasci para mandado.”
Naquele momento, acontecimentos que
mudariam os rumos do mundo se desenrolavam rapidamente. Hitler havia morrido
apenas dois dias antes e Berlim estava derrotada. Em 8 de maio, menos de uma
semana depois da carta, a Alemanha se renderia, encerrando a Segunda Guerra
Mundial na Europa.
O Brasil também vivia um momento
decisivo. Soldados da Força Expedicionária Brasileira ainda estavam na Europa,
enquanto, internamente, o Estado Novo de Getúlio Vargas caminhava para o fim. A
contradição de enviar soldados para combater regimes autoritários no exterior
enquanto o país permanecia sob uma ditadura fortalecia as pressões pela
redemocratização. Em outubro daquele mesmo ano, Vargas seria deposto.
Mas nada disso aparece na carta de
Antônio. Não há guerra, Hitler, Vargas ou política. Há pai, mãe, compadre,
saudade e vontade de voltar para casa.
É justamente isso que torna documentos
como esse tão interessantes. Enquanto os grandes acontecimentos ocupavam os
jornais, a vida das pessoas comuns seguia seu curso. Homens e mulheres
trabalhavam, viajavam, sentiam saudades, enfrentavam dificuldades e tomavam
decisões que jamais chegariam às páginas dos livros de História.
São Paulo já se consolidava como grande
centro urbano e industrial e, nas décadas seguintes, se tornaria destino de
milhares de nordestinos em busca de trabalho e melhores condições de vida.
Antônio, entretanto, deixou registrada uma impressão bem diferente daquela
imagem da cidade das oportunidades:
“São
Paulo não vale nada.”
Não sabemos exatamente o que aconteceu.
A carta não informa onde trabalhava, quanto tempo estava na cidade ou quais
dificuldades enfrentou. Mas ele próprio oferece uma pista ao completar: “não
nasci para mandado”.
A frase permite imaginar um conflito
entre aquele homem e a vida que encontrou na cidade grande, embora o documento
não permita ir além disso. O que sabemos é que, naquele momento, Antônio
desejava voltar.
Há ainda algo especialmente bonito em
seu pedido: “dê lembranças a quem perguntar por mim” e “diga a quem me ama”.
São palavras que revelam vínculos. Em sua terra natal, distante de São Paulo,
havia pessoas que perguntavam por Antônio, pessoas que o amavam e uma família
esperando notícias.
Talvez São Paulo “não valesse nada”
porque, naquele momento, aquilo que realmente tinha valor para ele estava em
outro lugar.
Antônio não escreveu sua carta pensando
em deixar um testemunho histórico, queria apenas conversar com os pais, mas o
papel sobreviveu e, mais de oitenta anos depois, permite enxergar um fragmento
da vida de um homem comum em meio a um dos momentos mais importantes do século
XX.
Enquanto o mundo encerrava uma guerra e
o Brasil começava a se despedir de uma ditadura, Antônio também parecia
encerrar seu próprio capítulo longe de casa e há uma bonita ironia nisso tudo:
naquela tarde de maio de 1945, ele pediu ao pai que desse lembranças “a quem
perguntar por mim”.
Oitenta
anos depois, somos nós que estamos perguntando por Antônio.
Nota:
Antônio Cruz de Oliveira Félix era tio de João Maria, irmão do seu pai Ludugero
Félix, ele é o pai de Dona Maria José, mãe de Lena de Delson eletricista. O
documento (a carta) foi-me enviado por um dos seus bisnetos, Eduardo Duarte.
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