Família Vieira de Cícero Dantas: descendência, política e poder
A família Vieira tem uma longa
trajetória política em Cícero Dantas. Seus membros já ocuparam cargos em várias
esferas do poder, atuando como intendentes, prefeitos, vereadores e deputados.
No âmbito dos cargos públicos, esse leque é ainda maior, tendo integrantes da
família ocupado funções em diferentes instâncias das administrações municipal,
estadual e federal.
| Chiquinho Vieira |
Para efeito didático, tomaremos como
ponto de partida um dos seus membros mais proeminentes: Francisco de Souza
Andrade, nascido em 1873 e falecido em 1949. Chiquinho Vieira, como ficou
conhecido, foi chefe quase incontestável da política de Cícero Dantas em seu
tempo. Habilidoso e pragmático, costurava a política local a partir dos
bastidores e, em seu auge, praticamente não conhecia adversários à altura. Chiquinho
Vieira escreveu sua própria história de poder e mandonismo, inserido em uma
tradição de influência política e econômica herdada de seus antepassados e,
posteriormente, transmitida aos seus descendentes.
O casal, Chiquinho e Josefa, teve ao
menos doze filhos, entre os quais estava Accioly Vieira de Andrade. De acordo
com informações da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), Accioly formou-se em
Engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia, em 1934, e foi empossado
como engenheiro da Prefeitura de Salvador por concurso público em 1935, apenas
um ano após sua formação acadêmica. Na política, ocupou ainda o cargo de
prefeito de Cipó, entre 1947 e 1951, exerceu quatro mandatos como deputado e,
em 1946, foi nomeado prefeito de Feira de Santana, no memorial da cidade,
consta o nome de Accioly na lista de prefeitos.
| Avelina de Carvalho Andrade |
Uma de suas filhas também teve
relevância na história de Cícero Dantas. Seu nome era Avelina de Carvalho de
Andrade (1911–1999), famosa tabeliã do município, cujo nome aparece registrado
em inúmeros documentos, especialmente escrituras de compra e venda de terras.
| Abelardo Vieira de Andrade |
Outro filho de Chiquinho Vieira com
notoriedade política foi Abelardo Vieira de Andrade (1917–2001), que ocupou o
cargo de vereador por Cícero Dantas em três ocasiões e foi eleito prefeito do
mesmo município por outros três mandatos.
As raízes da família Vieira, contudo,
podem ser rastreadas a períodos bem anteriores a Chiquinho Vieira. Sua mãe era
integrante de outra linhagem de grande importância na história de Cícero Dantas
e região. Curiosamente, a progenitora de Chiquinho Vieira tinha o mesmo nome de
uma de suas filhas citadas anteriormente: Avelina.
| Avelina Correia de Souza |
Integrante do clã dos Correia de Souza,
Avelina era filha de Francisco Correia de Souza, segundo presidente de câmara de Cícero
Dantas, amigo e correligionário do Barão de Jeremoabo. Francisco, avô materno
de Chiquinho Vieira, nasceu em 1808 e faleceu em 1884. Em seu inventário é
possível observar a numerosa fortuna deixada aos herdeiros, entre cujos bens
estavam diversos escravizados, rebanhos e fazendas espalhadas pela região.
| Francisco Correia de Souza |
Um dos herdeiros de Francisco Correia de
Souza, Severo Correia de Souza, recebeu, entre outros bens, a Fazenda Maria
Preta, propriedade que atualmente integra parte da zona urbana do município de
Fátima.
Francisco Correia de Souza era casado
com Maria Arsênia de Jesus, conhecida como Dona Momô. O casal teve ao menos
treze filhos, que se tornaram herdeiros de terras, gado e pessoas escravizadas,
elementos que ajudam a dimensionar a posição econômica ocupada pela família na
sociedade sertaneja oitocentista.
Pelo lado paterno, a origem de Chiquinho
Vieira também estava ligada a uma família abastada da região. Seu pai era Manoel
Vieira de Andrade (1835–1902), filho de Francisco Vieira de Andrade e Francisca
Xavier de Jesus, casados em 1831. Os ancestrais de Francisca eram oriundos de
Sergipe e descendiam dos Menezes de Paripiranga.
A trajetória da família Vieira
demonstra, portanto, como parentesco, patrimônio e poder político estiveram
profundamente interligados na formação das elites de Cícero Dantas e de seu
entorno. Muito antes da ascensão política de Chiquinho Vieira, seus
antepassados já estavam inseridos entre os grandes proprietários da região,
estabelecendo relações familiares com outros grupos influentes e acumulando
terras, rebanhos e riqueza. Chiquinho recebeu essa herança material e
simbólica, ampliou sua influência no cenário político local e viu parte dela
alcançar as gerações seguintes. A história dos Vieira, nesse sentido,
ultrapassa a biografia de seus integrantes: ela ajuda a compreender como determinadas
famílias atravessaram diferentes períodos da história sertaneja, adaptando
antigas formas de prestígio às novas estruturas políticas que surgiram entre os
séculos XIX e XX.
Moisés Reis
é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia
Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES,
com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre
em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e
Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do
Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História,
O Nazista, Fátima: Traços da sua História,
O Embaixador da Paz,
Maria Preta: Escravismo no
Sertão Baiano e Últimos
Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o
documentário Identidade
Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano,
com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de
poder e nas memórias coletivas da região.
Contato:
75 999742891
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