Família Vieira de Cícero Dantas: descendência, política e poder

 


A família Vieira tem uma longa trajetória política em Cícero Dantas. Seus membros já ocuparam cargos em várias esferas do poder, atuando como intendentes, prefeitos, vereadores e deputados. No âmbito dos cargos públicos, esse leque é ainda maior, tendo integrantes da família ocupado funções em diferentes instâncias das administrações municipal, estadual e federal.

Chiquinho Vieira

Para efeito didático, tomaremos como ponto de partida um dos seus membros mais proeminentes: Francisco de Souza Andrade, nascido em 1873 e falecido em 1949. Chiquinho Vieira, como ficou conhecido, foi chefe quase incontestável da política de Cícero Dantas em seu tempo. Habilidoso e pragmático, costurava a política local a partir dos bastidores e, em seu auge, praticamente não conhecia adversários à altura. Chiquinho Vieira escreveu sua própria história de poder e mandonismo, inserido em uma tradição de influência política e econômica herdada de seus antepassados e, posteriormente, transmitida aos seus descendentes.

Josefa Mendonça de Carvalho

Chiquinho Vieira casou-se com Josefa Mendonça de Carvalho (1880–1942), em Jeremoabo, no ano de 1901. Josefa Mendonça pertencia a uma prestigiada família jeremoabense. Uma de suas irmãs, Luzia Mendonça de Carvalho, era casada com João Gonçalves de Sá, que ficou conhecido como Coronel João Sá.

Accioly Vieira de Andrade

O casal, Chiquinho e Josefa, teve ao menos doze filhos, entre os quais estava Accioly Vieira de Andrade. De acordo com informações da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), Accioly formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia, em 1934, e foi empossado como engenheiro da Prefeitura de Salvador por concurso público em 1935, apenas um ano após sua formação acadêmica. Na política, ocupou ainda o cargo de prefeito de Cipó, entre 1947 e 1951, exerceu quatro mandatos como deputado e, em 1946, foi nomeado prefeito de Feira de Santana, no memorial da cidade, consta o nome de Accioly na lista de prefeitos.



Avelina de Carvalho Andrade


Uma de suas filhas também teve relevância na história de Cícero Dantas. Seu nome era Avelina de Carvalho de Andrade (1911–1999), famosa tabeliã do município, cujo nome aparece registrado em inúmeros documentos, especialmente escrituras de compra e venda de terras.

Abelardo Vieira de Andrade

Outro filho de Chiquinho Vieira com notoriedade política foi Abelardo Vieira de Andrade (1917–2001), que ocupou o cargo de vereador por Cícero Dantas em três ocasiões e foi eleito prefeito do mesmo município por outros três mandatos.

As raízes da família Vieira, contudo, podem ser rastreadas a períodos bem anteriores a Chiquinho Vieira. Sua mãe era integrante de outra linhagem de grande importância na história de Cícero Dantas e região. Curiosamente, a progenitora de Chiquinho Vieira tinha o mesmo nome de uma de suas filhas citadas anteriormente: Avelina.

Avelina Correia de Souza



Integrante do clã dos Correia de Souza, Avelina era filha de Francisco Correia de Souza, segundo presidente de câmara de Cícero Dantas, amigo e correligionário do Barão de Jeremoabo. Francisco, avô materno de Chiquinho Vieira, nasceu em 1808 e faleceu em 1884. Em seu inventário é possível observar a numerosa fortuna deixada aos herdeiros, entre cujos bens estavam diversos escravizados, rebanhos e fazendas espalhadas pela região.


Francisco Correia de Souza

Um dos herdeiros de Francisco Correia de Souza, Severo Correia de Souza, recebeu, entre outros bens, a Fazenda Maria Preta, propriedade que atualmente integra parte da zona urbana do município de Fátima.

Francisco Correia de Souza era casado com Maria Arsênia de Jesus, conhecida como Dona Momô. O casal teve ao menos treze filhos, que se tornaram herdeiros de terras, gado e pessoas escravizadas, elementos que ajudam a dimensionar a posição econômica ocupada pela família na sociedade sertaneja oitocentista.

Pelo lado paterno, a origem de Chiquinho Vieira também estava ligada a uma família abastada da região. Seu pai era Manoel Vieira de Andrade (1835–1902), filho de Francisco Vieira de Andrade e Francisca Xavier de Jesus, casados em 1831. Os ancestrais de Francisca eram oriundos de Sergipe e descendiam dos Menezes de Paripiranga.

A trajetória da família Vieira demonstra, portanto, como parentesco, patrimônio e poder político estiveram profundamente interligados na formação das elites de Cícero Dantas e de seu entorno. Muito antes da ascensão política de Chiquinho Vieira, seus antepassados já estavam inseridos entre os grandes proprietários da região, estabelecendo relações familiares com outros grupos influentes e acumulando terras, rebanhos e riqueza. Chiquinho recebeu essa herança material e simbólica, ampliou sua influência no cenário político local e viu parte dela alcançar as gerações seguintes. A história dos Vieira, nesse sentido, ultrapassa a biografia de seus integrantes: ela ajuda a compreender como determinadas famílias atravessaram diferentes períodos da história sertaneja, adaptando antigas formas de prestígio às novas estruturas políticas que surgiram entre os séculos XIX e XX.

 

Moisés Reis é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES, com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua História, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no Sertão Baiano e Últimos Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o documentário Identidade Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano, com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de poder e nas memórias coletivas da região.

 

Contato: 75 999742891

 

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