A Família Brito: uma linhagem de poder no sertão
| Sobrado dos Brito, demolido em 1977. |
Quando se fala na história política e
social do sertão baiano, poucos sobrenomes possuem uma trajetória tão longa e
influente quanto a família Brito. Embora existam diversos ramos espalhados por
cidades como Fátima, Jeremoabo, Ribeira do Pombal e Paripiranga, foi em Ribeira
do Pombal que se consolidou o núcleo mais poderoso dessa linhagem, cuja
presença na vida pública atravessa gerações e remonta aos tempos imperiais.
Um dos nomes mais conhecidos da
contemporaneidade é o de Antônio Ferreira de Oliveira Brito, nascido em 1908,
herdeiro de uma tradição familiar marcada pela liderança política, pelo poder
econômico e pela influência regional. Sua ascendência permite percorrer uma
extensa cadeia genealógica que conecta o sertão baiano do século XX às antigas
famílias luso-brasileiras dos séculos XVIII e XIX.
Antônio Ferreira de Oliveira Brito.
Antônio Ferreira de Oliveira Brito era
filho de Antônio Ferreira de Brito Neto e de Evência de Oliveira Menezes. Seu
pai, por sua vez, era filho de Antônio Ferreira de Brito Filho, figura de
destaque na sociedade pombalense e herdeiro de uma tradição familiar que já
ocupava posição privilegiada na aristocracia sertaneja.
A projeção dos Britos, entretanto,
encontra sua expressão mais marcante na figura de Antônio Ferreira de Brito,
nascido em 1842 e falecido em 4 de setembro de 1904. Casado com Josefa Soares
de Brito, ele foi um dos homens mais poderosos de Ribeira do Pombal durante a
segunda metade do século XIX. Exerceu os cargos de vereador, delegado,
conselheiro municipal e intendente — função equivalente à de prefeito nos
moldes administrativos da época — além de liderar o Partido Conservador no
município durante muitos anos.
Sua influência política era reforçada
pela patente de Tenente-Coronel da Guarda Nacional, distinção reservada aos
grandes proprietários rurais e às lideranças locais mais prestigiadas do
Império. Em correspondência dirigida ao seu parente e amigo Cícero Dantas
Martins, o Barão de Jeremoabo, Antônio Ferreira de Brito chegou a afirmar, em
1900, que sua família governava a vila havia mais de um século, revelando o
profundo enraizamento político dos Britos na região.
A ligação entre os Britos e a poderosa
família Dantas não era apenas política. Ela possuía bases familiares. Maria
Josefa da Conceição, tia-avó do Barão de Jeremoabo, casou-se com Francisco
Ferreira de Brito. Dessa união descenderiam os Britos de Pombal, estabelecendo
um elo entre duas das mais influentes famílias do sertão baiano.
O relacionamento entre Antônio Ferreira
de Brito e o Barão de Jeremoabo pode ser acompanhado por meio das numerosas
cartas preservadas no acervo da família Dantas. Entre 1891 e 1902, ao menos
quinze correspondências foram trocadas entre os dois, abordando temas que
variavam da política regional aos negócios particulares e aos grandes
acontecimentos nacionais como Guerra de Canudos.
Entre os assuntos discutidos está a
intenção de um de seus filhos de seguir carreira militar. Em carta datada de 23
de março de 1893, Antônio Ferreira de Brito escrevia ao Barão:
“Espero
carta do Benigno, sabendo se ainda encontro meu filho que deve seguir para o
Rio Grande como voluntário com o capitão Salvador Pires até segunda-feira e se
me disserem que o encontro vou dar-lhe a última bênção.”
As correspondências também revelam as
tensões que antecederam a Guerra de Canudos. Em fevereiro de 1894, anos antes
da destruição do arraial, Ferreira de Brito relatava sua preocupação com a
circulação de seguidores de Antônio Conselheiro pela região:
“Ontem
fomos surpreendidos com a aparição de 17 sicários de Antônio Conselheiro,
armados até os dentes. Demoraram pouco e seguiram para os lados daí. Aqui
chegando, soube terem dormido na Vazia Salgada, onde moram meus sobrinhos.
Principiam-se as correrias, os roubos e desrespeito a autoridades. E como
repeli-los com apenas um praça que tem no Pombal?”
O documento é valioso por registrar a
percepção dos grandes proprietários sertanejos diante do crescimento do
movimento conselheirista, muito antes da eclosão do conflito que marcaria
profundamente a história do Nordeste.
Foi também Antônio Ferreira de Brito
quem ergueu o famoso Sobrado dos Britos, um dos edifícios mais emblemáticos de
Ribeira do Pombal. Construído no final do século XIX, o casarão tornou-se
símbolo do poder econômico da família. A edificação testemunhou importantes
episódios da história regional, incluindo a passagem da Coluna Prestes em 1925
e de Lampião em 1928. O prédio permaneceu como um dos marcos arquitetônicos da
cidade até sua demolição, em 1977, para a construção da atual agência do Banco
do Brasil.
Nessa mesma época, o Barão de Jeremoabo
reformava o velho engenho Camuciatá, fundado pelo seu trisavô Baltazar dos Reis
Porto. Na propriedade, o Barão erguia o imponente solar que ainda hoje pode ser
visto na propriedade.
Por meio de casamentos, os Britos também
se conectaram a outra importante família sertaneja. Antônio Ferreira de Brito
era genro de Antônio Soares da Fonseca, conhecido como Coronel Monte Santo,
grande proprietário de terras da região. Embora pouco se saiba sobre sua
trajetória, documentos indicam sua relevância econômica e social. Em carta de
1896, José Gonçalves informava ao Barão de Jeremoabo o falecimento do coronel e
de um de seus filhos na localidade de Formosa.
Entre os descendentes de Antônio
Ferreira de Brito destaca-se Francisco Ferreira de Brito, casado com Manuella
Francisca do Nascimento. Também Tenente-Coronel da Guarda Nacional, Francisco
exerceu os cargos de Juiz de Paz, Intendente de Ribeira do Amparo e Intendente
do Conselho Municipal da Vila de Pombal, perpetuando a tradição política da
família.Ana Ferreira de Brito.
Outra filha conhecida foi Ana Ferreira
de Brito, cuja fotografia foi preservada e posteriormente divulgada por Álvaro
Pinto Dantas de Carvalho Júnior. A imagem foi oferecida à família Dantas,
seguindo um costume bastante comum até meados do século XX, quando fotografias
eram trocadas entre parentes e amigos como demonstração de afeto e prestígio
social.
A origem dessa linhagem, entretanto, é
ainda mais antiga. Antes dos Britos que se destacaram em Pombal, encontram-se
os Menezes. Antônio Ferreira de Brito descendia do Major José Antônio de
Menezes, nascido por volta de 1808 e tradicionalmente reconhecido como fundador
da cidade de Paripiranga. Este, por sua vez, era filho do Capitão José Vitorino
de Menezes, nascido aproximadamente em 1779, na cidade sergipana de Lagarto.
A genealogia avança para além das
fronteiras brasileiras. José Vitorino de Menezes era filho do Capitão Manoel de
Carvalho Carregosa e de Mariana D'Ascensão, portugueses que figuram entre os
ancestrais mais remotos identificados dessa linhagem.
Ao
longo de mais de dois séculos, os Britos acumularam influência política, poder
econômico e prestígio social, participando diretamente da formação de cidades,
da administração pública e dos principais acontecimentos da história regional.
Embora diferentes ramos da família tenham se espalhado por diversas localidades
do sertão, foi em Ribeira do Pombal que se consolidou o núcleo mais poderoso
dessa linhagem, cujos vestígios ainda permanecem vivos na memória coletiva e na
história do Nordeste baiano.
Moisés Reis
é professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia
Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES,
com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre
em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e
Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do
Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História,
O Nazista, Fátima: Traços da sua História,
O Embaixador da Paz,
Maria Preta: Escravismo no
Sertão Baiano e Últimos
Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o
documentário Identidade
Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano,
com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de
poder e nas memórias coletivas da região.
Contato:
75 999742891
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