A família Borges em Fátima e Cícero Dantas.

 

Foto: Fátima de outrora.

A presença da família Borges na região que hoje compreende o município de Fátima, Bahia, remonta ao século XIX e está profundamente ligada ao processo de ocupação sertaneja baseado na pecuária, na posse rural e nas alianças familiares características do interior baiano.

Entre os indivíduos mais antigos identificados até o momento está Fernando Borges de Santana, nascido em Jeremoabo por volta de 1790. Sabe-se que foi casado com uma mulher conhecida pelo nome de Duninha, embora os registros até agora localizados não permitam identificar seu nome completo. Desse casal nasceu, ao menos, Francisco José Borges, nascido em 1826, na região que hoje corresponde ao município de Cícero Dantas, onde também faleceu em 11 de março de 1906.

Francisco José Borges casou-se com Rosa Maria do Nascimento (1814–1882), união da qual nasceram, pelo menos, cinco filhos. Entre eles estava João Borges de Santana, nascido em 1848, personagem fundamental para compreender a consolidação da família Borges no território fatimense.

Josefa Siqueira do Nascimento. 


João Borges de Santana casou-se com Josefa Siqueira Nascimento, nascida em 1854 e falecida entre os anos de 1945 e 1946. De acordo com informações preservadas pela descendente Edna Borges, Josefa Siqueira veio ainda criança do Maranhão para Patrocínio do Coité — atual município de Paripiranga, Bahia. Sua mãe faleceu quando ela ainda era muito jovem, tendo sido criada pelo padrinho. Mais tarde, casou-se com aquele que seria considerado seu irmão adotivo e passou a residir nas imediações de Paripiranga e posteriormente na área onde hoje se localiza o município de Fátima. Segundo a tradição oral da família, Josefa teria falecido aos 101 anos de idade.

Os relatos familiares também apontam que os casamentos entre primos e primos irmãos eram práticas recorrentes entre diversos ramos da linhagem Borges, comportamento relativamente comum entre famílias sertanejas ligadas à posse rural e à preservação patrimonial.

Joaquim Borges de Santana, Casado com uma das irmãs do Barão, não viveu em Fátima, sua vida foi em Olindina e Cícero Dantas. 


Entre os irmão de Josefa destacava-se Joaquim Borges de Santana (1849–1921), figura de grande relevância regional. Joaquim trabalhou para a família Dantas, ligada ao Barão de Jeremoabo, tornando-se proprietário de fazendas em Itapicuru e Nova Olinda — atual município de Olindina. Casou-se com Francisca Dantas dos Reis, irmã do Barão de Jeremoabo, estabelecendo uma importante ligação matrimonial entre a família Borges e uma das mais influentes linhagens políticas do sertão baiano oitocentista.

Francisco Borges de Santana, nascido em 1894.


O casal João Borges de Santana e Josefa Siqueira Nascimento tornou-se responsável direto por grande parte da descendência Borges atualmente existente em Fátima e adjacências. Entre os filhos do casal destacam-se Francisco Borges de Santana, nascido em 1894 e avô de Edna Borges; Joaquim Borges de Santana, pai de Miguel de Benedita, falecido recentemente, além de avô paterno dos professores Cidney e Edinho.

Joaquim Borges de Santana (1896-1960)


Outra filha importante do casal, foi Paula Borges de Santana, casada com Joaquim Ribeiro do Nascimento. Paula e Joaquim aparecem como testemunhas no processo instaurado após o assassinato de João Lucindo, ocorrido em 1919, documento que evidencia a inserção social e a credibilidade da família na comunidade local. O casal contraiu matrimônio em 9 de maio de 1914 e teve numerosa descendência.

Paula Borges de Santana.


Entre os filhos de Paula Borges de Santana e Joaquim Ribeiro do Nascimento destaca-se Rosa Borges, casada com Cândido José de Oliveira, irmão de João Maria de Oliveira. Além dela, são lembrados Justiniano Borges, Donaninha — casada com José Ferreira Sobrinho, conhecido como Zé da Barreira — entre outros descendentes que deram origem a famílias importantes na cidade de Fátima.

Justiniano Borges


A relevância social de Paula Borges permanece viva na memória urbana local: um loteamento da cidade leva seu nome. Paula também é avó de Leleno, casado com a professora Marilene, casal que atualmente já possui vários bisnetos.

Os registros documentais do século XIX demonstram que os Borges estavam diretamente ligados à ocupação territorial e à economia pecuarista da região. Entre os nomes encontrados aparecem Francisco Borges de Andrade, comprador da Fazenda Pau Preto — atual povoado Paus Pretos —; Francisco Borges da Costa, associado à Fazenda Raiz; Francisco José Borges, ligado à Fazenda Lages; e Francisco Borges, proprietário nas áreas de Serra Vermelha e Tombador.

Esses indivíduos, todos associados à posse rural, parecem constituir o tronco fundador da família Borges na região, inseridos na lógica econômica do gado, do couro e da expansão sertaneja.

Na década de 1890, novos registros reforçam a consolidação da família. Em carta escrita por Severo Correia de Souza ao Barão de Jeremoabo no ano de 1898, aparece a referência ao “velho Borges”, personagem consultado durante uma disputa envolvendo gado, evidência do prestígio social e do papel de mediação exercido por membros da família.

Paralelamente, registros matrimoniais do período, mencionam indivíduos como Pedro Borges de Santana, Atanásio Borges da Costa, Santilo Borges Benvanato, José Borges de Oliveira e Martiniano de Souza Borges, indicando a formação de diferentes ramificações familiares ao longo do território sertanejo.

Já no início do século XX, a família Borges encontrava-se amplamente expandida. Os Borges de Santana destacavam-se pela extensa descendência, composta por nomes como Pedro, Paulo, José, Luiz, Maria, Paula, Jeremias e Francisco. Os da Costa Borges mantinham sua continuidade por meio de descendentes de Francisco Borges da Costa, entre eles Atanásio, Zacarias e Isidório. Surgem ainda os ramos Souza Borges e Borges de Oliveira, frutos de alianças matrimoniais com outras famílias tradicionais da região.

Outras derivações familiares identificadas nos registros incluem os Borges da Silva, Borges Brito, Borges Mendes e Borges de Castro, Borges da Silveira – Linhagem de Augusto Borges da Silveira, primeiro vice-prefeito de Fátima, demonstrando a ampla capacidade da família em se entrelaçar socialmente com diferentes grupos sertanejos.

Entre os anos de 1913 e 1916, a recorrência dos Borges em registros de casamento — ora como nubentes, ora como testemunhas — evidencia não apenas seu crescimento demográfico, mas também o prestígio social alcançado pela família no contexto regional. Nessa época, os Borges já figuravam como uma das linhagens extensas e influentes do sertão local, transitando entre o universo da propriedade rural, das alianças familiares e das relações políticas.

Este estudo concentra-se, sobretudo, na localização do tronco familiar, isto é, na identificação dos primeiros indivíduos portadores do sobrenome Borges registrados na região. Trata-se de uma sequência de cruzamentos documentais e genealógicos catalogados ao longo de anos de pesquisa, cuja metodologia será posteriormente aplicada a outras linhagens familiares do município de Fátima e áreas vizinhas.


Moisés Reis é professor há 24 anos no município de Fátima (BA). Licenciado em História pela UNIAGES, com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua História, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no Sertão Baiano e Últimos Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o documentário Identidade Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano, com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de poder e nas memórias coletivas da região.



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