Os desdobramentos da independência do Brasil na região
Conforme já abordado aqui no Blog em outras ocasiões, a família Dantas, estirpe do Barão de Jeremoabo, sucedeu a linhagem de Garcia D’Ávila como uma das mais importantes famílias proprietárias do sertão baiano. Sob a liderança de João Dantas, avô do Barão, a família ampliou consideravelmente seu domínio fundiário sobre terras que hoje compreendem parte dos municípios do Semiárido Nordeste II e outras regiões. Em consequência desse poder econômico, os Dantas passaram também a exercer forte influência sobre a política local.
A partir de 1821, começaram a se intensificar as movimentações políticas que culminariam na Independência do Brasil em relação a Portugal. Tais acontecimentos tiveram dinâmicas diferentes nas diversas províncias do enorme território brasileiro e, em muitos lugares, a separação política não ocorreu de maneira pacífica.
Na Bahia, por exemplo, houve forte resistência de grupos portugueses que não aceitavam o movimento de independência, desencadeando um conflito que se prolongaria até 1823. Na vizinha província de Sergipe, também havia grupos contrários à causa da independência e disputas em torno da adesão ao movimento.
De Itapicuru-BA, João Dantas decidiu se insurgir em apoio ao grupo pró-independência, os chamados patriotas. Assim, em 1822, ele e seus filhos — entre eles João Dantas Júnior, que mais tarde seria pai do Barão de Jeremoabo — organizaram no engenho Camurciatá um quartel-general para reunir tropas e apoiar o movimento de independência. A propriedade tornou-se um importante ponto de apoio às forças patriotas, chegando a receber o general francês Pedro Labatut em sua passagem pela região.
João Dantas também manteve correspondência com o famoso general. Em fevereiro de 1823, estando doente e distante do campo de batalha, escreveu a Labatut em busca de notícias sobre os acontecimentos. A resposta do general, datada de 28 de fevereiro, demonstra a proximidade entre os dois e a participação de Dantas nas articulações que envolviam as forças favoráveis à independência.
Na província de Sergipe havia importantes focos de resistência à causa da independência. Nesse contexto, João Dantas, acompanhado de seus filhos, parentes e outros patriotas de Itapicuru, organizou um contingente de cerca de 2 mil homens e seguiu para a província vizinha. As forças comandadas por Dantas atuaram em localidades como Campos, atual Tobias Barreto, Lagarto, Santa Luzia, Estância e São Cristóvão, contribuindo para a adesão dessas localidades à causa defendida pelos patriotas.
A sede da fazenda Caritá, nos arredores de Jeremoabo — propriedade onde, anos mais tarde, nasceria o Barão de Jeremoabo — também esteve envolvida nessas movimentações. Ali funcionou um quartel onde tropas, políticos e cidadãos se reuniram em apoio à causa. Foi nesse espaço que João Martins Fontes e seu genro Francisco Félix de Carvalho, então proprietário da fazenda, promoveram a aclamação de D. Pedro, enquanto aguardavam a chegada de João Dantas e de seu contingente vindo de Camurciatá.
Assim, propriedades rurais como Camurciatá e Caritá, distantes dos cenários mais conhecidos das lutas no Recôncavo e em Salvador, também fizeram parte das articulações que contribuíram para o processo de independência. A participação de João Dantas e de seus aliados demonstra que os acontecimentos que culminaram no 2 de Julho de 1823 também mobilizaram homens, recursos e propriedades do interior da Bahia, conectando o sertão às disputas políticas e militares que então transformavam o Brasil.
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| Fazenda Caritá (Jeremoabo) - Aspecto atual. |
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
CARVALHO JÚNIOR, Álvaro Pinto
Dantas de: O barão de Jeremoabo e a política do seu tempo, a trajetória de um
líder conservador na Bahia. Salvador, secretaria da cultura e turismo, 2006.
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