O sepultamento do Monsenhor Elias e a retomada de um antigo costume
Hoje,
de passagem por Cícero Dantas, fiz questão de visitar a centenária Igreja de
Nossa Senhora do Bom Conselho para testemunhar, com os meus próprios olhos, a
história sendo escrita. Trata-se da retomada de um antigo costume: o de
sepultar pessoas no interior das igrejas, prática que, é importante destacar,
havia sido abandonada há mais de 93 anos.
Até
hoje, existiam seis túmulos conhecidos nas dependências da igreja de Cícero
Dantas. O sétimo será destinado ao quase centenário Monsenhor José Elias
Ferreira, em reconhecimento à sua trajetória religiosa e ao legado deixado à
comunidade.
Conhecido
carinhosamente como Padre Elias, Monsenhor José Elias Ferreira nasceu em 17 de
fevereiro de 1927, na cidade baiana de Sátiro Dias. Chegou a Cícero Dantas em
1964, onde exerceu o sacerdócio por décadas, tornando-se uma das figuras mais
respeitadas da história religiosa do município.
O
costume de realizar sepultamentos no interior das igrejas popularizou-se na
Europa durante a Idade Média, constituindo uma tradição característica do
cristianismo medieval. A prática foi trazida ao Brasil pelos portugueses
durante o período colonial. Segundo a concepção religiosa da época, o chão da
igreja era considerado o espaço mais sagrado da comunidade e, por isso,
bastante disputado como local de sepultamento.
A
proximidade da sepultura em relação ao altar, simbolizava maior proximidade com
Deus. Acreditava-se que as missas celebradas naquele templo e as orações ali
dirigidas beneficiariam, de alguma forma, a alma do falecido.
Por
essa razão, o privilégio era normalmente reservado a sacerdotes e bispos,
fundadores e grandes benfeitores da igreja, autoridades civis e militares, além
de membros de famílias tradicionais.
Em
muitas igrejas antigas havia dezenas e, por vezes, centenas de sepulturas sob o
piso. Durante as celebrações religiosas, os fiéis participavam das missas
literalmente sobre os túmulos de seus antepassados, numa convivência entre a
memória dos mortos e a vida cotidiana da comunidade.
A
prática começou a cair em desuso ao longo do século XIX, principalmente após as
grandes epidemias de febre amarela e, no sertão, de cólera, que vitimaram
milhares de pessoas. Naquele período, predominava a chamada teoria dos miasmas,
segundo a qual os gases provenientes da decomposição dos corpos seriam
responsáveis pela propagação das doenças. Essa compreensão levou à
transferência gradual dos sepultamentos para cemitérios construídos fora das
igrejas.
Com
a secularização dos cemitérios após a Proclamação da República, consolidada
pelo Decreto nº 789, de 1890, esses espaços deixaram de ser administrados pela
Igreja e passaram à responsabilidade dos municípios. A partir de então,
tornou-se definitiva a prática de sepultar os mortos em cemitérios públicos ou
privados.
Na
Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho, como já mencionado, existiam seis
túmulos. A última pessoa sepultada em seu interior foi o Padre Vicente Martins,
pároco de Cícero Dantas entre 1883 e 1933. Padre Vicente faleceu em 4 de junho
de 1933, e sua lápide permanece junto ao altar, ao lado das de Cônego Caetano
Dias e de Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo.
Outras
sepulturas ainda podem ser observadas em áreas laterais da igreja, pertencentes
a membros de antigas e influentes famílias da região, como a família Vieira. O
Monsenhor Elias descansará eternamente em um espaço lateral, à esquerda do
altar.
Mais
do que uma homenagem a um sacerdote que dedicou praticamente toda a sua vida ao
serviço religioso, esse sepultamento representa a retomada excepcional de uma
tradição que marcou a história do cristianismo durante séculos e que
desapareceu da realidade brasileira há muito tempo. Para Cícero Dantas, o
momento ultrapassa o significado religioso: trata-se de um acontecimento
histórico que passará a integrar a memória da cidade. Daqui a muitas décadas,
quando alguém observar esse sétimo túmulo no interior da igreja, encontrará
nele não apenas a lembrança de um homem de fé, mas também o testemunho de uma
antiga tradição que, por uma única e especial ocasião, voltou a fazer parte da
história local.
Praça da Igreja sendo preparada para o sepultamento
Moisés Reis é
professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia
Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES,
com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre
em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e
Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do
Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História,
O Nazista, Fátima: Traços da sua História,
O Embaixador da Paz,
Maria Preta: Escravismo no
Sertão Baiano e Últimos
Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o
documentário Identidade
Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano,
com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de
poder e nas memórias coletivas da região.
Contato: 75 999742891
Parabéns pelo excelente comentário
ResponderExcluirParabéns pela informação de fatos históricos mas acima de tudo pelo excelente texto.
ResponderExcluirOutros que estão deputados dentro dessa igreja são o Coronel Manoel de castro e Avelina
ResponderExcluirObrigado
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