O 2 de julho não aconteceu somente no litoral.
Em
1821, duas facções disputavam o poder na Bahia. As tensões em torno da
independência do Brasil se intensificavam na província. De um lado, estavam os
defensores da autoridade das Cortes portuguesas e da manutenção dos laços
políticos com Portugal; de outro, o grupo que defendia maior autonomia e,
posteriormente, a independência do Brasil.
Em
janeiro de 1822, as Cortes portuguesas nomearam o brigadeiro Inácio Luís
Madeira de Melo como Comandante das Armas da província da Bahia, numa clara
tentativa de assegurar os interesses portugueses na região.
No
mês seguinte, soldados portugueses saíram às ruas de Salvador e entraram em
confronto com militares brasileiros e partidários da independência. As tensões
cresceram como nunca, levando parte da população da capital a refugiar-se nas
cidades do Recôncavo. Em 25 de junho de 1822, a cidade de Cachoeira, às margens
do rio Paraguaçu, tornou-se o principal centro da resistência baiana. Foi ali
que se reuniu grande número de pessoas dispostas a lutar pela independência do
Brasil.
Em
diversas partes da Bahia, grupos favoráveis às Cortes portuguesas entraram em
conflito com os chamados patriotas. Em Itapicuru, o capitão-mor João Dantas dos
Reis, avô do Barão de Jeremoabo, aderiu ao movimento emancipador e, em 7 de
julho de 1822, participou da aclamação de D. Pedro I como Defensor Perpétuo e
Constitucional do Brasil.
Sítio Camuciatá, Itapicuru, Bahia.
A
partir de Itapicuru, João Dantas decidiu insurgir em apoio ao movimento
pró-independência. No engenho Camuciatá, organizou um importante centro de
mobilização de homens e recursos para auxiliar as tropas patriotas. Mais tarde,
já adoentado, escreveu ao famoso general Pierre Labatut, comandante das forças
brasileiras, buscando notícias da campanha militar que culminaria na expulsão
definitiva das tropas portuguesas da Bahia.
Na
província de Sergipe, onde também havia resistência ao movimento emancipador,
Labatut enfrentava dificuldades em seu avanço. Em apoio à campanha, João Dantas
reuniu cerca de dois mil homens e seguiu para a província vizinha, contribuindo
para garantir a adesão sergipana à causa da independência. Sua marcha passou
por municípios como Lagarto, Estância, Santa Luzia e São Cristóvão.
Fazenda Caritá, hoje pertencente ao município de Sítio do Quinto, Bahia.
A
sede da Fazenda Caritá, nos arredores da atual Jeremoabo — local onde anos mais
tarde nasceria o Barão de Jeremoabo — também foi utilizada como ponto de
concentração de tropas e voluntários que apoiavam o projeto de independência do
Brasil.
Além
disso, João Dantas organizou uma força de cavalaria composta por cerca de 500
homens, que marchou para Pirajá, um dos principais palcos da Guerra da
Independência na Bahia. Após meses de combates, em 2 de julho de 1823, as
tropas brasileiras entraram em Salvador, expulsando definitivamente os
portugueses e consolidando a independência da Bahia. A notícia da vitória foi
celebrada em diversas localidades do interior, inclusive nas propriedades da
família Dantas, cujos correligionários festejaram o triunfo da causa
patriótica.
A
Guerra da Independência da Bahia foi decisiva para a consolidação da
independência do Brasil. Embora D. Pedro I tenha proclamado a separação de
Portugal em 7 de setembro de 1822, a independência ainda não estava garantida,
pois importantes regiões do país permaneciam sob controle de tropas
portuguesas. A Bahia era o principal foco dessa resistência. Durante quase um
ano, brasileiros e portugueses enfrentaram-se em diversos combates até que, em
2 de julho de 1823, as forças patriotas entraram em Salvador. A participação do
sertão nesse processo demonstra que a independência não foi obra exclusiva da
Corte ou da capital baiana. Homens e recursos mobilizados em localidades como
Itapicuru, Jeremoabo e outras vilas do interior fortaleceram o exército
patriota e contribuíram para a vitória final. Assim, o 2 de Julho representa
não apenas a libertação da Bahia, mas a efetiva consolidação da independência
do Brasil, razão pela qual é considerado por muitos historiadores o verdadeiro
desfecho do processo iniciado com o Grito do Ipiranga.
COMO
POSSO TRABALHAR ESSE TEMA COM MEUS ALUNOS?
1ª
Etapa – Leitura orientada
Realize
a leitura coletiva do texto.
Durante
a leitura, peça aos alunos que destaquem:
- nomes
de pessoas;
- cidades;
- datas
importantes;
- locais
onde ocorreram os acontecimentos.
Ao
final, monte no quadro uma linha do tempo construída pelos próprios alunos.
2ª
Etapa – Mapeando a Independência
Entregue
um mapa da Bahia e de Sergipe.
Solicite
que localizem:
- Salvador;
- Cachoeira;
- Itapicuru;
- Jeremoabo;
- Pirajá;
- Lagarto;
- Estância;
- Santa
Luzia;
- São
Cristóvão.
Depois,
peça que tracem o possível caminho percorrido pelas tropas de João Dantas.
Objetivo:
Mostrar
que a Independência também passou pelo sertão.
3ª
Etapa – Minha cidade participou? (Lembre que nesse período, toda essa área de
Fátima e região pertencia a Jeremoabo).
Promova
uma roda de conversa.
Questões
norteadoras:
- Você
imaginava que pessoas da nossa região participaram da Independência?
- Por
que quase nunca aprendemos isso nos livros didáticos?
- O que
muda quando descobrimos que moradores daqui participaram da construção do
Brasil?
- Você
considera João Dantas um personagem importante da história nacional?
Justifique.
4ª
Etapa – Quem somos nessa história?
Divida
a turma em grupos.
Cada
grupo deverá representar um personagem:
- João
Dantas dos Reis;
- um
soldado patriota;
- um
morador de Itapicuru;
- um
morador de Jeremoabo;
- uma
família refugiada de Salvador;
- General
Labatut.
Cada
grupo deverá responder:
- Quem
sou?
- Onde
vivo?
- Qual
meu papel na Independência?
- O que
espero do futuro do Brasil?
Ao
final, cada grupo apresenta sua personagem.
5ª
Etapa – Carta ao futuro
Imagine
que você mora em Jeremoabo em julho de 1823.
Escreva
uma carta para um parente contando:
- como
foi a notícia da vitória dos patriotas;
- por
que as pessoas comemoravam;
- qual a
participação de João Dantas;
- o que
você espera do Brasil independente.
6ª
Etapa – História Local
Os
alunos deverão entrevistar:
- pais;
- avós;
- bisavós;
- pessoas
mais velhas da comunidade.
Perguntas
sugeridas:
- Você
já ouviu falar em João Dantas?
- Sabia
que o sertão participou da Independência?
- O que
conhece sobre a história de Itapicuru ou Jeremoabo?
- Como
aprendeu essa história?
Depois,
comparar as respostas com o texto estudado.
7ª
Etapa – Produção final
Painel
Título:
"O
Sertão também fez a Independência do Brasil"
Cada
grupo ficará responsável por um tema:
- João
Dantas;
- Itapicuru;
- Fazenda
Camuciatá;
- Fazenda
Caritá;
- General
Labatut;
- Pirajá;
- 2 de
Julho;
- Salvador.
No
centro do mural poderá aparecer a frase:
"A
Independência também passou por aqui."
Questões
avaliativas
- Por
que a Bahia continuou em guerra mesmo depois do Grito do Ipiranga?
- Qual
foi a importância de Cachoeira durante a Guerra da Independência?
- Quem
foi João Dantas dos Reis?
- De que
forma o sertão baiano contribuiu para a independência?
- Por
que o dia 2 de Julho é considerado por muitos historiadores o verdadeiro
encerramento da Independência do Brasil?
- Em sua
opinião, por que conhecer a participação de pessoas da nossa região faz
diferença para entendermos a História do Brasil?
Culminância
(sugestão)
Realizar,
no dia 2 de Julho, uma pequena cerimônia cívica intitulada:
"O
Sertão também fez a Independência"
Nela,
os alunos poderão apresentar dramatizações, ler trechos das cartas produzidas,
expor o mapa com a marcha de João Dantas e explicar aos demais estudantes por
que a Independência não aconteceu apenas às margens do riacho do Ipiranga, mas
também nas estradas de terra, fazendas e vilas do sertão baiano.
Essa
culminância reforça a identidade local e permite que os estudantes se
reconheçam como herdeiros de um processo histórico nacional, percebendo que sua
região não esteve à margem da história, mas participou ativamente da construção
do Brasil independente.
Moisés Reis é
professor há 24 anos no município de Fátima (BA) e Membro da ABLAC (Academia
Brasileira de Letras e Arte do Cangaço). Licenciado em História pela UNIAGES,
com especialização em História e Cultura Afro-Brasileira pela UNIASSELVI, é Mestre
em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e
Correspondente Literário da Revista Foro Literário, Sertão da Ressaca do
Semiárido Nordeste II e do Litoral Norte. Autor de diversas obras, entre elas Manual Didático do Professor de História,
O Nazista, Fátima: Traços da sua História,
O Embaixador da Paz,
Maria Preta: Escravismo no
Sertão Baiano e Últimos
Cangaceiros: Justiça, Prisão e Liberdade. Também produziu a HQ Histórias do Cangaço e o
documentário Identidade
Fatimense. Sua pesquisa concentra-se na história do sertão baiano,
com ênfase na sociedade do couro, nos processos de ocupação, nas relações de
poder e nas memórias coletivas da região.
Contato: 75 999742891
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