O foco desse blog é a pesquisa da história do Sertão baiano.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Assassinato na Praça Ângelo Lagoa.

 


Era 6 de março de 1970, Fátima ainda era conhecida como “Vila de Fátima” e pertencia ao município de Cícero Dantas. Naquele dia, um marido possessivo entrou em sua casa, na rua “Rua Velha” como chamavam os moradores, sacou sua arma a atirou contra a esposa que costurava em uma velha máquina.

Mortalmente ferida, Adelina Santos Souza, tomba sobre o móvel inerte. O marido assassino, Ananias Santana de Souza, era soldado, servia sob as ordens de Liberino Vicente, ex-volante e delegado do distrito na época.

O crime chocou a pequena localidade, o delegado deu voz de prisão a um companheiro de farda que, mesmo diante do ato brutal que acabara de cometer, não fugiu e não esboçou qualquer reação violenta após o crime. Foi conduzido para uma cela improvisada onde hoje é o Mercadinho JR e aguardou até ser conduzido para a cadeia de Cícero Dantas.

Lá, aguardou até ser submetido a júri popular, que aconteceu no 18 de julho de 1974, alguns fatimenses chegaram a ir assistir ao júri. Condenado por unanimidade a 14 anos de prisão, foi enviado à Salvador, mais precisamente para a penitenciária Lemos de Brito, aonde chegou no dia 23 de setembro de 1974, quatro anos após o crime. O juiz que condenou o réu foi Walter Nogueira Brandão.

Natural do Saco, próximo a Paripiranga, o soldado Ananias Santana Souza contava com 34 anos quando cometeu o crime. Era filho de Francisco José de Souza e Maria Luduvice de Santana, mas vivia em Vila de Fátima, provavelmente em decorrência do trabalho.

Ela era costureira e consta que ele sempre fora um homem muito ciumento e teria sido essa a motivação do crime.

Durante o cumprimento da pena, o advogado alegou que o julgamento teria tido diversos problemas, entre eles, a desconsideração de o crime ter sido cometido em um ato repentino e impensado. Os argumentos da defesa convenceram a juíza Arcy Ferreira Dias que, no dia 21 de novembro de 1975, resolve anular o julgamento.

O réu foi reconduzido à Cícero Dantas, pois, no dia 27 de setembro de 1976, a mesma juíza solicita do diretor da penitenciária uma escolta para a viagem de Ananias.

Novo julgamento é marcado, mas dessa vez o réu é condenado a 16 anos, aumentando ainda mais a sua pena e revelando o quanto esse fato marcou a sociedade local. Seu retorno à penitenciária foi no dia 09 de setembro de 1977.

Sendo considerado um detento de bom comportamento, Ananias recebe o benefício da liberdade condicional em 01 de agosto de 1978 e passou a viver em Alagoinhas, onde atuou como corneteiro no batalhão de polícia local. Sabe-se que morreu naquela cidade em data ignorada.

 

Esse texto teve a valiosa ajuda de Eduardo Pires.

 

Fonte: Arquivo Público da Bahia, seção judiciária, processo-crime. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Capitão Felipe Castro, o humanista.

 

Enquanto José Osório de Farias, o Zé Rufino, era um autêntico caçador, um guerreiro das caatingas acostumado a combater violência com violência, o capitão Felipe Borges de Castro, se notabilizou pelo seu viés humanitário.

Estudioso do tema cangaço e do sertão enquanto palco principal do fenômeno, o Capitão Felipe, como era conhecido, chegou a propor abordagens de não-violência como ferramenta de combate ao cangaço.

Em relatório enviado ao comando, chegou a afirmar:

 

[...] dos estudos feitos por esse comando, no distrito de Bebedouro, município de Geremoabo, quando de sua viagem daquela zona, resulta falar com segurança acerca do abandono que se encontrava, aquela terra, a infância cujo vida estar condicionada aos horrores do Cangaço criminoso. Não há escolas, nem oficinas, nem arados. Ali, só o bacamarte, conduzido por mãos assassinas, doutrinado exemplifica. IV a escola, para o cujo funcionamento despende o governo certa importância, vive fechada. V – o passatempo favorito das crianças naquela zona, é imitar os cangaceiros nas vestes, nas artes. Merece lembrado um fato há bem pouco tempo ocorrido, em Geremoabo, cujo desfecho fatal, tivemos de lamentar e até agora consterna os corações daquela gente; brincavam Raimundo e Miguel, quando este fingindo-se bandido empunho uma arma encontrada sobre a mesa de jantar, da sua casa de sua residência, e dispara-a, inocentemente, contra o seu companheiro. Eis senão quando, o infeliz moço, estarrecido pela brutal surpresa, ouve ao deflagrar inesperado da arma, o aterrador estampido e, em seguida, vê, diante de si, tombar sem vida, ao solo, o seu amigo e vítima. Sequência senão deste, mas de outros fatos criminosos se tem verificado em Bebedouro, como produto natural do meio. VI – finamente, senhor comandante, para que se tenha, de passagem, uma leve impressão do que seja Bebedouro, atualmente, basta, sabe-lo fornecedor de vinte e dois bandidos cujos nomes vão na relação anexa. VII – saúde e fraternidade. (Ass.) Capitão Felipe Borges de Castro – comandante. (P. 276, 1940).

          Esse oficial, chegou a sugerir aos superiores que criassem instituições de correção, onde os sertanejos flagrados em algum envolvimento com cangaceiros, pudessem receber apoio do estado, formação profissional e ser redirecionados para o bom convívio em sociedade, mas suas ideias foram taxadas de utópicas.

          O Capitão Felipe Castro, teve importante papel nas entregas do bando de Labareda em 1940, quando, ao lado do Monsenhor José de Magalhães e Souza, conseguiu negociar com o arisco Ângelo Roque e seu bando, ação que resultou na rendição desses. Chegou a tentar, ainda na companhia do mesmo religioso, negociar a rendição de Corisco, mas sem êxito.

          Relutante em se entregar, Corisco fez pouco caso dos métodos pacíficos do Capitão Felipe e conheceria a brutalidade dos métodos de Zé Rufino meses depois.

           

         

 

 

 

Você tem hábitos herdados dos Judeus e nem desconfia.


 Quem nunca ouviu dos pais ou avós que não se pode contar estrelas? Contar os astros no céu, de acordo com a tradição popular, faz nascer verrugas; e muitas verrugas ao longo da história, foram classificadas como uma consequência da teimosia das crianças e realizar tal ação.

          Mas de onde vem essa ideia que, nos tempos atuais, até soa como absurdo, ingenuidade?

          E se eu te disser que essa e tantas outras tradições que permearam por séculos e por diferentes gerações, têm origem no judaísmo? Isso mesmo, de acordo com a tradição judaica, o dia começa com o aparecimento da primeira estrela no céu do dia anterior e isso fazia com que os judeus ficassem atentos ao aparecimento do astro no céu noturno. Como a prática do judaísmo foi proibida durante muitos anos em territórios portugueses, temia-se que as crianças apontassem para o céu, para a primeira estrela, e revelasse seu interesse e sua tradição, denunciando assim toda a família que, porventura, praticasse o judaísmo ocultamente. Em virtude disso, criou-se o costume de contar às crianças que, se apontassem estrelas no céu, nasceriam verrugas em sua pele.

Práticas tão comuns ao sertanejo como acreditar que não se deve varrer a casa jogando o lixo pela porta da rua, têm origem no judaísmo. De acordo com a tradição, é pela porta que passam os mortos velados na residência e em sinal de respeito, não se passa com o lixo por ali.

Mas como essas tradições chegaram aos nossos avós e bisavós?

Essa é uma história interessante, que vamos contar a partir de agora:

Fugindo de perseguições religiosas na Europa, muitos judeus se erradicaram no Brasil, boa parte deles, inclusive, vieram ao país como uma forma de punição a partir de 1531, a razão disso está no fato de Portugal, um país católico, proibir a prática do judaísmo em seus domínios, chegando a forçar a conversão destes ao cristianismo, o que deu origem aos “cristãos-novos”.

          Durante o domínio holandês, contudo, no Nordeste do país (1630-1654) os Judeus puderam exercer livremente as suas práticas religiosas, sobretudo no litoral. Isso porque, os holandeses tinham uma prática mais amigável com relação aos israelitas por afinidade religiosa.

          Quando os holandeses foram expulsos do Brasil pelos portugueses, restou aos judeus fugir para Minas Gerais, Voltar para a Europa, ou adentrar os sertões ermos a fim de praticar com mais liberdade as suas tradições religiosas e fugir da perseguição da inquisição.

          No sertão, essas famílias ocuparam diversos setores da sociedade, tornaram-se mascates e viajantes pelas estradas sertanejas, tornaram-se criadores de gado, ovelhas e cabras e se misturaram às populações locais. Sobrenomes como Bezerra, Pereira e Cavalcante, são de origem judia.

          Aos poucos, essas unidades familiares foram se mesclando ao sertanejo caboclo, mas as tradições e características físicas e sociais foram sendo herdadas ao longo das gerações.

          Assim, traços físicos como:

·       Moreno-claro;

·       Cabelos negros;

·       Baixa estatura;

·       Testa curta;

·       Cara alongada;

·       Nariz pontiagudo

 

São características dos judeus que encontramos em muitos sertanejos ainda nos dias atuais.

Importante salientar que, nem todos os que carregam essas características físicas são descendentes de judeus, essa determinação precisa de uma investigação mais abrangente.

Além dos traços físicos, existem também características típicas judaicas como:

·       Grande habilidade para o comércio;

·       Indivíduo desconfiado;

·       Fama de “pão duro”;

 

Achou pouco? ainda tem mais. Muitos dos ditados que pronunciamos hoje em dia de forma automática e natural, tem origens igualmente nas tradições judaicas. vejamos:

 

·       Está pensando na morte da bezerra – Se refere a quem está desatento, com pensamentos distantes;

·       Passar a mão sobre a cabeça – Designa o ato de amenizar, perdoar um erro – Esse ditado origina-se no hábito judaico de abençoar, passando a mão sobre a cabeça descendo pela face;

·       Jogar para o santo – Se refere ao hábito de, antes de ingerir uma bebida, jogar um gole fora – Origina-se da tradição milenar da páscoa dos judeus que costumam reservar um copo de vinho para o profeta Elias, representando o Messias que virá;

·       Vestir a carapuça – Designa aquele que se identificou como culpado – Origina-se na idade média, quando os judeus eram obrigados a usar chapéus pontudos para se identificar;

·       Pedir a bênção – A prática de pedir a benção aos pais ao sair e chegar, remonta a antiga prática sacerdotal, quando os pais abençoam os filhos.

Obviamente, o sertanejo, assim como a maior parte dos brasileiros, é fruto da miscigenação comum ao nosso povo e essas (digamos) heranças aqui ressaltadas, são parte dessa formação social, que se une a outras tradições tão importantes como a indígena, africana, europeia e árabe, todas essas culturas formaram o tempero que produziu o sertanejo típico.

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Povoado Monte Negro – Fátima/Bahia e a Lei de Terras de 1850.


 

Após a implantação da Lei de terras, que obrigava os posseiros a registrar e pagar pelos registros de terras no Brasil, uma verdadeira romaria se verifica em toda essa região.

          A razão para isso é que, antes da dita lei, todos os ocupantes de terras no Brasil não eram necessariamente donos, tinham apenas o direito concedido pelo império de nela trabalhar.

          Com a vigência da lei de terras (18 de setembro de 1850), todos os posseiros tiveram que buscar a regularização das propriedades, o que levou a uma procura muito grande pelos padres da região, uma vez que os registros só poderiam ser feitos pela igreja, maior representante do estado nos sertões.

          O vigário de Cícero Dantas, Caetano Dias da Silva (Hoje sepultado no altar da igreja de Nosso Senhora do Bom Conselho) foi o responsável pelo registro de um sem-número de fazendas e fazendolas em toda a região.

          Na matriz do Bom Conselho ou de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga), o vigário era requisitado para os trâmites de registros, que consistiam quase que exclusivamente na boa fé depositada nos registrantes, isso porque, para registrar uma terra na época, era necessário simplesmente procurar o vigário mais próximo, relatar a compra de uma propriedade, o valor pago e a quem pagou e descrever a área, delimitando os marcos naturais ou artificiais que marcavam as fronteiras da propriedade em questão.

          Assim, no dia 21 de abril de 1859, o vigário Caetano Dias recebe em Cícero Dantas João José Leite, empregado de João Dantas dos Reis, pai do Barão de Jeremoabo, para registrar as fazendas Lages e Tabuleiro, registro que custou aos Dantas dois mil e quinhentos réis.

          Na descrição dos limites das fazendas, um marco natural chama a atenção para quem é de Fátima e região, isso porquê, a fazenda Tabuleiro iniciava, segundo o registrante, na “Serra do Monte Negro” e descia na direção dos tabuleiros das Queimadas.

          Trocando em miúdos, a dita Serra do Montenegro, é a elevação onde hoje se encontra o povoado Monte Negro e a fazenda iniciava ali e rumava na direção do município vizinho de Adustina. Era uma propriedade de 3 léguas de extensão, isto é, cerca de 18 km.

          Além da enormidade da extensão das fazendas, chama a atenção o fato de o povoado Monte Negro ser assim chamado em razão de ter herdado o nome do acidente geográfico no qual está fincado, nome esse, dado ainda pelo colonizador a fim de se situar na vasta paisagem sertaneja. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Documento de compra da fazenda Mundo Novo.

 

No dia 16 de julho de 1857, o produtor José de Souza Quirino procurava a igreja para registrar a compra da propriedade Mundo Novo. Essa área de terra ainda hoje conserva a mesma denominação e nos tempos atuais, apenas a região que vai do fundo da praça Ângelo Lagoa até as imediações do povoado Quirinos, carrega esse nome.

É provável que tenha sido por essa data que o sobrenome “Quirino”, apareceu na região. A propriedade foi comprada ao Capitão Antônio Ferreira e tinha como limites:

 

Que principia na cabeceira da baixa dos tanquinhos, onde chega às terras de Aniceto Rodrigues, rumo direito para a Nascente para o antigo curral falso do mandacaru e daí voltará por cima deste dito alto a Serra do Mocó onde tem um trabalho abaixo da malhada do dito marco por esta serra acima a cabeceira do saco dos Tamburis rumo direito a beira da baixa da Gitirana, daí voltará para onde principia esta demarcação. Sua extensão é de meia légua, pouco mais ou menos.

 

No trecho acima, temos a menção mais antiga que conheço ao termo “Serra do Mocó”. Essa área consiste no acidente geográfico onde estão localizadas as torres de telefonia da cidade. É possível notar também no fragmento acima a menção ao termo “Gitirana”. Essa denominação, que se refere a área a meio caminho do povoado Capim Duro (partindo da sede do município) já era conhecida, mas havia dúvidas se era referente à mesma área citada, o que fica assim confirmado que a Gitirana como a conhecemos já tem esse nome desde, pelo menos, 1857 (167 anos atrás).

 Outro detalhe interessante é que a assinatura do documento foi feita em Paripiranga, mesmo fazendo parte de Bom Conselho (Cícero Dantas). Isso acontecia porque, nesta época, os documentos de registros de terras eram feitas pelos padres e na impossibilidade de ir à Bom Conselho por qualquer razão, fazia-se a escritura em Paripiranga, que na época se chamava patrocínio do Coité.

O vigário que assina, Caetano Dias, foi pároco de Cícero Dantas entre os anos de 1836 e 1883. Ele está sepultado no altar da igreja da cidade, ao lado do seu antigo desafeto político, o Barão de Jeremoabo.

 

Abaixo, segue a transcrição na íntegra do documento:

 

Registro n° 411

O abaixo assinado em cumprimento da lei vem registrar um pedaço de terra que possui no lugar denominado Mundo Novo comprado ao Capitão Antônio Ferreira nesta freguesia de Nossa Senhora do Bom Conselho, cujas demarcações são as seguintes: Mundo Novo, 16 de julho de 1857.

Que principia na cabeceira da baixa dos tanquinhos, onde chega às terras de Aniceto Rodrigues, rumo direito para a Nascente para o antigo curral falso do mandacaru e daí voltará por cima deste dito alto a Serra do Mocó onde tem um trabalho abaixo da malhada do dito marco por esta serra acima a cabeceira do saco dos Tamburis rumo direito a beira da baixa da Gitirana, daí voltará para onde principia esta demarcação. Sua extensão é de meia légua, pouco mais ou menos.

 

José de Souza Quirino

Antônio José das Virgens

 

Foi-me entregue pelo possuidor acima o presente exemplar que depois de conferir-lhe e acha-lo igual e em ordem, registrei com número quatrocentos e onze, recebendo do possuidor acima a quantia de mil e oitocentos e quarenta réis.

 

Patrocínio do Coité, 17 de julho de 1857. O vigário Caetano Dias da Silva 

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Dadá deixa a “prisão”



 

Fonte: O cruzeiro.

Como é de conhecimento daqueles que se interessam pela temática do cangaço, Sergia Ribeiro da Silva, a Dadá foi encaminhada para a capital baiana após a morte do seu companheiro Corisco. Em Salvador, a prisioneira deu entrada no Hospital Santa Isabel, onde permaneceria durante cerca de dois anos como paciente/prisioneira.

Amputada da perna direita em decorrência dos ferimentos causados pela volante de Zé Rufino, Dadá passou por um período difícil de desamparo, até implorar ao famoso rábula Cosme de Farias que intercedesse em seu favor.

Ao longo de cerca de 7 meses, Cosme de Farias e o advogado Batista Augusto de Barros, se empenharam em sua defesa, com a finalidade que a ela fosse concedida a liberdade condicional.

Várias estratégias foram utilizadas pela defesa para essa finalidade, entre as quais, encontrar alguém disposto a oferecer abrigo à ex-cangaceira a fim de alegar residência física em Salvador.

Finalmente, a 26 de junho de 1942, Dadá deixa o Hospital Santa Isabel para jamais retornar à unidade como prisioneira.

 

O processo-crime de Dadá, de Volta Seca e dos cangaceiros do grupo de Ângelo Roque, são analisados profundamente no livro ÚLTIMOS CANGACEIROS, JUSTIÇA, PRISÃO E LIBERDADE, que será lançado no início de 2025. Entenda como esses ex-cangaceiros prestaram contas à justiça baiana.

 

Fonte: APEB.

Moisés Reis, Professor há 22 anos do Município de Fátima, Licenciado em História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira pela UNIASSELVI, Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das obras: Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua Histórias, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no sertão baiano, e da HQ Histórias do Cangaço e do documentário Identidade Fatimense.




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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

As primeiras famílias da região.


 Durante boa parte da história do Brasil colônia, as pessoas não eram donas das terras, isto porque, antes de 1850, todas as terras pertenciam a união e o Estado Imperial concedia o direito de explorar as terras para alguns indivíduos que deveriam pagar pelo direito de plantar ou criar animais.

A partir de 1850 o Brasil institui e Lei de Terras, que possibilitou àqueles que tinham condições financeiras adquirir terras comprando-as do estado. Por aqui, em 1856, o Padre Caetano Dias (sepultado na igreja de Cícero Dantas) inicia os registros das propriedades da região, dando a posse aos seus novos donos.

É aí que temos os registros das primeiras linhagens familiares que chegaram à atual região semiárida entre Bahia e Sergipe. Nos registros eclesiásticos de terras, constam os nomes das primeiras fazendas, cujos compradores traziam cognomes que ainda hoje habitam a mesma área. Nomes como Dantas, Reis, Nascimento, Pereira, Cruz, Abreu, Sant’ Ana (que com o tempo passaria a ser grafado unicamente como “Santana”), Carvalho, Chagas, Costa, Silva, Andrade, Jesus, Freitas, Cruz, Souza, Santos, Moreira, Silveira, Borges, Rodrigues, Barros, Lima, Espírito Santo, Melo, Correia, Oliveira, Félix, Gonçalves, Martins, Ribeiro, Damascena, Nolasco, Vieira, Andrade, Menezes, Bispo, Araújo e tantos outros são exemplos dos desbravadores desta parte do Sertão e você e eu somos os descendentes desses desbravadores.


Moisés Reis, Professor há 22 anos do Município de Fátima, Licenciado em História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira pela UNIASSELVI, Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das obras: Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua Histórias, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no sertão baiano, e da HQ Histórias do Cangaço e do documentário Identidade Fatimense. 



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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Davi


 Por volta do ano de 1870, chega à Vila do Bom Conselho (Atual cidade de Cícero Dantas), David José dos Santos, um homem de estatura baixa e corpulento, oriundo da cidade de Água Branca, nas alagoas. Davi, como ficou conhecido na região, chegou a atuar como jagunço de Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, tinha fama de matador e se instalou na região chamada Lagoa de dentro. Em Bom Conselho praticou diversos homicídios, era um homem frio que agia sozinho, não há registros de grandes assaltos de sua autoria, era o típico valentão que as vezes matava por pura diversão. Chegou a ser preso por várias vezes e fugiu outras tantas, tendo registrado, inclusive, fugas da penitenciária da Bahia, hoje Hospital de Custódia, na capital.

          Por ser aliado do Barão, David era inimigo declarado de um desafeto de Cícero Dantas Martins. O vigário da cidade, o Cônego Caetano Dias (Hoje sepultado no altar da igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho) era adversário político de ambos. David jurou assassinar o padre e por diversas vezes tentou sem sucesso uma tocai para o religioso.

          O fim do Bandido alagoano veio pelas mãos de um aliado, por nome Inacinho, trazido à Bom Conselho pelo próprio David. Inacinho recebeu vultosa quantia para matar o amigo e traiçoeiramente o trucidou a golpes de machado enquanto dormia em uma rede e o sepultou próximo a uma gruta que ainda hoje é conhecida pelos habitantes da Lagoa de Dentro, o lugar atualmente é conhecido com Lagoa do David, uma lembrança do passado violento daquela área. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

A Família Bizá.

Fonte: Fátima de Outrora.

De acordo com o pesquisador Juan Kléber, os Bizá (como eram conhecidos) são antigos moradores de Fátima. Pelo que consegui rastrear, essa família já vive sobre este solo desde o século XIX, tendo como ancestral mais antigo Lourenço Bizá. A casa da família ficava onde hoje é a saída da cidade no sentido Paripiranga, era parada de viajantes vindos de Sergipe.

A história dos Bizá é quase que completamente baseada na oralidade, tendo pouca documentação a respeito, uma delas é a rara foto acima publicada originalmente na página Fátima de Outrora. Para além disso, pude garimpar alguns registros de indivíduos que assinavam o cognome “Bizá” em documentos oficiais.

É o caso de José Febrônio dos Reis Bizá, que aparece como testemunha de dois casamentos, um ocorrido em 1906 e outro em 1910, esses registros são parte do acervo histórico da Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho em Cícero Dantas. Situação semelhante ocorre com Raimundo Ribeiro de Castro Bizá, que se casou com Josefa Germana de Santana em 14 de fevereiro de 1906 e teve um parente como testemunha, José Ribeiro de Castro Bizá.

Além de Fátima e Cícero Dantas, há vestígios desse sobrenome em indivíduos da região da Maranduba, na cidade vizinha de Heliópolis e em Simão Dias-SE. O cognome tem origem desconhecida, mas é provável que seja uma variação do sobrenome “Bizet” de origem Francesa e teve sua escrita ressignificada para o sobrenome Bizá.


Moisés Reis, Professor há 22 anos do Município de Fátima, Licenciado em História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira pela UNIASSELVI, Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das obras: Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua Histórias, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no sertão baiano, e da HQ Histórias do Cangaço e do documentário Identidade Fatimense.



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sábado, 12 de outubro de 2024

Chico de Anjo

Foto: Fátima de Outrora

        Francisco Virgílio de Souza nasceu em 1895, casou-se com Maria Francisca de Souza no dia 28 de novembro de 1923, foram testemunhas do matrimônio Francisco Vieira de Andrade e José Barbosa das Virgens. Era talvez o mais bem sucedido dos filhos de Ângelo Lagoa e Porfíria. Chico de Ânjo e Dona Maria criaram grande família. Os seus filhos (que aparecem na foto publicada por @Fátima de Outrora) são: Joaninha de Antonio Barbeiro, Nita de Zequinha de Antero, Dezi de Ferreira de Nenem, Terezinha de Alfredo Nocencio, Zefinha de Manelinho, Dedé, Enoque de Alice, Ferreirinha de Marizete e Dazinha de Pedro de Antonio Tatá. Viveu a maior parte da vida na atual Praça Ângelo Lagoa, na residência construída próxima à casa dos pais. 



Foto: Fátima de Outrora.



Texto Produzido por Moisés Reis e Juan Kléber Menezes 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Anticomunismo interiorano


 


Comunista é o pseudônimo que os conservadores e saudosistas do fascismo inventaram para designar todo sujeito que luta por justiça social.

Érico Verissimo.

 

 

Linha do tempo

 

1848- Lançamento de O Manifesto do Partido Comunista;

1917 - Revolução Russa;

1930 – Revolução que marca o fim da primeira república;

1935 – Levante comunista;

1937 – Plano Cohen;

1964- Golpe Militar;

 

 

1.     CONTEXTO HISTÓRICO GERAL.

 

          De uma forma ou de outro, o anticomunismo brasileiro vai ter início após a publicação do Manifesto do Partido Comunista em 1848. Já naquela época, falava-se de uma estranha ideologia política com ideias exóticas, muito distante da realidade de um país como o Brasil, uma país que ainda vivia sob a sombra maldita da escravidão.

          Nesse período, com efeito, o distanciamento e o exotismo dos ideais comunistas eram os parâmetros para a elite letrada brasileira, uma vez que as ideias de Marx e Engels soavam como algo quase alienígena, mas que, em certa medida, já incomodava os mandatários locais, na medida em que os faziam sentir ameaçados os seus privilégios. Aqui vale lembrar que a elite agroindustrial brasileira era composta por linhagens seculares, com privilégios consolidados.

          Mas a distância ainda era a regra, até que, em 1917 irrompe a revolução russa e pautas como reforma agrária, direitos dos trabalhadores e outros entram no imaginário popular brasileiro.

          Para uma sociedade acostumada ao sistema escravista, temas como esses eram que tabus intransponíveis. Basta lembrar a frase de Washington Luiz, presidente da república de 1926 a 1930:

 

“A questão social é um caso de polícia”.

 

          Essa fala, proferida pelo então presidente, reflete como se encaravam todas as questões sociais no Brasil, um país que ainda carecia de um código de leis trabalhistas e que encarava o trabalhador como algo meramente descartável. O fantasma dos direitos sociais significava na cabeça da elite local uma mão-de-obra mais cara, trabalhadores ascendendo socialmente e ocupando os seus espaços de privilégio.

          Chegou-se a afirmar que essa ideologia não vingaria no Brasil, pois seu operariado seria, de acordo com a concepção burguesa, “ordeiro e pacífico”. Hostilizava-se o estrangeiro por incutir essas ideias no país e o medo imperava.

          Com a crise de 1929, o capitalismo é posto em xeque, cada vez mais o liberalismo parecia utópico, a crise arrasou a economia global, desemprego, fome, miséria e outras mazelas passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas. Na Europa, passou-se a desejar governos mais fortes e com viés nacionalista, era o que os fascistas esperavam para subir ao poder.

 

2.     SERTÃO NÃO É LITORAL.

 

Na obra GUERREIROS DO SOL, Frederico Pernambucano de Melo defende que no sertão, apartado do litoral, se formou uma sociedade totalmente distinta. Distanciados pela geografia e a dificuldade de locomoção, sertanejos e habitantes da atual Zona da Mata divergiam em quase tudo no quesito comportamento.

          Enquanto os que beiravam o oceano atlântico lutavam para manter um estilo de vida europeu com hábitos refinados e vestimenta baseada no além-mar, o sertanejo precisava se adaptar à dureza do meio, vestindo-se como as condições econômicas permitiam e trajando pesadas roupas de couro, verdadeiras armaduras contra a espinhosa caatinga na qual se embrenhavam atrás do gado.

          Ainda de acordo com o mesmo estudioso, dois meios de vida e, por consequência, dois indivíduos, se desenvolveram no sertão, ambos resistentes e duros. Enquanto os agricultores resistiam fisicamente ao sol e aos desafios da seca, o vaqueiro se forma como um indivíduo ainda mais rude. Para este, a lida com o gado imprimia em si um sentimento de nomadismo, uma vez que a parca estrutura das propriedades o obrigava a mudar-se constantemente em busca de novas áreas de pastagens.

          A lida com o gado e os embates com os indígenas o fez resistente e destemido, o ambiente o fez desconfiado, a pobreza gerava violência e em um ambiente onde rusgas se resolviam na ponta da faca ou na boca do Cravinote (Bacamarte, em outras regiões), a confiança era um luxo e o apego pela arma era fundamental.

          A ausência dos mecanismos de coerção estatal como a justiça e as polícias, criou nesse povo um sentimento de injustiça e a lei era feita sob a égide das suas próprias mãos, detinham um acurado sentimento de autodefesa e um código de ética primitivo aos olhos de quem não conhecia. Cultivaram um tipo de catolicismo místico, extremamente fanatizado.

          Para SANTOS, 2024, esse ambiente deu origem ao sentimento de que matar não é crime, não somente pela noção da lei do mais forte, mas pela necessidade de autodefesa, física e, por vezes, da sua própria honra ou dos seus.

 

3.     COMO O ANTICOMUNISMO FOI PROPAGADO NO SERTÃO?

 

As ideias anticomunistas vão acessar o sertão a partir de dois caminhos ao mesmo tempo distintos e correlatos. O primeiro e mais convincente, vem a ser a igreja católica e o discurso persuasivo dos padres.

O segundo, que não perdia a oportunidade de citar as encíclicas e os sermões dos vigários, era a imprensa interiorana, representada pelos jornais locais de circulação intermunicipal. Nesse capítulo, analisaremos a ambos, iniciando pela importante e eficiente ação encabeçada pela igreja católica e seus sacerdotes.

 

Cenas dos próximos capítulos ...


Moisés Reis, Professor há 22 anos do Município de Fátima, Licenciado em História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira pela UNIASSELVI, Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das obras: Manual Didático do Professor de História, O Nazista, Fátima: Traços da sua Histórias, O Embaixador da Paz, Maria Preta: Escravismo no sertão baiano, e da HQ Histórias do Cangaço e do documentário Identidade Fatimense.



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