O primeiro integrante da família Reis a chegar à Fátima.



Essa história remonta ao princípio do século XIX, por volta de 1840, quando as terras que hoje compõem o município de Fátima passaram a ser ocupadas de forma mais efetiva, isto é, quando as primeiras famílias vieram, de fato, se estabelecer na região.
Antes de prosseguir, entretanto, é preciso esclarecer que não estou falando aqui da atual sede do município, formada a partir da residência construída por Ângelo Lagoa por volta de 1890. Neste caso, estamos tratando do território do município como um todo, incluindo a zona rural.
No caso da família Reis, a área em questão corresponde ao território localizado nas imediações do parque aquático Wet Family, região que, por volta dos anos 1850, era conhecida por diferentes nomes: Surjoa, Laje, Laje da Boa Vista e Pedrinhas.
Pedrinhas era o nome da localidade onde meus ancestrais se estabeleceram por volta de 1840, quando chegou à região Ângelo dos Reis Nascimento, trisavô do meu avô Zé Quinzinho. Ângelo era casado com Joaquina Maria do Espírito Santo, falecida em 1845, cujo inventário nos forneceu grande parte das informações presentes neste texto.
O casal possuía terras nas matas de Simão Dias e uma pequena propriedade em Fátima. Ao que tudo indica, após a morte de Joaquina Maria, Ângelo dos Reis mudou-se para essa região, onde adquiriu novas terras. De acordo com os registros eclesiásticos de terras, ele vendeu um terreno na fazenda Paus Pretos em 1857 e, no mesmo ano, comprou a propriedade das Pedrinhas, que permaneceu na família até a morte do meu avô Zé Quinzinho.
Essa propriedade, localizada nos fundos do referido parque aquático, situava-se às margens de um ramal da Estrada Real que passava por ali. Não se trata da mesma estrada asfaltada que conhecemos hoje — ela sequer existia naquele período. O caminho tradicional seguia por aquela região, passando pelas Oropas, Mandacaru e Ilha, em direção a Bom Conselho.
Foi nessas terras que Ângelo dos Reis fundou um engenho de rapadura, cultivando cana-de-açúcar durante o período do inverno, mais ou menos como ainda se faz atualmente com o milho. O engenho prosperou a ponto de passar para seu genro André Paiva de Carvalho, casado com uma de suas filhas, Maria Angélica dos Reis. 
Esse engenho é peça fundamental para compreender a dinâmica de permanência da família na região, pois foi a partir dele que cinco gerações da família Reis conseguiram viver nas Pedrinhas. Da chegada de Ângelo dos Reis à localidade, em 1840, até o último membro da família deixar a região para viver na zona urbana — neste caso, meu avô Zé Quinzinho — passaram-se mais de cem anos.
Foi a riqueza gerada pelo engenho que possibilitou a compra de terras e a permanência das gerações futuras na propriedade. Após a morte de Ângelo, o engenho passou, como dito, para seu genro e sua filha, André Paiva e Maria Angélica. O casal teve ao menos três filhos: Geraldo Bispo dos Reis, Antônio André dos Reis — pai de Seu Tota, Jove da Laje, João Gualberto, entre outros — e Manoel Felipe dos Reis. Eis, portanto, a ligação entre a família de Zé Quinzinho e a dos André.
Os netos de Ângelo e Joaquina — Geraldo dos Reis, Antônio André e Manoel Felipe — testemunharam o fim do ciclo açucareiro no sertão. Fatores como o fim da escravidão e a obsolescência dos engenhos locais, contribuíram para esse declínio, e o engenho deixou de existir por volta de 1910.
Mesmo após esse período, muitos indivíduos com o sobrenome Reis continuaram vivendo na região. As terras de Antônio André, por exemplo, foram vendidas apenas por volta de 1950.
No caso do meu tronco familiar, Geraldo permaneceu na localidade, sendo lembrado até hoje como “Geraldo das Pedrinhas”. Ele foi pai do meu bisavô Joaquim Cassemiro dos Reis, que se casou com sua prima, Joana Percina dos Reis. O casal teve ao menos onze filhos, entre eles meu avô José Alves Reis, conhecido como Zé Quinzinho.
Esse apelido, aliás, possui um curioso caráter histórico. Meu bisavô Joaquim era conhecido como “Joaquinzinho”, enquanto meu avô era chamado de “Zé de Joaquinzinho”, expressão que, com o tempo, acabou sendo reduzida para “Zé Quinzinho”.
Meu avô foi o último integrante da minha linhagem a viver nas Pedrinhas. Por volta da década de 1960, construiu uma casa na Praça Ângelo Lagoa e para lá se mudou com a família. Até onde sei, uma das netas da minha bisavó Joana — Maria José de Agostinho — é a única descendente da família que ainda possui um pedaço de terra na região das Pedrinhas.

Comentários

  1. A história nos leva a repensar como era a nossa região, o legado dos que já foram fica cravada nos escritos.

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  2. Um belo trabalho de pesquisa! Um texto belíssimo !

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