A trágica morte de Edson e o antigo costume da Lanterna dos Afogados

 

Durante as buscas pelo corpo, ainda no sábado pela manhã, estive no açude de Adustina por um curto espaço de tempo — tempo suficiente para presenciar o reavivamento de um antigo costume. A cena simbólica que muito me marcou foi a da madrinha de Edson colocando uma vela acesa dentro de uma cabaça nas águas do açude que sepultava, momentaneamente, o jovem cantor fatimense.

Em nossa região, esse costume remonta a tempos imemoriais: uma espécie de simpatia que utiliza a fé para aplacar a angústia de uma família que sofre sem um corpo para sepultar. “Simpatia da vela” ou “Lanterna dos Afogados” são os nomes dados a essa ação tradicional.

Esse costume não é originário do sertão. É mais provável que tenha surgido no Norte do país, entre povos ribeirinhos, e que, por razões difíceis de precisar, tenha chegado até nossos ancestrais.

A crença é a de que a vela acesa siga até o local onde o corpo está sob as águas e indique às equipes de resgate o ponto onde mergulhar para encontrar a pessoa afogada. A vela deve ser colocada sobre um objeto flutuante — um pedaço de madeira, uma folha grande ou uma cabaça, como foi feito neste fim de semana na vizinha cidade de Adustina.

Como toda tradição popular, a Lanterna dos Afogados possui muitas variações. Uma delas, seguida por aqui, estabelece que deve ser a madrinha da pessoa afogada quem acenda a vela e a coloque nas águas — uma cena forte, carregada de emoção, dor e fé.

Há algo de profundamente simbólico no fato de Edson ser cantor. A imagem da vela flutuando sobre as águas dialoga de forma quase inevitável com a canção Lanterna dos Afogados, da banda Os Paralamas do Sucesso. Assim como na música, a lanterna não é apenas um instrumento de busca, mas um último gesto de luz diante do silêncio imposto pela morte.

No caso de Edson, essa luz ganha um sentido ainda mais profundo: sua voz, agora calada pelas águas, permanece acesa na memória de quem o ouviu cantar. A lanterna, então, deixa de ser apenas um recurso simbólico para localizar um corpo e passa a representar a tentativa humana de manter viva aquilo que não se quer perder — a presença, a lembrança, o afeto e a voz.

Talvez seja por isso que esse costume atravesse gerações. Porque, no fundo, ele não busca apenas corpos submersos, mas tenta impedir que a morte apague completamente a luz de quem partiu.

 

Comentários

  1. Meu Deus é muito forte e verdadeiro essa simpatia. Parabéns pela publicação

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  2. Eu lembro que quando o finado bacana morreu na nação fizeram isso e deu certo e ao retirarem o corpo lembro duas crianças que estavam lá disseram que viram uma luzinha vermelha subindo quando corpo foi retirado

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  3. Muito profundo e verdadeiro esses ensinamentos são de muita fé.

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  4. Triste a morte desse rapaz. Muito bom o texto.

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  5. Parabéns pelo texto Moisés! Trouxe conhecimento, cultura e afeto!

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  6. Leo22nascimento@hotmail.com13 de janeiro de 2026 às 14:42

    Nunca tinha ouvido sobre essa crença e costume. Achei muito interessante, apesar do trágico acontecido.

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