Memórias da Escassez: A Luta Ancestral Contra a Seca em Fátima e região.
A história do semiárido nordestino é
profundamente marcada pelo chamado "Polígono das Secas", uma área
onde as chuvas são irregulares e os longos períodos de estiagem são cíclicos.
Embora haja um consenso científico que aponte o fenômeno El Niño como o
principal culpado por esse flagelo climático, a verdadeira história da região
não é feita de estatísticas meteorológicas, mas sim da resiliência, do
sofrimento e da luta contundente de nossos ancestrais para garantir a
sobrevivência na terra árida.
Para as gerações atuais, que felizmente
não conhecem em sua plenitude o cenário desolador do passado, as políticas
contemporâneas — como a água encanada, os carros-pipa, a açudagem, os programas
de financiamento para a agricultura familiar e a assistência social — atenuam
de forma significativa os efeitos da estiagem. Contudo, nas décadas de 1930 a
1950, a estrutura estatal era muito insuficiente. Naquela época, a escassez
transformava a água em ouro e a fome em uma constante ameaça.
A memória do povo fatimense guarda
cicatrizes profundas desses tempos de provação. Através de pesquisas
historiográficas e de história oral na região, idosos que foram testemunhas
oculares — ou descendentes diretos deles — relatam o penoso ano de 1932, a
famigerada “Seca de 32”. Sem qualquer tipo de abastecimento público, a única
água disponível ficava em aguadas escavadas pelo governo ou por particulares;
uma água barrenta que mal dava para beber e cozinhar. Naquele ano, enquanto os
rebanhos e as plantações eram dizimados, as famílias sobreviviam em uma
rigorosa economia da escassez. O feijão, armazenado hermeticamente em potes de
barro de um ano para o outro, era a principal defesa contra a morte.
Diariamente, a mãe de família assumia a tarefa de cozinhar a única panela de
feijão da casa, enquanto os demais membros saíam pela manhã para caçar ou
pescar na esperança de obter a "mistura", se a sorte assim
permitisse.
Os relatos de moradores como o Senhor
Raimundo, do Formigueiro, dão conta de que a fome — a mais brutal das pestes —
abria caminho para epidemias incomuns que ceifaram inúmeras vidas. Testemunha
física desse período é uma pequena capelinha que resiste ao tempo nas
proximidades da Laje da Boa Vista, à beira da antiga Estrada Real. Segundo o
relato de Dona Maria José, a estrutura foi erguida por um proprietário de
terras anos após o ocorrido para homenagear uma caminhante anônima. Sem água ou
alimento em seus pertences, a mulher caiu sem vida à margem da estrada, sendo
sepultada ali mesmo por tropeiros — um símbolo eterno dos retirantes que
sucumbiram ao longo do caminho.
Na década de 1950, a situação de
isolamento e miséria pouco havia mudado. No ano de 1955, embora a região
experimentasse o impulso econômico das obras da Ferrovia Salgado/Paulo Afonso,
a seca voltou a atingir a população de forma desumana. Os relatos apontam que o
povoado não possuía água potável, as lavouras e criações foram perdidas, e os
moradores foram obrigados a se alimentar de bró — um farelo rústico
obtido a partir da moagem do miolo do tronco do ouricurizeiro (licurizeiro)
para enganar o estômago.
Padre Renato Galvão: A Voz e a Ação em
Prol de Monte Alverne.
No transcorrer desse cenário de
abandono, a figura do Padre Renato Galvão ganha um protagonismo gigantesco.
Vigário e ex-prefeito de Cícero Dantas, ele era o elo essencial entre o povo
mais pobre e o poder público. Documentos preservados no livro de tombo da
igreja e cartas publicadas no acervo digital “Corpus Eletrônico de
Documentos Históricos do Sertão” (CE-DOHS) registram a sua luta incansável
para, literalmente, salvar vidas.
Enquanto o prefeito oficial de Cícero
Dantas na época era João Batista de Andrade, era o carismático vigário quem
assumia a linha de frente das articulações políticas. O Padre Renato mantinha
contato frequente com deputados e governantes para angariar recursos e obras de
infraestrutura, combatendo a "indústria da seca" promovida por
oponentes locais, aos quais chamava de “nossos adversários” — políticos que
usavam a miséria secular do povo como palanque eleitoral.
A preocupação do religioso com o pequeno
povoamento de Monte Alverne (cinco anos antes de ser alçado à Vila de
Fátima) era explícita e prioritária. Em uma carta histórica datada de 7 de
setembro de 1955, escrita a partir de Cícero Dantas e endereçada ao
influente Deputado João da Costa Pinto Dantas Júnior (o Dr. Dantas), o Padre
Renato faz um apelo dramático em favor do distrito:
"Peço
a sua valiosa interferência junto ao Dr. Viana a respeito do Distrito de Monte
Alverne, cuja população não tem mais água."
O objetivo do vigário era fazer com que
o deputado intercedesse junto às esferas de poder do Estado em nome daquela
comunidade que definhava pela sede. A persistência dessa aliança duradoura e
amistosa entre o padre e o deputado gerou frutos duradouros. Aquele clamor por
Monte Alverne resultou, anos mais tarde (em 1960), na inauguração do Poço
Municipal, carinhosamente conhecido pela população como “A Bomba”.
Instalado na praça da igreja matriz, o poço resiste até os dias atuais como um
monumento vivo à insistência do Padre Renato e à sobrevivência do povo
fatimense.
Além do socorro imediato, o Padre Renato
Galvão pensava a longo prazo. Na mesma carta de 1955, ele solicitava a
construção de uma barragem na Lagoa do Ouricuri (obra inspecionada pelo então
Departamento de Secas, antecessor do DNOCS) para dar sustentação hídrica à
sede, aproveitando a vazão do Rio Kingomes — que hoje serve de divisa natural
entre Cícero Dantas e Fátima. O vigário também introduziu na região medidas
preventivas inovadoras, como o plantio da algaroba para servir de ração animal
e a diversificação da agricultura familiar, buscando dar independência e
sustento ao trabalhador rural.
O Espectro do El Niño e o Desafio que
Continua.
A história de Fátima e de seus
municípios vizinhos, como Antas e Ribeira do Pombal, está intrinsecamente
ligada a esse passado de poeira, sol e resistência. Relembrar a atuação da
Diocese através do Padre Renato Galvão, folhear os recortes de jornais da época
como o Jornal A Tarde de 1947, e ouvir as memórias de idosos da nossa
terra não é apenas um exercício de saudosismo. É um dever de justiça histórica
para com os nossos ancestrais, que fincaram suas raízes no semiárido e, contra
todas as intempéries, garantiram a existência e a dignidade das futuras
gerações.
Essa herança de luta ganha um tom de
urgência ainda maior no presente cenário. O fantasma do El Niño volta a pairar
de forma agressiva sobre o Nordeste, trazendo o prenúncio de uma nova estiagem
severa que ameaça o semiárido. Embora hoje as estruturas de apoio sejam
infinitamente superiores às da época do Padre Renato, o risco de consequências
trágicas ainda é real se houver qualquer sinal de complacência por parte do
poder público.
Sem o devido monitoramento e a aplicação
rigorosa das políticas de convivência com o clima, o avanço implacável desse
novo ciclo do El Niño pode golpear severamente a agricultura familiar da nossa
região, desestruturar o abastecimento hídrico dos povoados mais distantes e
sufocar economicamente os pequenos criadores de gado. O colapso do passado nos
ensina que a seca não perdoa a falta de planejamento. Olhar para a capelinha da
Laje da Boa Vista ou para as águas da "Bomba" na praça matriz não deve
ser apenas um ato de lembrança, mas um chamado à vigilância: as tragédias do
passado servem de alerta para que o sofrimento dos nossos ancestrais nunca mais
se repita na terra de Fátima.

Essa história é fato. Meu saudoso avô jovem preto. Contava essas histórias tão triste.
ResponderExcluirA princípio, parabéns pela escrita!
ResponderExcluirRealmente, o El Niño é preocupante. A população e as autoridades devem se atentar para as previsões. Quando ao padre Renato, um defensor na nossa gente e do nosso território. Dito isso, deixo um questionamento: por que na cidade de Fátima não tem um monumento ou uma praça para homenagear o padre Renato?
Excelente questionamento.
ExcluirCorroboro da ideia de se homenagear o Padre Renato, tenho dito isto sempre, ainda há tempo.
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