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Foto: Wikipédia |
As
estadias de Cícero Dantas Martins, O
Barão de Jeremoabo, em Bom Conselho,
atual cidade de Cícero Dantas eram longas e frequentes. Era notório o apego do
Barão à pequena vila que, anos depois da sua morte, passaria a carregar o seu
nome de batismo.
Do casarão que hoje abriga a Rádio
Regional de Cícero Dantas, o fidalgo recebia amigos e aliados políticos, tomava
decisões sobre intrigas locais, administrava os seus negócios e escrevia e
recebia cartas para aliados e amigos. As cartas, aliás, tomavam muito o tempo
do político e eram o principal meio de comunicação entre ele e aqueles com quem
se relacionava. Estima-se que, durante a vida, o barão tenha escrito mais de 40
mil cartas. Muitas delas disponíveis hoje como acervo de consulta para
historiadores, jornalistas e curiosos.
Foi por meio de cartas que o cidadão
de Tucano, Antero Cirqueira Galo,
informou ao Barão, por exemplo, da morte do famoso Coronel Moreira César em luta contra os conselheiristas. Na missiva,
datada de 7 de março de 1897, escreve o emissor:
Chegou hoje o Coronel Francisco
Passo, vindo do Cumbe, (atual cidade de Euclides da Cunha) afirmando dolorosa
notícia. As forças legais foram completamente arrasadas após penetrar Canudos
duas vezes, fazendo grande arraso no povo de Conselheiro, sendo mortos (sabidos)
o Coronel Moreira César, Tamarindo e o Tenente Pires Fera.
Como qualquer oligarca da época, o
Barão torcia pelo fim da guerra e pela destruição de Canudos, embora seu nome
tenha sido vinculado ao Conselheiro por adversários políticos.
É perceptível o tom de lamento de
Antero Cirqueira Galo ao falar da derrota das tropas do exército, os grandes
fazendeiros da região torciam pelo fim da guerra e pelo retorno da “normalidade”.
As notícias da guerra eram contínuas,
na mesma carta, Antero relata que os conselheiristas apoderaram-se dos
mantimentos, armas, munições e tudo aquilo o que foi deixado para trás pelos
soldados escorraçados de Canudos.
Como dito, as cartas eram um importante
meio de comunicação para o Barão, três anos antes da correspondência acima, Antônio Ferreira de Brito, ancestral da
poderosa família Brito de Ribeira do
Pombal, escreve ao Barão as notícias das pelejas com conselheiristas. No dia
10 de fevereiro de 1894, escreve Britto ao amigo:
Ontem
fomos surpreendidos com a aparição de 17 sicários de Antônio Conselheiro,
armados até os dentes, demoraram pouco e seguiram para as bandas daí.
Mas adiante, se queixa:
Começaram
as correrias, em breve, acontecerão roubos e desrespeitos às autoridades. Como combate-los
com um só praça (policial) que tem no Pombal?
Essas notícias eram frequentes naquele
conturbado final do século XIX. Do casarão em Bom Conselho, o Barão refletia e
escrevia à amigos descrevendo a sua preocupação. Dezenas de cartas foram trocadas
somente com Antero Cirqueira Galo falando da Guerra de Canudos. Tantas foram as
cartas com os demais aliados e amigos que, parte delas, foi compilada
recentemente em um livro, intitulado CANUDOS: CARTAS AO BARÃO, organizado por Consuelo Novais de Sampaio, lançado
pela editora da USP.
Fonte: Corpus eletrônico Documentos do
Sertão.