História do Sertão

O foco desse blog é a pesquisa da história do Sertão baiano.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Lampião contra João da Costa Pinto Dantas: O cangaceiro contra o político que não lhe deu guarida.


 

OS DEPOIMENTOS:

         

Era manhã de agosto de 1932, no arraial de Nova Olinda, hoje Olindina, Bahia. Na feira semanal do arruado, moradores das redondezas se reuniam para a compra dos mantimentos, comerciantes de diversas localidades expunham seus produtos à venda. Carnes, frutas, verduras e animais vivos eram negociados ao som dos ambulantes que gritavam suas ofertas.

          Nada havia de divergente naquela manhã. A exceção eram os rumores de que o bando de Lampião rondava pela região e o estranho comportamento de um grupo de soldados comandados pelo Tenente Abdias Freire de Andrade que, mesmo com o murmurinho da proximidade dos cangaceiros, acampava a cerca de dois quilômetros do arruado de Nova Olinda.

          Por volta das oito horas, os transeuntes se assustam com um bando de oito homens armados e montados a cavalo que entram no arraial fazendo alarde. Naquele momento, provavelmente todos se deram conta de que o bando do temido Lampião estava atacando Nova Olinda.

          Foi um ataque atípico, sem resistência, os cangaceiros ficaram à vontade para extorquir, agredir e destratar quem julgassem necessário. O comerciante João de Matos Monteiro, foi intimado pelo próprio Lampião a dar-lhe um conto de réis, diante da impossibilidade do pagamento, a vítima foi amarrada a uma árvore. Os ataques e insultos continuam até a tarde, quando o bando, conforme seus interesses, parte em direção ao sítio Camurciatá, antiga propriedade da família Dantas, sem que nenhuma atitude fosse tomada pela volante instalada próximo ao arraial.

          Na sequência, o bando cavalga pela estrada que liga Nova Olinda a Itapicuru e logo chega ao Camurciatá. O tiroteio entre cangaceiros e os funcionários da fazenda é intenso, o administrador da fazenda de nome José Correia é morto a tiros e outro funcionário conhecido por João Fructuoso é ferido. Mesmo com a vantagem numérica e bélica, o bando não consegue tomar a fazenda e se retira, na passagem por outras propriedades adjacentes, os cangaceiros fazem grande estrago, matam animais e incendeiam casas, deixando pra trás um rastro de destruição.

          A história que você acaba de ler, consta em um processo aberto por João da Costa Pinto Dantas, dono do Camurciatá e das propriedades Tijuco , Lagoa do Paulo , Cruz, Jacuricy, Lagoa do Soares e outras propriedades, todas afetadas pela ação violenta de Lampião e seus homens.

O processo foi aberto pelo proprietário das fazendas contra o Estado, tendo como seus advogados o seu filho Arthur da Costa Pinto Dantas e Advaldo Luz. Entre os depoimentos estão o do médico Possidônio Guimarães, na época com 54 anos. Possidônio era morados da vila de Nova Olinda e ocupava importante carago na saúde pública. O médico afirmou em juízo que, chegando de viagem na véspera do ataque, ficou sabendo dos boatos que davam conta de que Lampião e seu bando estavam pela redondeza, como medida de segurança, procurou a estação do telégrafo local e fora informado de que a notícia já teria sido enviada à Cipó e Inhambupe.

De acordo com o seu relato, o bando contava com nove homens, Lampião, Maçarico, Esperança, Lamparina, Labareda, Azulão, Zé Baiano, Pancada e Cajazeira. Reporta que Maçarico, “Logo ao apear-se” dirigiu-se à sua residência, na casa do médico, o cangaceiro se apossa de 20 mil réis e de diversos objetos de valor, alguns de ouro, até mesmo o anel de médico do dono da residência foi surrupiado pelo bandido.

Possidônio alega ainda que o bando gozava de muita tranquilidade na vila, Lampião e seus homens teriam almoçado, bebido e dançado até as 15h horas, quando saíram alardeando que iriam direto ao Camurciatá.

Outro testemunho importante foi o de Manoel de Souza Dórea, 35 anos, também morador de Nova Olinda. Este homem foi obrigado pelo bando a seguir como guia até as propriedades que posteriormente sofreriam as ações dos cangaceiros. Em juízo, declara que o bando foi saqueando residências no caminho entre Nova Olinda e o Camurciatá, é dele o relato que melhor representa o tiroteio na propriedade de João Dantas.

“Fomos Recebidos à bala”, alega. Logo ao chegar ao sítio, os funcionários entrincheirados na casa grande abriram fogo contra o grupo, usavam armas mais antigas, como espingardas e bacamartes, o administrador da fazenda tomba mortalmente ferido e um outro funcionário é atingido sem gravidade. Os cangaceiros não conseguem avançar, são alvejados do alto pelos funcionários.

Manoel Dórea alega ter alertado Lampião antes da chegada ao Camurciatá, afirmando saber (ele, o declarante) que havia muito armamento na propriedade. De acordo com o seu relato, Lampião teria dito estar informado de que a propriedade não estaria bem protegida e que havia muito dinheiro no antigo sobrado da família.

Diante da impossibilidade de avançar, os cangaceiros batem em retirada levando Manoel Dórea que é obrigado a informar outras propriedades de João Dantas nas redondezas. Nessas fazendas secundárias, cortam cercas de arames, derrubam cercas de madeira, incendeiam a casa da fazenda Tijuco e da Lagoa do Paulo, queimam currais e matam animais e vão pernoitar na fazenda Cruz, onde permanecem até as 3:30 da madrugada, de onde seguem até o lugar denominado Raiz de Pindoba, nesta última propriedade, o guia é autorizado a retornar para Nova Olinda.

 

A VOLANTE DE ABDIAS FREIRE DE ANDRADE

 

 O Tenente Abdias Freire de Andrade (Foto), contava com um significativo poder de reação naqueles dias dos ataques à Nova Olinda e ao Camurciatá. Sua volante era equipada com fuzis e metralhadora, esta última, uma novidade para a época. Se deslocava com um caminhão e possuía a superioridade numérica, uma vez que contava com 20 praças e dois oficiais, ao passo que lampião e seu bando estavam em número de 9 homens.

A passividade do grupamento de polícia, contudo, parece ter sido algo muito desproporcional ao seu poderio, tanto que, no processo, várias testemunhas citam a falta de reação do grupo que, de acordo com os depoimentos, tinham condições não só de deter os referidos ataques, mas, se agissem no momento do tiroteio no Camurciatá, de liquidar Lampião e seu bando.

Eis a alegação dos advogados do fazendeiro:

 

Que todos estes acontecimentos, ocorreram por falta de providências do poder público, pois é fato comprovado, que vinha no encalço do bando um contingente policial, composto de vinte praças, sob o comando do tenente Abdias Freire de Andrade, tendo como imediato o tenente José Américo de Freitas, contingente completamente equipado, com fuzis, metralhadoras e tinha para sua condução um “alto caminhão”. Entretanto o contingente nada fez e nenhuma providencia tomou, antes pelo contrário, facilitou a ação dos bandidos, mantendo-se inerte, segundo testemunhas arroladas e ouvidas nos autos, num ato de covardia ou cumplicidade. Assim é que enquanto os bandidos depredavam e saqueavam Nova Olinda, o contingente policial, embora bem armado, permaneceu inerte, distante cerca de quinhentos metros da então Vila e somente nela penetrando, depois de cientificada de que o bando havia saído e dirigidos para a fazenda Camurciatá.

As alegações acerca da falta de ação da força do Tenente Abdias tomam mais corpo e fica mais evidente, quando a ação nas imediações do Camurciatá é narrada. De acordo com testemunhas, os soldados e oficiais seguiram tardiamente na direção tomada pelos cangaceiros, mas chegando lá com o tiroteio ainda em ocorrência, limitaram-se a assistir ao longe o embate entre cangaceiros e funcionários de João Dantas. É o que relata a defesa nos autos:

 

Que saindo o contingente referido em direção de Camuciatá, onde poderia ter chegado muito antes dos bandidos , pois estes andavam a cavalo e por  escalas o contingente policial viajava em caminhão-bês , no entanto , viagem de cagado  , estacionando na margem direita do rio Itapicuru – oposta a fazenda Camuciatá – e nesse local permaneceu , como espectador , apreciando perfeitamente o tiroteio travado entre os bandidos e os defensores da casa de residência do Camuciatá.

 

Essa atitude da polícia, serviu de gatilho para a abertura do processo contra a fazenda pública, contudo, na mesma peça, a defesa insere outros ataques a propriedades em diversos locais onde o fazendeiro possuía terras conforme veremos a seguir:

 

JOÃO DA COSTA PINTO DANTAS.

 

Os Dantas chegam ao sertão da Bahia através da família Ávila, o primeiro indivíduo com tal sobrenome a se aliar à poderosa casa da Torre é João Dantas dos Imperiais Itapicuru. Nascido em 8 de março de 1773 e falecido a 9 de maio de 1832. João Dantas dos Imperiais vem a ser bisavô de João da Costa Pinto Dantas. Foi procurador da casa da Torre e aproveitando a decadência da família Ávila, iniciou a compra de enormes porções de terras no sertão. Esse movimento
foi seguido por um de seus filhos. João Dantas dos Reis[i] (foto).


Nos registros eclesiásticos de terras, João Dantas Portátil e o supracitado filho, aparecem como proprietários de 80 fazendas no sertão, criando um enorme latifúndio que seria herdado por Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo.

O Barão nasceu em 28 de junho de 1838 e faleceu em 27 de outubro de 1903, está sepultado na igreja da cidade que carrega atualmente o seu nome, Cícero, Bahia. É pai de João da Costa Pinto Dantas e foi ele que, no final do século XIX, reconstruiu a casa de moradia do Sítio Camurciatá. A obra, concluída em 1894, reerguia o antigo casarão de onde seu avô comandou o levante de 1822 em apoio ao General Labatut e a independência do Brasil.

João da Costa Pinto Dantas era o filho mais velho do Barão e sua herança, além do capital político do pai, foi composta por inúmeras fazendas sertanejas, antigo reduto político da família.

Essas fazendas foram habitadas pelos cangaceiros após a chegada de Lampião à margem direita do Rio São Francisco em 1928 e o assédio de cangaceiros às propriedades de João Dantas. Vejamos uma dessas tentativas através do bilhete escrito por Corisco:

lmo Exmo Sr Dotor  joão da Costa pinto dantas u fim desta carta he somente pedir A Vx que mi mande a cantia de 5$000000 Cinco Conto de Reis se o Sr não ignora porquei não posso trabalha .................. sustentar meus rapazes se o governo não me deixa trabalha portanto peço mi mande como Sem falta espero resposta tão logo que Receba eu procuro para a fazenda Barriguda

 

Sem mais nada

Cristino Gomes da Silva

Vulgo Curisco

 

Esse bilhete foi escrito em 1932 e foi anexado ao processo movido por João Dantas e seus advogados contra a fazenda pública, no documento, a defesa alegou que essas renitentes investidas causaram grande prejuízo ao fazendeiro e evocou o direito à propriedade privada como principal base retórica para justificar uma indenização ao proprietário lesado pelos cangaceiros ao longo de vários anos.

O processo em questão retrata a conflituosa relação entre os cangaceiros e um dos grandes proprietários de terras do sertão que aparentemente não cedeu às investidas de Lampião e de seus homens. João Dantas preferiu agir diferente de outros homens de posse como o Coronel João Sá, que se aliou a Lampião e outros tantos grandes proprietários de terras que, ao invés de ir para o confronto, se aproveitaram da amizade com os cangaceiros para conseguir vantagens.

 


[i] Coronel João Dantas dos Reis (1802 - 1872) Comandante Superior da Guarda Nacional e deputado provincial da Bahia. Comendador da Ordem de Cristo e da Imperial Ordem de Pedro Primeiro por sua participação na Guerra de Independência da Bahia em 1823. Foi pai de Cícero Dantas Martins, primeiro e único barão de Jeremoabo.

 

Referências:

Arquivo Público do estado da Bahia (APEB) – secção judiciária;

Blog História do Sertão.

 


quarta-feira, 12 de março de 2025

Corisco na Fazenda Barriguda.

 

Corisco.

A Fazenda Barriguda é hoje parte da sede do município de Fátima, fica próximo ao Pisa Macio e faz fronteira com a Maria Preta. No século XIX, essa propriedade foi adquirida pela família Dantas, em 1856, ela aparece registrada em nome de João Dantas dos Reis, pai do Barão de Jeremoabo.

          A propriedade foi herdade pelo Barão e após a sua morte, em 27 de outubro de 1903, passou ao seu filho mais velho que ficou com essa fazenda e mais 34 propriedades no sertão baiano.

          Quando o cangaço passa a ser uma dura realidade para a Bahia, a partir do final de 1928, quando Lampião e sete dos seus homens cruzam o São Francisco e passam a atuar mais ativamente em território baiano, João da Costa Pinto Dantas era o maior proprietário de terras da região e como tal, foi assediado por cangaceiros que tentavam extorquir dinheiro do rico fazendeiro.


João da Costa Pinto Dantas.

Uma das formas clássicas de extorsão por parte dos cangaceiros era o envio de bilhetes com um linguajar rústico, dotado de ameaças sutis ao destinatário. Foi o que Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco) em 1932, quando, de local ignorado, envia a João Dantas a seguinte correspondência, transcrita por André Dantas, descendente do barão:

 

          Ilmo Exmo Sr Dotor  joão da Costa pinto dantas u fim desta carta he somente pedir A Vx que mi mande a cantia de 5$000000 Cinco Conto de Reis se o Sr não ignora porquei não possoo trabalha .................. sustentar meus rapazes se o governo não me deixa trabalha portanto peço mi mande como Sem falta espero resposta tão logo que Receba eu procuro para a fazenda Barriguda

 

Sem mais nada

Cristino Gomes da Silva

Vulgo Curisco



          Para nós, fatimenses, a novidade neste bilhete está em sua parte final, que tem a finalidade de combinar com o destinatário, o local de entrega do dinheiro solicitado pelo bandido Corisco. Como se pode observar no texto, Corisco combina a entrega na Fazenda Barriguda, o que demonstra que ele e seu grupo se encontrava nas proximidades.

          Esse documento, com efeito, é a primeira evidência clara da presença do Diabo Loiro, segundo homem na hierarquia do cangaço, em terras Fatimenses. Essas informações, como dito, foram retiradas do processo movido pelos advogados de João da Costa Pinto Dantas contra Lampião. Esse documento me foi gentilmente enviado pelo amigo Robério Santos.

         

Moisés Reis, Professor há 24 anos do município de Fátima, Licenciado em História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira pela UNIASSELVI, Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das obras: Manual Didático do Professor de História - O Nazista - Fátima: Traços da sua Histórias - O Embaixador da Paz - Maria Preta: Escravismo no sertão baiano – Últimos Cangaceiros, Justiça, prisão e liberdade - da HQ Histórias do Cangaço e do documentário Identidade Fatimense.


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terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A despedida de Correinha da Zabumba.

 

            No último domingo, 2 de janeiro de 2025, Fátima foi palco de uma genuína manifestação cultural que marcou a despedida do mais famoso vaqueiro da cidade. Enquanto vivo, Pedro Correia de Andrade, ou simplesmente Correinha da Zabumba, com era conhecido, dedicou sua vida às expressões da cultura do gado.

          Descendente de antigos vaqueiros e criadores de gado, Correinha, estava sempre acompanhado de algo que demonstrasse o seu apreço a essa arte. Assim, organizou inúmeras missas de vaqueiro, com aboiadores, zabumbas e flautas que soavam ao som do pífano.

          Já na velhice, escreveu cartas e deixou bem claro aos familiares que não queria tristeza em seu velório, recomendou que chamassem cantadores de forró, aboiadores e que em sua despedida houvesse festa.

          Quem já precisou enterrar um ente querido pode imaginar o sacrifício que foi para os familiares que, mesmo enlutados, precisaram cumprir com esse último compromisso, mesmo chorosos, os filhos e filhas, netos e demais parentes fizeram valer a última vontade de Correinha.

Seu sepultamento refletiu o que foi a sua vida, a cidade encheu-se de uma estranha alegria com a presença de carros de boi, vaqueiros montados e trajados coma clássica indumentária, ouviu-se o som inconfundível do berrante de sua filha Marlene, o foguetório insistente, o forró cantado em carros de som que anunciavam o momento singular.

Não se esperava menos do dia em que Fátima teria que se despedir de Correinha, sua família fez valer a personalidade irreverente e única do velho vaqueiro que agora descansa em paz ao lado da sua esposa Nininha. Seu repouso, contudo, não foi no tradicional cemitério dos Correias na Lagoa da Volta, localidade habitada pela família a quase duzentos anos. Questões familiares que não nos cabem discussão impediram esse final.

Toda a família e a comunidade fatimense se despediu do corpo físico de Correinha neste domingo, mas o seu legado e a memória que deixou pra traz continuará povoando o imaginário popular, suas histórias engraçadas continuarão a ser contadas e a tradição já segue adiante com suas filhas e netas.

          As gerações futuras certamente contarão histórias sobre o dia em que a cidade parou para ver um sepultamento diferente de tudo o que já se viu, diferente como foi a vida do seu personagem principal. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Assassinato na Praça Ângelo Lagoa.

 


Era 6 de março de 1970, Fátima ainda era conhecida como “Vila de Fátima” e pertencia ao município de Cícero Dantas. Naquele dia, um marido possessivo entrou em sua casa, na rua “Rua Velha” como chamavam os moradores, sacou sua arma a atirou contra a esposa que costurava em uma velha máquina.

Mortalmente ferida, Adelina Santos Souza, tomba sobre o móvel inerte. O marido assassino, Ananias Santana de Souza, era soldado, servia sob as ordens de Liberino Vicente, ex-volante e delegado do distrito na época.

O crime chocou a pequena localidade, o delegado deu voz de prisão a um companheiro de farda que, mesmo diante do ato brutal que acabara de cometer, não fugiu e não esboçou qualquer reação violenta após o crime. Foi conduzido para uma cela improvisada onde hoje é o Mercadinho JR e aguardou até ser conduzido para a cadeia de Cícero Dantas.

Lá, aguardou até ser submetido a júri popular, que aconteceu no 18 de julho de 1974, alguns fatimenses chegaram a ir assistir ao júri. Condenado por unanimidade a 14 anos de prisão, foi enviado à Salvador, mais precisamente para a penitenciária Lemos de Brito, aonde chegou no dia 23 de setembro de 1974, quatro anos após o crime. O juiz que condenou o réu foi Walter Nogueira Brandão.

Natural do Saco, próximo a Paripiranga, o soldado Ananias Santana Souza contava com 34 anos quando cometeu o crime. Era filho de Francisco José de Souza e Maria Luduvice de Santana, mas vivia em Vila de Fátima, provavelmente em decorrência do trabalho.

Ela era costureira e consta que ele sempre fora um homem muito ciumento e teria sido essa a motivação do crime.

Durante o cumprimento da pena, o advogado alegou que o julgamento teria tido diversos problemas, entre eles, a desconsideração de o crime ter sido cometido em um ato repentino e impensado. Os argumentos da defesa convenceram a juíza Arcy Ferreira Dias que, no dia 21 de novembro de 1975, resolve anular o julgamento.

O réu foi reconduzido à Cícero Dantas, pois, no dia 27 de setembro de 1976, a mesma juíza solicita do diretor da penitenciária uma escolta para a viagem de Ananias.

Novo julgamento é marcado, mas dessa vez o réu é condenado a 16 anos, aumentando ainda mais a sua pena e revelando o quanto esse fato marcou a sociedade local. Seu retorno à penitenciária foi no dia 09 de setembro de 1977.

Sendo considerado um detento de bom comportamento, Ananias recebe o benefício da liberdade condicional em 01 de agosto de 1978 e passou a viver em Alagoinhas, onde atuou como corneteiro no batalhão de polícia local. Sabe-se que morreu naquela cidade em data ignorada.

 

Esse texto teve a valiosa ajuda de Eduardo Pires.

 

Fonte: Arquivo Público da Bahia, seção judiciária, processo-crime. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Capitão Felipe Castro, o humanista.

 

Enquanto José Osório de Farias, o Zé Rufino, era um autêntico caçador, um guerreiro das caatingas acostumado a combater violência com violência, o capitão Felipe Borges de Castro, se notabilizou pelo seu viés humanitário.

Estudioso do tema cangaço e do sertão enquanto palco principal do fenômeno, o Capitão Felipe, como era conhecido, chegou a propor abordagens de não-violência como ferramenta de combate ao cangaço.

Em relatório enviado ao comando, chegou a afirmar:

 

[...] dos estudos feitos por esse comando, no distrito de Bebedouro, município de Geremoabo, quando de sua viagem daquela zona, resulta falar com segurança acerca do abandono que se encontrava, aquela terra, a infância cujo vida estar condicionada aos horrores do Cangaço criminoso. Não há escolas, nem oficinas, nem arados. Ali, só o bacamarte, conduzido por mãos assassinas, doutrinado exemplifica. IV a escola, para o cujo funcionamento despende o governo certa importância, vive fechada. V – o passatempo favorito das crianças naquela zona, é imitar os cangaceiros nas vestes, nas artes. Merece lembrado um fato há bem pouco tempo ocorrido, em Geremoabo, cujo desfecho fatal, tivemos de lamentar e até agora consterna os corações daquela gente; brincavam Raimundo e Miguel, quando este fingindo-se bandido empunho uma arma encontrada sobre a mesa de jantar, da sua casa de sua residência, e dispara-a, inocentemente, contra o seu companheiro. Eis senão quando, o infeliz moço, estarrecido pela brutal surpresa, ouve ao deflagrar inesperado da arma, o aterrador estampido e, em seguida, vê, diante de si, tombar sem vida, ao solo, o seu amigo e vítima. Sequência senão deste, mas de outros fatos criminosos se tem verificado em Bebedouro, como produto natural do meio. VI – finamente, senhor comandante, para que se tenha, de passagem, uma leve impressão do que seja Bebedouro, atualmente, basta, sabe-lo fornecedor de vinte e dois bandidos cujos nomes vão na relação anexa. VII – saúde e fraternidade. (Ass.) Capitão Felipe Borges de Castro – comandante. (P. 276, 1940).

          Esse oficial, chegou a sugerir aos superiores que criassem instituições de correção, onde os sertanejos flagrados em algum envolvimento com cangaceiros, pudessem receber apoio do estado, formação profissional e ser redirecionados para o bom convívio em sociedade, mas suas ideias foram taxadas de utópicas.

          O Capitão Felipe Castro, teve importante papel nas entregas do bando de Labareda em 1940, quando, ao lado do Monsenhor José de Magalhães e Souza, conseguiu negociar com o arisco Ângelo Roque e seu bando, ação que resultou na rendição desses. Chegou a tentar, ainda na companhia do mesmo religioso, negociar a rendição de Corisco, mas sem êxito.

          Relutante em se entregar, Corisco fez pouco caso dos métodos pacíficos do Capitão Felipe e conheceria a brutalidade dos métodos de Zé Rufino meses depois.

           

         

 

 

 

Você tem hábitos herdados dos Judeus e nem desconfia.


 Quem nunca ouviu dos pais ou avós que não se pode contar estrelas? Contar os astros no céu, de acordo com a tradição popular, faz nascer verrugas; e muitas verrugas ao longo da história, foram classificadas como uma consequência da teimosia das crianças e realizar tal ação.

          Mas de onde vem essa ideia que, nos tempos atuais, até soa como absurdo, ingenuidade?

          E se eu te disser que essa e tantas outras tradições que permearam por séculos e por diferentes gerações, têm origem no judaísmo? Isso mesmo, de acordo com a tradição judaica, o dia começa com o aparecimento da primeira estrela no céu do dia anterior e isso fazia com que os judeus ficassem atentos ao aparecimento do astro no céu noturno. Como a prática do judaísmo foi proibida durante muitos anos em territórios portugueses, temia-se que as crianças apontassem para o céu, para a primeira estrela, e revelasse seu interesse e sua tradição, denunciando assim toda a família que, porventura, praticasse o judaísmo ocultamente. Em virtude disso, criou-se o costume de contar às crianças que, se apontassem estrelas no céu, nasceriam verrugas em sua pele.

Práticas tão comuns ao sertanejo como acreditar que não se deve varrer a casa jogando o lixo pela porta da rua, têm origem no judaísmo. De acordo com a tradição, é pela porta que passam os mortos velados na residência e em sinal de respeito, não se passa com o lixo por ali.

Mas como essas tradições chegaram aos nossos avós e bisavós?

Essa é uma história interessante, que vamos contar a partir de agora:

Fugindo de perseguições religiosas na Europa, muitos judeus se erradicaram no Brasil, boa parte deles, inclusive, vieram ao país como uma forma de punição a partir de 1531, a razão disso está no fato de Portugal, um país católico, proibir a prática do judaísmo em seus domínios, chegando a forçar a conversão destes ao cristianismo, o que deu origem aos “cristãos-novos”.

          Durante o domínio holandês, contudo, no Nordeste do país (1630-1654) os Judeus puderam exercer livremente as suas práticas religiosas, sobretudo no litoral. Isso porque, os holandeses tinham uma prática mais amigável com relação aos israelitas por afinidade religiosa.

          Quando os holandeses foram expulsos do Brasil pelos portugueses, restou aos judeus fugir para Minas Gerais, Voltar para a Europa, ou adentrar os sertões ermos a fim de praticar com mais liberdade as suas tradições religiosas e fugir da perseguição da inquisição.

          No sertão, essas famílias ocuparam diversos setores da sociedade, tornaram-se mascates e viajantes pelas estradas sertanejas, tornaram-se criadores de gado, ovelhas e cabras e se misturaram às populações locais. Sobrenomes como Bezerra, Pereira e Cavalcante, são de origem judia.

          Aos poucos, essas unidades familiares foram se mesclando ao sertanejo caboclo, mas as tradições e características físicas e sociais foram sendo herdadas ao longo das gerações.

          Assim, traços físicos como:

·       Moreno-claro;

·       Cabelos negros;

·       Baixa estatura;

·       Testa curta;

·       Cara alongada;

·       Nariz pontiagudo

 

São características dos judeus que encontramos em muitos sertanejos ainda nos dias atuais.

Importante salientar que, nem todos os que carregam essas características físicas são descendentes de judeus, essa determinação precisa de uma investigação mais abrangente.

Além dos traços físicos, existem também características típicas judaicas como:

·       Grande habilidade para o comércio;

·       Indivíduo desconfiado;

·       Fama de “pão duro”;

 

Achou pouco? ainda tem mais. Muitos dos ditados que pronunciamos hoje em dia de forma automática e natural, tem origens igualmente nas tradições judaicas. vejamos:

 

·       Está pensando na morte da bezerra – Se refere a quem está desatento, com pensamentos distantes;

·       Passar a mão sobre a cabeça – Designa o ato de amenizar, perdoar um erro – Esse ditado origina-se no hábito judaico de abençoar, passando a mão sobre a cabeça descendo pela face;

·       Jogar para o santo – Se refere ao hábito de, antes de ingerir uma bebida, jogar um gole fora – Origina-se da tradição milenar da páscoa dos judeus que costumam reservar um copo de vinho para o profeta Elias, representando o Messias que virá;

·       Vestir a carapuça – Designa aquele que se identificou como culpado – Origina-se na idade média, quando os judeus eram obrigados a usar chapéus pontudos para se identificar;

·       Pedir a bênção – A prática de pedir a benção aos pais ao sair e chegar, remonta a antiga prática sacerdotal, quando os pais abençoam os filhos.

Obviamente, o sertanejo, assim como a maior parte dos brasileiros, é fruto da miscigenação comum ao nosso povo e essas (digamos) heranças aqui ressaltadas, são parte dessa formação social, que se une a outras tradições tão importantes como a indígena, africana, europeia e árabe, todas essas culturas formaram o tempero que produziu o sertanejo típico.

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Povoado Monte Negro – Fátima/Bahia e a Lei de Terras de 1850.


 

Após a implantação da Lei de terras, que obrigava os posseiros a registrar e pagar pelos registros de terras no Brasil, uma verdadeira romaria se verifica em toda essa região.

          A razão para isso é que, antes da dita lei, todos os ocupantes de terras no Brasil não eram necessariamente donos, tinham apenas o direito concedido pelo império de nela trabalhar.

          Com a vigência da lei de terras (18 de setembro de 1850), todos os posseiros tiveram que buscar a regularização das propriedades, o que levou a uma procura muito grande pelos padres da região, uma vez que os registros só poderiam ser feitos pela igreja, maior representante do estado nos sertões.

          O vigário de Cícero Dantas, Caetano Dias da Silva (Hoje sepultado no altar da igreja de Nosso Senhora do Bom Conselho) foi o responsável pelo registro de um sem-número de fazendas e fazendolas em toda a região.

          Na matriz do Bom Conselho ou de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga), o vigário era requisitado para os trâmites de registros, que consistiam quase que exclusivamente na boa fé depositada nos registrantes, isso porque, para registrar uma terra na época, era necessário simplesmente procurar o vigário mais próximo, relatar a compra de uma propriedade, o valor pago e a quem pagou e descrever a área, delimitando os marcos naturais ou artificiais que marcavam as fronteiras da propriedade em questão.

          Assim, no dia 21 de abril de 1859, o vigário Caetano Dias recebe em Cícero Dantas João José Leite, empregado de João Dantas dos Reis, pai do Barão de Jeremoabo, para registrar as fazendas Lages e Tabuleiro, registro que custou aos Dantas dois mil e quinhentos réis.

          Na descrição dos limites das fazendas, um marco natural chama a atenção para quem é de Fátima e região, isso porquê, a fazenda Tabuleiro iniciava, segundo o registrante, na “Serra do Monte Negro” e descia na direção dos tabuleiros das Queimadas.

          Trocando em miúdos, a dita Serra do Montenegro, é a elevação onde hoje se encontra o povoado Monte Negro e a fazenda iniciava ali e rumava na direção do município vizinho de Adustina. Era uma propriedade de 3 léguas de extensão, isto é, cerca de 18 km.

          Além da enormidade da extensão das fazendas, chama a atenção o fato de o povoado Monte Negro ser assim chamado em razão de ter herdado o nome do acidente geográfico no qual está fincado, nome esse, dado ainda pelo colonizador a fim de se situar na vasta paisagem sertaneja.