OS
DEPOIMENTOS:
Era
manhã de agosto de 1932, no arraial de Nova Olinda, hoje Olindina, Bahia. Na
feira semanal do arruado, moradores das redondezas se reuniam para a compra dos
mantimentos, comerciantes de diversas localidades expunham seus produtos à
venda. Carnes, frutas, verduras e animais vivos eram negociados ao som dos
ambulantes que gritavam suas ofertas.
Nada havia de divergente naquela
manhã. A exceção eram os rumores de que o bando de Lampião rondava pela região
e o estranho comportamento de um grupo de soldados comandados pelo Tenente
Abdias Freire de Andrade que, mesmo com o murmurinho da proximidade dos
cangaceiros, acampava a cerca de dois quilômetros do arruado de Nova Olinda.
Por volta das oito horas, os
transeuntes se assustam com um bando de oito homens armados e montados a cavalo
que entram no arraial fazendo alarde. Naquele momento, provavelmente todos se
deram conta de que o bando do temido Lampião estava atacando Nova Olinda.
Foi um ataque atípico, sem
resistência, os cangaceiros ficaram à vontade para extorquir, agredir e
destratar quem julgassem necessário. O comerciante João de Matos Monteiro, foi
intimado pelo próprio Lampião a dar-lhe um conto de réis, diante da
impossibilidade do pagamento, a vítima foi amarrada a uma árvore. Os ataques e
insultos continuam até a tarde, quando o bando, conforme seus interesses, parte
em direção ao sítio Camurciatá, antiga propriedade da família Dantas, sem que
nenhuma atitude fosse tomada pela volante instalada próximo ao arraial.
Na sequência, o bando cavalga pela
estrada que liga Nova Olinda a Itapicuru e logo chega ao Camurciatá. O tiroteio
entre cangaceiros e os funcionários da fazenda é intenso, o administrador da
fazenda de nome José Correia é morto a tiros e outro funcionário conhecido por
João Fructuoso é ferido. Mesmo com a vantagem numérica e bélica, o bando não
consegue tomar a fazenda e se retira, na passagem por outras propriedades
adjacentes, os cangaceiros fazem grande estrago, matam animais e incendeiam
casas, deixando pra trás um rastro de destruição.
A história que você acaba de ler,
consta em um processo aberto por João da Costa Pinto Dantas, dono do Camurciatá
e das propriedades Tijuco , Lagoa do Paulo , Cruz, Jacuricy, Lagoa do Soares e
outras propriedades, todas afetadas pela ação violenta de Lampião e seus
homens.
O
processo foi aberto pelo proprietário das fazendas contra o Estado, tendo como
seus advogados o seu filho Arthur da Costa Pinto Dantas e Advaldo Luz. Entre os
depoimentos estão o do médico Possidônio Guimarães, na época com 54 anos.
Possidônio era morados da vila de Nova Olinda e ocupava importante carago na
saúde pública. O médico afirmou em juízo que, chegando de viagem na véspera do
ataque, ficou sabendo dos boatos que davam conta de que Lampião e seu bando
estavam pela redondeza, como medida de segurança, procurou a estação do
telégrafo local e fora informado de que a notícia já teria sido enviada à Cipó
e Inhambupe.
De
acordo com o seu relato, o bando contava com nove homens, Lampião, Maçarico,
Esperança, Lamparina, Labareda, Azulão, Zé Baiano, Pancada e Cajazeira. Reporta
que Maçarico, “Logo ao apear-se” dirigiu-se à sua residência, na casa do
médico, o cangaceiro se apossa de 20 mil réis e de diversos objetos de valor,
alguns de ouro, até mesmo o anel de médico do dono da residência foi surrupiado
pelo bandido.
Possidônio
alega ainda que o bando gozava de muita tranquilidade na vila, Lampião e seus
homens teriam almoçado, bebido e dançado até as 15h horas, quando saíram
alardeando que iriam direto ao Camurciatá.
Outro
testemunho importante foi o de Manoel de Souza Dórea, 35 anos, também morador
de Nova Olinda. Este homem foi obrigado pelo bando a seguir como guia até as
propriedades que posteriormente sofreriam as ações dos cangaceiros. Em juízo,
declara que o bando foi saqueando residências no caminho entre Nova Olinda e o
Camurciatá, é dele o relato que melhor representa o tiroteio na propriedade de
João Dantas.
“Fomos
Recebidos à bala”, alega. Logo ao chegar ao sítio, os funcionários
entrincheirados na casa grande abriram fogo contra o grupo, usavam armas mais antigas,
como espingardas e bacamartes, o administrador da fazenda tomba mortalmente
ferido e um outro funcionário é atingido sem gravidade. Os cangaceiros não
conseguem avançar, são alvejados do alto pelos funcionários.
Manoel
Dórea alega ter alertado Lampião antes da chegada ao Camurciatá, afirmando
saber (ele, o declarante) que havia muito armamento na propriedade. De acordo
com o seu relato, Lampião teria dito estar informado de que a propriedade não
estaria bem protegida e que havia muito dinheiro no antigo sobrado da família.
Diante
da impossibilidade de avançar, os cangaceiros batem em retirada levando Manoel
Dórea que é obrigado a informar outras propriedades de João Dantas nas
redondezas. Nessas fazendas secundárias, cortam cercas de arames, derrubam
cercas de madeira, incendeiam a casa da fazenda Tijuco e da Lagoa do Paulo,
queimam currais e matam animais e vão pernoitar na fazenda Cruz, onde
permanecem até as 3:30 da madrugada, de onde seguem até o lugar denominado Raiz
de Pindoba, nesta última propriedade, o guia é autorizado a retornar para Nova
Olinda.
A
VOLANTE DE ABDIAS FREIRE DE ANDRADE
O Tenente Abdias Freire de Andrade (Foto),
contava com um significativo poder de reação naqueles dias dos ataques à Nova
Olinda e ao Camurciatá. Sua volante era equipada com fuzis e metralhadora, esta
última, uma novidade para a época. Se deslocava com um caminhão e possuía a
superioridade numérica, uma vez que contava com 20 praças e dois oficiais, ao
passo que lampião e seu bando estavam em número de 9 homens.
A
passividade do grupamento de polícia, contudo, parece ter sido algo muito
desproporcional ao seu poderio, tanto que, no processo, várias testemunhas
citam a falta de reação do grupo que, de acordo com os depoimentos, tinham
condições não só de deter os referidos ataques, mas, se agissem no momento do
tiroteio no Camurciatá, de liquidar Lampião e seu bando.
Eis
a alegação dos advogados do fazendeiro:
Que
todos estes acontecimentos, ocorreram por falta de providências do poder
público, pois é fato comprovado, que vinha no encalço do bando um contingente
policial, composto de vinte praças, sob o comando do tenente Abdias Freire de
Andrade, tendo como imediato o tenente José Américo de Freitas, contingente
completamente equipado, com fuzis, metralhadoras e tinha para sua condução um
“alto caminhão”. Entretanto o contingente nada fez e nenhuma providencia tomou,
antes pelo contrário, facilitou a ação dos bandidos, mantendo-se inerte,
segundo testemunhas arroladas e ouvidas nos autos, num ato de covardia ou
cumplicidade. Assim é que enquanto os bandidos depredavam e saqueavam Nova
Olinda, o contingente policial, embora bem armado, permaneceu inerte, distante
cerca de quinhentos metros da então Vila e somente nela penetrando, depois de
cientificada de que o bando havia saído e dirigidos para a fazenda Camurciatá.
As
alegações acerca da falta de ação da força do Tenente Abdias tomam mais corpo e
fica mais evidente, quando a ação nas imediações do Camurciatá é narrada. De
acordo com testemunhas, os soldados e oficiais seguiram tardiamente na direção
tomada pelos cangaceiros, mas chegando lá com o tiroteio ainda em ocorrência,
limitaram-se a assistir ao longe o embate entre cangaceiros e funcionários de
João Dantas. É o que relata a defesa nos autos:
Que
saindo o contingente referido em direção de Camuciatá, onde poderia ter chegado
muito antes dos bandidos , pois estes andavam a cavalo e por escalas o contingente policial viajava em
caminhão-bês , no entanto , viagem de cagado
, estacionando na margem direita do rio Itapicuru – oposta a fazenda
Camuciatá – e nesse local permaneceu , como espectador , apreciando
perfeitamente o tiroteio travado entre os bandidos e os defensores da casa de
residência do Camuciatá.
Essa
atitude da polícia, serviu de gatilho para a abertura do processo contra a
fazenda pública, contudo, na mesma peça, a defesa insere outros ataques a
propriedades em diversos locais onde o fazendeiro possuía terras conforme
veremos a seguir:
JOÃO
DA COSTA PINTO DANTAS.
Os
Dantas chegam ao sertão da Bahia através da família Ávila, o primeiro indivíduo
com tal sobrenome a se aliar à poderosa casa da Torre é João Dantas dos
Imperiais Itapicuru. Nascido em 8 de março de 1773 e falecido a 9 de maio de
1832. João Dantas dos Imperiais vem a ser bisavô de João da Costa Pinto Dantas.
Foi procurador da casa da Torre e aproveitando a decadência da família Ávila,
iniciou a compra de enormes porções de terras no sertão. Esse movimento
foi
seguido por um de seus filhos. João Dantas dos Reis[i] (foto).
Nos
registros eclesiásticos de terras, João Dantas Portátil e o supracitado filho,
aparecem como proprietários de 80 fazendas no sertão, criando um enorme
latifúndio que seria herdado por Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo.
O
Barão nasceu em 28 de junho de 1838 e faleceu em 27 de outubro de 1903, está
sepultado na igreja da cidade que carrega atualmente o seu nome, Cícero, Bahia.
É pai de João da Costa Pinto Dantas e foi ele que, no final do século XIX,
reconstruiu a casa de moradia do Sítio Camurciatá. A obra, concluída em 1894,
reerguia o antigo casarão de onde seu avô comandou o levante de 1822 em apoio
ao General Labatut e a independência do Brasil.
João
da Costa Pinto Dantas era o filho mais velho do Barão e sua herança, além do
capital político do pai, foi composta por inúmeras fazendas sertanejas, antigo
reduto político da família.
Essas
fazendas foram habitadas pelos cangaceiros após a chegada de Lampião à margem
direita do Rio São Francisco em 1928 e o assédio de cangaceiros às propriedades
de João Dantas. Vejamos uma dessas tentativas através do bilhete escrito por
Corisco:
lmo Exmo Sr
Dotor joão da Costa pinto dantas u fim desta carta he somente pedir
A Vx que mi mande a cantia de 5$000000 Cinco Conto de Reis se o Sr não ignora
porquei não posso trabalha .................. sustentar meus rapazes se o
governo não me deixa trabalha portanto peço mi mande como Sem falta espero
resposta tão logo que Receba eu procuro para a fazenda Barriguda
Sem mais nada
Cristino Gomes da Silva
Vulgo Curisco
Esse
bilhete foi escrito em 1932 e foi anexado ao processo movido por João Dantas e
seus advogados contra a fazenda pública, no documento, a defesa alegou que
essas renitentes investidas causaram grande prejuízo ao fazendeiro e evocou o
direito à propriedade privada como principal base retórica para justificar uma
indenização ao proprietário lesado pelos cangaceiros ao longo de vários anos.
O
processo em questão retrata a conflituosa relação entre os cangaceiros e um dos
grandes proprietários de terras do sertão que aparentemente não cedeu às
investidas de Lampião e de seus homens. João Dantas preferiu agir diferente de
outros homens de posse como o Coronel João Sá, que se aliou a Lampião e outros
tantos grandes proprietários de terras que, ao invés de ir para o confronto, se
aproveitaram da amizade com os cangaceiros para conseguir vantagens.
[i]
Coronel João Dantas dos Reis (1802 - 1872)
Comandante Superior da Guarda Nacional e deputado provincial da Bahia.
Comendador da Ordem de Cristo e da Imperial Ordem de Pedro Primeiro por sua
participação na Guerra de Independência da Bahia em 1823. Foi pai de Cícero
Dantas Martins, primeiro e único barão de Jeremoabo.
Referências:
Arquivo Público do estado da Bahia (APEB) –
secção judiciária;
Blog
História do Sertão.