O foco desse blog é a pesquisa da história do Sertão baiano.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Lampião contra João da Costa Pinto Dantas: O cangaceiro contra o político que não lhe deu guarida.


 

OS DEPOIMENTOS:

         

Era manhã de agosto de 1932, no arraial de Nova Olinda, hoje Olindina, Bahia. Na feira semanal do arruado, moradores das redondezas se reuniam para a compra dos mantimentos, comerciantes de diversas localidades expunham seus produtos à venda. Carnes, frutas, verduras e animais vivos eram negociados ao som dos ambulantes que gritavam suas ofertas.

          Nada havia de divergente naquela manhã. A exceção eram os rumores de que o bando de Lampião rondava pela região e o estranho comportamento de um grupo de soldados comandados pelo Tenente Abdias Freire de Andrade que, mesmo com o murmurinho da proximidade dos cangaceiros, acampava a cerca de dois quilômetros do arruado de Nova Olinda.

          Por volta das oito horas, os transeuntes se assustam com um bando de oito homens armados e montados a cavalo que entram no arraial fazendo alarde. Naquele momento, provavelmente todos se deram conta de que o bando do temido Lampião estava atacando Nova Olinda.

          Foi um ataque atípico, sem resistência, os cangaceiros ficaram à vontade para extorquir, agredir e destratar quem julgassem necessário. O comerciante João de Matos Monteiro, foi intimado pelo próprio Lampião a dar-lhe um conto de réis, diante da impossibilidade do pagamento, a vítima foi amarrada a uma árvore. Os ataques e insultos continuam até a tarde, quando o bando, conforme seus interesses, parte em direção ao sítio Camurciatá, antiga propriedade da família Dantas, sem que nenhuma atitude fosse tomada pela volante instalada próximo ao arraial.

          Na sequência, o bando cavalga pela estrada que liga Nova Olinda a Itapicuru e logo chega ao Camurciatá. O tiroteio entre cangaceiros e os funcionários da fazenda é intenso, o administrador da fazenda de nome José Correia é morto a tiros e outro funcionário conhecido por João Fructuoso é ferido. Mesmo com a vantagem numérica e bélica, o bando não consegue tomar a fazenda e se retira, na passagem por outras propriedades adjacentes, os cangaceiros fazem grande estrago, matam animais e incendeiam casas, deixando pra trás um rastro de destruição.

          A história que você acaba de ler, consta em um processo aberto por João da Costa Pinto Dantas, dono do Camurciatá e das propriedades Tijuco , Lagoa do Paulo , Cruz, Jacuricy, Lagoa do Soares e outras propriedades, todas afetadas pela ação violenta de Lampião e seus homens.

O processo foi aberto pelo proprietário das fazendas contra o Estado, tendo como seus advogados o seu filho Arthur da Costa Pinto Dantas e Advaldo Luz. Entre os depoimentos estão o do médico Possidônio Guimarães, na época com 54 anos. Possidônio era morados da vila de Nova Olinda e ocupava importante carago na saúde pública. O médico afirmou em juízo que, chegando de viagem na véspera do ataque, ficou sabendo dos boatos que davam conta de que Lampião e seu bando estavam pela redondeza, como medida de segurança, procurou a estação do telégrafo local e fora informado de que a notícia já teria sido enviada à Cipó e Inhambupe.

De acordo com o seu relato, o bando contava com nove homens, Lampião, Maçarico, Esperança, Lamparina, Labareda, Azulão, Zé Baiano, Pancada e Cajazeira. Reporta que Maçarico, “Logo ao apear-se” dirigiu-se à sua residência, na casa do médico, o cangaceiro se apossa de 20 mil réis e de diversos objetos de valor, alguns de ouro, até mesmo o anel de médico do dono da residência foi surrupiado pelo bandido.

Possidônio alega ainda que o bando gozava de muita tranquilidade na vila, Lampião e seus homens teriam almoçado, bebido e dançado até as 15h horas, quando saíram alardeando que iriam direto ao Camurciatá.

Outro testemunho importante foi o de Manoel de Souza Dórea, 35 anos, também morador de Nova Olinda. Este homem foi obrigado pelo bando a seguir como guia até as propriedades que posteriormente sofreriam as ações dos cangaceiros. Em juízo, declara que o bando foi saqueando residências no caminho entre Nova Olinda e o Camurciatá, é dele o relato que melhor representa o tiroteio na propriedade de João Dantas.

“Fomos Recebidos à bala”, alega. Logo ao chegar ao sítio, os funcionários entrincheirados na casa grande abriram fogo contra o grupo, usavam armas mais antigas, como espingardas e bacamartes, o administrador da fazenda tomba mortalmente ferido e um outro funcionário é atingido sem gravidade. Os cangaceiros não conseguem avançar, são alvejados do alto pelos funcionários.

Manoel Dórea alega ter alertado Lampião antes da chegada ao Camurciatá, afirmando saber (ele, o declarante) que havia muito armamento na propriedade. De acordo com o seu relato, Lampião teria dito estar informado de que a propriedade não estaria bem protegida e que havia muito dinheiro no antigo sobrado da família.

Diante da impossibilidade de avançar, os cangaceiros batem em retirada levando Manoel Dórea que é obrigado a informar outras propriedades de João Dantas nas redondezas. Nessas fazendas secundárias, cortam cercas de arames, derrubam cercas de madeira, incendeiam a casa da fazenda Tijuco e da Lagoa do Paulo, queimam currais e matam animais e vão pernoitar na fazenda Cruz, onde permanecem até as 3:30 da madrugada, de onde seguem até o lugar denominado Raiz de Pindoba, nesta última propriedade, o guia é autorizado a retornar para Nova Olinda.

 

A VOLANTE DE ABDIAS FREIRE DE ANDRADE

 

 O Tenente Abdias Freire de Andrade (Foto), contava com um significativo poder de reação naqueles dias dos ataques à Nova Olinda e ao Camurciatá. Sua volante era equipada com fuzis e metralhadora, esta última, uma novidade para a época. Se deslocava com um caminhão e possuía a superioridade numérica, uma vez que contava com 20 praças e dois oficiais, ao passo que lampião e seu bando estavam em número de 9 homens.

A passividade do grupamento de polícia, contudo, parece ter sido algo muito desproporcional ao seu poderio, tanto que, no processo, várias testemunhas citam a falta de reação do grupo que, de acordo com os depoimentos, tinham condições não só de deter os referidos ataques, mas, se agissem no momento do tiroteio no Camurciatá, de liquidar Lampião e seu bando.

Eis a alegação dos advogados do fazendeiro:

 

Que todos estes acontecimentos, ocorreram por falta de providências do poder público, pois é fato comprovado, que vinha no encalço do bando um contingente policial, composto de vinte praças, sob o comando do tenente Abdias Freire de Andrade, tendo como imediato o tenente José Américo de Freitas, contingente completamente equipado, com fuzis, metralhadoras e tinha para sua condução um “alto caminhão”. Entretanto o contingente nada fez e nenhuma providencia tomou, antes pelo contrário, facilitou a ação dos bandidos, mantendo-se inerte, segundo testemunhas arroladas e ouvidas nos autos, num ato de covardia ou cumplicidade. Assim é que enquanto os bandidos depredavam e saqueavam Nova Olinda, o contingente policial, embora bem armado, permaneceu inerte, distante cerca de quinhentos metros da então Vila e somente nela penetrando, depois de cientificada de que o bando havia saído e dirigidos para a fazenda Camurciatá.

As alegações acerca da falta de ação da força do Tenente Abdias tomam mais corpo e fica mais evidente, quando a ação nas imediações do Camurciatá é narrada. De acordo com testemunhas, os soldados e oficiais seguiram tardiamente na direção tomada pelos cangaceiros, mas chegando lá com o tiroteio ainda em ocorrência, limitaram-se a assistir ao longe o embate entre cangaceiros e funcionários de João Dantas. É o que relata a defesa nos autos:

 

Que saindo o contingente referido em direção de Camuciatá, onde poderia ter chegado muito antes dos bandidos , pois estes andavam a cavalo e por  escalas o contingente policial viajava em caminhão-bês , no entanto , viagem de cagado  , estacionando na margem direita do rio Itapicuru – oposta a fazenda Camuciatá – e nesse local permaneceu , como espectador , apreciando perfeitamente o tiroteio travado entre os bandidos e os defensores da casa de residência do Camuciatá.

 

Essa atitude da polícia, serviu de gatilho para a abertura do processo contra a fazenda pública, contudo, na mesma peça, a defesa insere outros ataques a propriedades em diversos locais onde o fazendeiro possuía terras conforme veremos a seguir:

 

JOÃO DA COSTA PINTO DANTAS.

 

Os Dantas chegam ao sertão da Bahia através da família Ávila, o primeiro indivíduo com tal sobrenome a se aliar à poderosa casa da Torre é João Dantas dos Imperiais Itapicuru. Nascido em 8 de março de 1773 e falecido a 9 de maio de 1832. João Dantas dos Imperiais vem a ser bisavô de João da Costa Pinto Dantas. Foi procurador da casa da Torre e aproveitando a decadência da família Ávila, iniciou a compra de enormes porções de terras no sertão. Esse movimento
foi seguido por um de seus filhos. João Dantas dos Reis[i] (foto).


Nos registros eclesiásticos de terras, João Dantas Portátil e o supracitado filho, aparecem como proprietários de 80 fazendas no sertão, criando um enorme latifúndio que seria herdado por Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo.

O Barão nasceu em 28 de junho de 1838 e faleceu em 27 de outubro de 1903, está sepultado na igreja da cidade que carrega atualmente o seu nome, Cícero, Bahia. É pai de João da Costa Pinto Dantas e foi ele que, no final do século XIX, reconstruiu a casa de moradia do Sítio Camurciatá. A obra, concluída em 1894, reerguia o antigo casarão de onde seu avô comandou o levante de 1822 em apoio ao General Labatut e a independência do Brasil.

João da Costa Pinto Dantas era o filho mais velho do Barão e sua herança, além do capital político do pai, foi composta por inúmeras fazendas sertanejas, antigo reduto político da família.

Essas fazendas foram habitadas pelos cangaceiros após a chegada de Lampião à margem direita do Rio São Francisco em 1928 e o assédio de cangaceiros às propriedades de João Dantas. Vejamos uma dessas tentativas através do bilhete escrito por Corisco:

lmo Exmo Sr Dotor  joão da Costa pinto dantas u fim desta carta he somente pedir A Vx que mi mande a cantia de 5$000000 Cinco Conto de Reis se o Sr não ignora porquei não posso trabalha .................. sustentar meus rapazes se o governo não me deixa trabalha portanto peço mi mande como Sem falta espero resposta tão logo que Receba eu procuro para a fazenda Barriguda

 

Sem mais nada

Cristino Gomes da Silva

Vulgo Curisco

 

Esse bilhete foi escrito em 1932 e foi anexado ao processo movido por João Dantas e seus advogados contra a fazenda pública, no documento, a defesa alegou que essas renitentes investidas causaram grande prejuízo ao fazendeiro e evocou o direito à propriedade privada como principal base retórica para justificar uma indenização ao proprietário lesado pelos cangaceiros ao longo de vários anos.

O processo em questão retrata a conflituosa relação entre os cangaceiros e um dos grandes proprietários de terras do sertão que aparentemente não cedeu às investidas de Lampião e de seus homens. João Dantas preferiu agir diferente de outros homens de posse como o Coronel João Sá, que se aliou a Lampião e outros tantos grandes proprietários de terras que, ao invés de ir para o confronto, se aproveitaram da amizade com os cangaceiros para conseguir vantagens.

 


[i] Coronel João Dantas dos Reis (1802 - 1872) Comandante Superior da Guarda Nacional e deputado provincial da Bahia. Comendador da Ordem de Cristo e da Imperial Ordem de Pedro Primeiro por sua participação na Guerra de Independência da Bahia em 1823. Foi pai de Cícero Dantas Martins, primeiro e único barão de Jeremoabo.

 

Referências:

Arquivo Público do estado da Bahia (APEB) – secção judiciária;

Blog História do Sertão.

 


quarta-feira, 12 de março de 2025

Corisco na Fazenda Barriguda.

 

Corisco.

A Fazenda Barriguda é hoje parte da sede do município de Fátima, fica próximo ao Pisa Macio e faz fronteira com a Maria Preta. No século XIX, essa propriedade foi adquirida pela família Dantas, em 1856, ela aparece registrada em nome de João Dantas dos Reis, pai do Barão de Jeremoabo.

          A propriedade foi herdade pelo Barão e após a sua morte, em 27 de outubro de 1903, passou ao seu filho mais velho que ficou com essa fazenda e mais 34 propriedades no sertão baiano.

          Quando o cangaço passa a ser uma dura realidade para a Bahia, a partir do final de 1928, quando Lampião e sete dos seus homens cruzam o São Francisco e passam a atuar mais ativamente em território baiano, João da Costa Pinto Dantas era o maior proprietário de terras da região e como tal, foi assediado por cangaceiros que tentavam extorquir dinheiro do rico fazendeiro.


João da Costa Pinto Dantas.

Uma das formas clássicas de extorsão por parte dos cangaceiros era o envio de bilhetes com um linguajar rústico, dotado de ameaças sutis ao destinatário. Foi o que Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco) em 1932, quando, de local ignorado, envia a João Dantas a seguinte correspondência, transcrita por André Dantas, descendente do barão:

 

          Ilmo Exmo Sr Dotor  joão da Costa pinto dantas u fim desta carta he somente pedir A Vx que mi mande a cantia de 5$000000 Cinco Conto de Reis se o Sr não ignora porquei não possoo trabalha .................. sustentar meus rapazes se o governo não me deixa trabalha portanto peço mi mande como Sem falta espero resposta tão logo que Receba eu procuro para a fazenda Barriguda

 

Sem mais nada

Cristino Gomes da Silva

Vulgo Curisco



          Para nós, fatimenses, a novidade neste bilhete está em sua parte final, que tem a finalidade de combinar com o destinatário, o local de entrega do dinheiro solicitado pelo bandido Corisco. Como se pode observar no texto, Corisco combina a entrega na Fazenda Barriguda, o que demonstra que ele e seu grupo se encontrava nas proximidades.

          Esse documento, com efeito, é a primeira evidência clara da presença do Diabo Loiro, segundo homem na hierarquia do cangaço, em terras Fatimenses. Essas informações, como dito, foram retiradas do processo movido pelos advogados de João da Costa Pinto Dantas contra Lampião. Esse documento me foi gentilmente enviado pelo amigo Robério Santos.

         

Moisés Reis, Professor há 24 anos do município de Fátima, Licenciado em História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira pela UNIASSELVI, Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das obras: Manual Didático do Professor de História - O Nazista - Fátima: Traços da sua Histórias - O Embaixador da Paz - Maria Preta: Escravismo no sertão baiano – Últimos Cangaceiros, Justiça, prisão e liberdade - da HQ Histórias do Cangaço e do documentário Identidade Fatimense.


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