No
último dia 11 de janeiro, publiquei aqui no Blog HISTÓRIA DE FÁTIMA uma
história que gerou as mais diversas reações das pessoas que nos acompanham por
aqui. Na oportunidade, com a ajuda dos sempre parceiros deste Blog Juan Kléber
e Eduardo Pires, fiz um apanhado de tudo aquilo o que a memória popular guardou
do assassinato de João Lucindo.
O texto
intitulado “Quem foi João Lucino” trouxe, como dito, um juntado de informações
colhidas em entrevistas com pessoas mais velhas da cidade, reunindo fragmentos
de memórias com o objetivo de fazer o registro da narrativa de um assassinato
ocorrido em Fátima quando esta ainda se chamava Mocó.
Essa mesma
história, entretanto, renderia novos capítulos. Acontece que, em pesquisa no
enorme acervo do Arquivo Público do Estado, me deparei com o processo crime do
caso. Para os que não estão familiarizados, o processo crime é a reunião dos
depoimentos das testemunhas da época, acusados, mandados de prisão e todos os
procedimentos tomados pela justiça na época que o crime foi cometido.
De posse
dessa documentação, pude acessar informações que, naturalmente, não constavam
na memória dos mesmos interlocutores citados acima e isso tem uma razão. Na época
do crime, a justiça manteve determinados fatos em segredo e a maioria das
pessoas daquele período e, posteriormente, seus descendentes, jamais tiveram
acesso a alguns dos detalhes que revelarei a seguir.
Com o
processo em mãos, pude identificar, com a ajuda de inúmeros amigos para quem
liguei, mandei mensagem ou conversei pessoalmente, alguns ancestrais de
diversas famílias fatimenses. Da minha família, por exemplo, diversos indivíduos
tiveram participação no crime, entre eles, Ângelo José de Souza (Isso mesmo, Ângelo
Lagoa, o fundador da cidade), meu trisavô e também o seu genro, Manoel Reis do
Nascimento, que seria o meu bisavô.
Fiz questão
de, inicialmente, revelar os meus antepassados, na esperança de quebrar todo o
tabu que gira em torno desse caso e, em contrapartida, me sentir um pouco mais confortável
em revelar os demais envolvidos em um caso que, como dito, é evitado ainda hoje
por muitos fatimenses. Vamos aos fatos
constantes no processo:
Era uma
tarde de 18 de dezembro de 1919, um casal que residia na ilha retornava de cansativa
viagem a Simão Dias - SE pelas estreitas e arenosas estradas daquele período. Caminhavam
em direção ao sol, enquanto mantinham a Serra do Mocó à sua esquerda. A ilha
era o destino final dos viajantes que tinham duas opções de caminho nas adjacências
do lugarejo chamado de Mocó.
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Uma era
por onde hoje é estrada que liga a zona urbana de Fátima à fazenda Jeep, beirando
a Serra do Mocó e saindo onde hoje é a praça da igreja (essa estrada ainda hoje
recebe a denominação de Estrada do Mocó) e a outra opção era por onde hoje é parte
da Av. Nossa Senhora de Fátima, saindo próximo a atual igreja Assembleia de
Deus.
É ignorada
a razão pela qual João Lucindo e sua Esposa, Cândida Maria de Jesus, na época
com 36 anos, tomaram o segundo caminho, fato é que, nas imediações de onde hoje
é já citada igreja, havia uma frondosa árvore, uma quixabeira, para ser mais
específico, onde o casal resolveu descansar da viajem antes de seguir até a
Ilha.
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Não demorou
muito até que tiros foram ouvidos, era um grupo de homens que saia do mato
fechado atirando na direção de João Lucindo que tombou alvejado em diversas
partes do corpo, os agressores avançaram e retiraram a arma que a vítima
carregava consigo enquanto coronhadas de fuzil massacravam o corpo de João
Lucindo, principalmente na cabeça. A esposa gritava em desespero enquanto o
crime era consolidado, estava morto João Lucindo.
Após consumar
a morte, Manoel Reis do Sant'Ana, conhecido como Yoiô da Lalá, avançou contra
a viúva em prantos e tentou esganá-la com as próprias mãos e foi impedido por
Ângelo Lagoa, uma senhora que morava próximo ao local do crime veio em socorro
e retirou Cândida Maria do local. Estava consumado um crime de vingança,
cometido por homens que habitavam uma terra dura, com um estado ausente e onde
a vida valia muito pouco. Era o início de um processo longo que repousou por
cem anos nas páginas amareladas pelo tempo sob a guarda do Arquivo Público do
Estado da Bahia.
O
processo só foi oficialmente aberto quase dois anos depois do fato, a 12 de
maio de 1922, quando os acusados iniciam uma longa romaria que os levaria a
responder pelos seus atos. Inicialmente foram nove acusados:
·
1- José Veríssimo Ribeiro;
·
2- Manoel Reis de Sant’Ana (Yoiô de Lalá),
·
3- Ângelo José de Souza (Ângelo Lagoa,
residente na Serra do Mocó), 4- José Vieira de Souza (José Lagoa)
·
5- Manoel Geraldo das Pedrinhas,
·
6- Francisco André dos Reis,
·
7- João Gualberto dos Reis,
·
8- Manoel Reis do Nascimento,
·
9- José André dos Reis (os três últimos eram
conhecidos como filhos Chico, João e Manoel de Totonho André).
Obs: Vou
me poupar o possível desgaste de relatar a quais famílias cada um dos acima
listados pertencem, deixo isso a cargo do leitor.
Os depoimentos
que se seguem, dão conta de uma história intrincada e uma “justiça histórica”,
pois acreditava-se que João Lucino Havia deflorado uma moça do Mocó e por isso
teria sido morto, entretanto, as informações do processo são consistentes em
afirmar que o defloramento de fato existiu, mas não foi praticado pela vítima,
mas sim com uma sobrinha desta. A cada depoimento, novos fatos são
acrescentados e toda a trama vai sendo refeita aos olhos das testemunhas oculares.
A primeira
pessoa a depor é justamente a viúva. De acordo com ela, ao levar os primeiros
tiros, João Lucino gritou: “Estão me matando” e tombou baleado. É dela o relato
mais dramático e detalhado das agressões pós tiro. Ao final do seu depoimento,
é questionada se teria mais alguma coisa a declarar e a sua resposta é
reveladora:
“respondeu
que a declaração que tinha a fazer era do motivo do crime; o que o crime foi
uma injustiça por João Grande ter tomado umas pancadas por haver deflorado uma
sobrinha de João Lucindo (palavra ilegível) cujo defloramento ficou impune”.
O
trecho “Mandou dar umas pancadas” é mais detalhado adiante e, com efeito, revela-se
bem mais dramático que este relato inicial.
Boa
parte das principais famílias que compõem a sociedade fatimense hoje em dia, já
habitam essa área do sertão baiano desde o final do século XIX. A família Félix, linhagem de João Maria de
Oliveira, é um exemplo disso. Dois desses ancestrais são depoentes no processo.
O primeiro é Francisco Félix de Oliveira (Chico Félix), na época com 34 anos,
nascido em 1885 na Laje da Boa Vista. Ele alega ter encontrado João Grande e
Joaquim Grande armados em tocaia na estrada de Sergipe.
João
Grande e Joaquim Grande não haviam aparecido no processo até aqui, mas se
revelarão personagens importantes da história, pois o defloramento citado acima
foi praticado por João Grande e foi ele que levou uma surra vigorosa de João
Lucindo como vingança e essa surra, como vimos, é o que motivaria o crime.
Na sequencia
do processo, temos o Rol de Testemunhas, pessoas da época arroladas para depor
no caso:
Paula
Borges de Santana, Pedro Félix de Oliveira, Manoel Joaquim do Nascimento, José
de Souza Quirino.
O
delegado atendia pelo nome de Filadelpho Pereira das Neves e o promotor do caso,
de Alfredo Luiz, esses, residente à época em Cícero Dantas.
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O local
do crime era conhecido como Baixa dos Coelhos. Naquele tempo, a área próximo
a referida igreja que hoje está urbanizada, era apenas um riacho seco na maior
parte do ano com árvores da caatinga que lhe cobriam o leito, por onde o
estreito caminho carroçável passava. Como se sabe, a denominação Baixa do
Coelho caiu em desuso e hoje não é mais conhecida pela população local.
O
depoimento de um garoto de 13 anos (Tio do ex-prefeito Osvaldo Ribeiro) revela
que a tocaia contra João Lucindo foi armada horas antes do crime. De acordo com
Manoel Ribeiro do Nascimento, que residia na Surjoa, seu pai o havia enviado à
casa de um certo Silvério, na Lagoa da Volta. Ao chegar no lugar da estrada
onde os homens faziam campana, foi obrigado a voltar. Ao chegar em casa, de
acordo com o depoimento, contou ao seu pai, Manoel Joaquim do Nascimento (Avô
do mesmo ex-prefeito Osvaldo Ribeiro) e contou o ocorrido. Diante do relato do
filho, Manoel Joaquim se dirigiu até a localidade indicada, achando tratar-se
de um assalto, muito comum nessa época e região. A meio caminho, Manoel Joaquim
ouviu os tiros enquanto se aproximava ao longe.
O
próximo depoimento é da moradora que socorreu a viúva de João Lucindo e a
acolheu em sua casa:
Theodora Maria das Virgens, 31
anos, nascida em 1891, casada, moradora da laje. Perguntada sobre os fatos,
disse que estava em casa, quando ouviu o barulho dos tiros e uma mulher
gritando por socorro (trecho ilegível) um grupo de homens armados que lhe
disse: vai olhar para João Lucindo que está de pernas para cima ali na estrada
morto para servir de testemunha? E chegando no lugar onde estava a vítima,
encontrou a viúva, estando como morto João Lucindo. Viu uma turma de homens
armados, não sabendo as armas (trecho ilegível) umas espingardas e outros –
Respondeu não saber quem mandasse praticar o crime – respondeu que estima os
acusados como amigos, mas que ultimamente tiveram uma rusga e ficaram inimigos,
não sabendo exatamente a razão – respondeu que a vítima tinha por procedimento
trabalhar muito.
É
interessante notar, com esse pequeno fragmento, como a comunidade local da
Serra do Mocó já tinha laços fortes no distante ano de 1919, contrariando a
ideia antiga de que o povoamento local era de meados dos anos 1920.
Pedro
Félix de Oliveira, 30 anos na época, nascido em 1892, casado, natural da Lage
da Boa Vista. Disse estar em um tanque quando alguém passou pedindo para ir
acudir João Lucindo. Ele e Manoel Félix, seu irmão, foram ao lugar referido e
encontraram a viúva chorando dizendo que tinham assassinado seu marido, o qual
estava prostado no chão com muitos ferimentos de bala do peito para cima, o
corpo e a cabeça machucados.
Félix
José de Oliveira é o descendente dos Félix (linhagem de João Maria de Oliveira)
mais antigo a ser notado na região da Serra do Mocó. Na oportunidade tinha 73
anos, nascido em 1849 em Patrocínio do Coité (atual Paripiranga), era casado e
morava na laje da boa vista. Afirmou em depoimento que não viu o acontecido e que
falaria o que ouviu falar a respeito. Foi a ele que um dos envolvidos, Camilo
de José Veríssimo, relatou não se arrependeu do crime, pois haviam matado uma
cobra. A Félix José, José Veríssimo, que era seu compadre, teria afirmado que
não teria sido ele propriamente o autor dos tiros, mas não negou estar entre os
algozes.
Manoel
Joaquim do Nascimento (avô de Osvaldo Ribeiro), tinha 60 anos na época, nascido,
portanto, em 1862, casado, lavrador, morador da Laje, natural do Licuri. Manoel
confirmou a versão do filho, dizendo ter mandado o menino na Lagoa da Volta e
chegando na Baixa do Coelho, o garoto topou com a tocaia de homens
armadas que o fizeram voltar para a sua casa.
José
Veríssimo parece mesmo ter sido um dos personagens principais na trama. Tinha 63
anos de idade na época, nascido em 1859.
“filho de Francisco Ribeiro do
Nascimento, casado, natural da Cotia, sabendo ler e escrever”.
No julgamento, confirmou que o assassinato deu-se em
virtude de brigas ocorridas após o defloramento. Após esse fato, João Lucindo
(que ficou para a história como “um valentão”) deu uma surra em João Grande e
depois em outras duas pessoas, um homem feito, Joaquim Francisco dos Reis, e um
rapazote, João Porfírio dos Reis (Zé Miúdo), esse último quase foi castrado
pelo fariseu da Ilha de São Pedro.
João Lucindo
estava mesmo condenado por seus atos violentos, ao que consta, feriu a honra de
diversas famílias da região do Mocó em um tempo em que sangue se pagava com sangue
e com isso assinou sua sentença de morte. Tanto é que João Grande gritava aos
sete cantos que na Ilha ele não ficava, pois o mataria e no dia da tocaia, dois
grupos de homens o aguardavam, um onde se deu o fato e outro na estrada do
Mocó, que desembocava na atual praça da igreja.
O assassinato
parece ter sido, ao menos inicialmente, motivo de orgulho para os algozes de João
Lucino, mas a abertura do processo trouxe complicações a estes, como podemos
depreender do mandado de prisão contra eles assinado a dezoito de maio de 1922,
ordenando a prisão de:
José Veríssimo Ribeiro
Manoel Reis de Sant’Ana
Ângelo José de Souza
João Gualberto dos Reis
Manoel Reis do Nascimento
Camilo Ribeiro da Silva
Manoel Corcino dos Reis
Francisco Antônio dos Reis
José Vieira de Souza
José Antônio dos Reis
Todos foram recebidos na cadeia de Cícero Dantas, conforme
auto de recebimento abaixo:
Recebi e ficam recolhidos à cadeia
pública, desta vila os acusados respectivos. Cadeia Pública da Vila de Cícero
Dantas 19 de maio de 1922. Carcereiro João Francisco Filho.
Não se sabe ao certo por quanto tempo os acusados ficaram
presos, essa informação não existe no processo, nem foi guardada na memória
popular. Muitos entrevistados, aliás, nos relataram que as pessoas daquele
tempo faziam um esforço descomunal para esconder a situação, sobretudo das
crianças. Fato é que, ainda no ano de 1922, Sabino Dias da Silva, Juiz do caso,
emitiu ordem de soltura que contemplava todos os acusados do crime.
O caso da morte de João Lucino é um exemplar sem igual. Através
dele, podemos acessar informações importantíssimas que vieram a confirmar que a
região onde hoje é Fátima já era habitada de forma significativa na segunda
metade do século XIX, trouxe mais robustez no estudo dos primeiros troncos
familiares a se fixarem por aqui e forneceu elementos consistentes de como a
vida era tocada nessa região nas primeiras décadas do século XX, mas o elemento
mais importante de tudo isso, a meu ver, é o contraponto importante feito das
fontes orais por intermédio do processo. Comparando as informações que ficaram
para a posteridade através da memória, podemos observar como os fatos são
ressignificados, memórias são reformuladas, moldadas e até mesmo criadas no
imaginário popular. Nesse sentido, um caso em particular me chamou a atenção,
um senhor nascido em 1935, treze anos após o assassinato, jura que acompanhou os
fatos pessoalmente, revelando um caso clássico e maravilhoso de falsa memória.
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